
Deu Messi, de novo. O craque levou a Argentina à segunda vitória na Copa e garantiu a campeã mundial na próxima fase, por antecipação. Os gols marcados no 2 a 0 fizeram dele o maior goleador da história das Copas, com 18, deixando Klose para trás (16).
Mais do que um jogo de Copa, foi um espetáculo ver Messi em campo e o quanto ele mobiliza. A Argentina tem duas torcidas. A sua, com os hermanos apaixonados e fanáticos pela seleção, e a dos devotos de Messi. Arriscaria dizer que dava quase meio a meio na refrigeradao e suntuosa AT&T Arena, a casa do Dallas Cowboys.

Ar-condicionado
Aliás, o cara do ar-condicionado daqui do estádio, esse eu recomendo. Porque, com 70 mil pessoas, a climatização funcionou a pleno. Até demais. Me arrependi de não ter trazido o quebra-vento incluído pela RBS no nosso kit de viagem.
Bom, mas isso foi problema meu. Os argentinos e os seguidores de Messi, esses nem perceberam o frio no estádio coberto que contrastava com os 34ºC e a umidade altíssima lá do lado de fora. Isso porque Messi magnetiza seus devotos.
Ninguém tira o olho dele. E ninguém também larga a mão dele. Logo aos três minutos, veio o pênalti em Lautaro Martínez. O VAR entrou em ação e demorou um bocado para confirmar. Aos oito, Messi se posicionou para bater. Bola na rede e kit completo: maior goleador em Copas, 1 a 0 Argentina e todos os de azul e branco felizes. Só que tirou demais de Schlager, o goleirão de 1m88cm, e colocou para fora. Acontece com os craques também.

O que não acontece com todo mundo foi a reação instantânea da torcida. O estádio irrompeu em longos e sonoros "Méééééésssssiiiiiii", completando com reverências. Em seguida, todos aplaudir. Messi ouviu. Mas baixou a cabeça, e o telão de 49m de comprimento, mostrou-o se cobrando e meneando o pescoço.

Áustria cresceu no jogo
Depois disso, a Áustria se arvorou. Saiu para o jogo, trocou passes, triangulou pela esquerda, liderada por Sabitzer, do Dortmund, Laimer, do Bayern. Criou perigo em algumas situações, embora não tenha conseguido, de fato, fazer Dibú trabalhar. Só que o jogo ficou tenso.
Os argentinos e os devotos de Messi silenciaram. Só se manifestaram quando Messi entrou na área e, ao arrematar, foi bloqueado. Esse lance foi dele. Tocou de primeira para Almada e rasgou área adentro para fazer o gol. Porém, uma parede de vermelho e cabelos loiros estava à sua frente. No lance seguinte, foi Sabitzer o bloqueado na área. Seria gol da Áustria não fosse Cuti Romero.
A parada para hidratação veio, e o torcedor, um tanto angustiado, a vaiou. Aqui, é preciso fazer esse registro. O público do futebol não curtiu essa ideia de fazer o jogo em quatro tempos. Mesmo que alguns tenham aproveitado para ir correndo ao banheiro, essa ideia de intervalos comerciais será difícil de colar no futebol. A Fifa até colocou as cheerleaders do Dallas Cowboys com suas coreografias no telão. Mas isso combina mais com hot-dog e hamburguer do que com Copa. Enfim.
Conexão com Maradona
O jogo voltou com o mesmo panorama. Nenhum dos técnicos mudou radicalmente a vida nesses três minutos e meio em que as cheerleaders se esforçaram em suas coreografias e no sorriso de propaganda de pasta de dente. Aos 36, Lautaro até criou bom contra-ataque, mas Enzo cruzou para, talvez, o espírito de Diego dentro da área. Aliás, esse jogo em Dallas tem conexão com ele. Foi aqui que Maradona recebeu a notícia do positivo em seu doping no jogo contra a Grécia. na Copa de 1994. Ao ser inforado, soltou uma de suas frases mais marcantes:
— Me cortaron las piernas.
As de Messi, não
Bom, por sorte, não cortaram as de Messi. Nem a de Almada. Aos 39, o ex-Botafogo deu corta-luz em cruzamento da esquerda e abriu um clarão para Messi. Com classe, ele deslocou Schlager e fez 1 a 0. O gol tão esperado chegou. O 17º em Copas, deixando Klose para trás. Logo, as duas torcidas, a de Messi e a da Argentina, irromperam em som só:
"Veni, veni, canta conmigo
Que un amigo vas a encontrar
Que de la mano de Leo Messi
Todos la vuelta vamos a dar".

Hermanos enlouquecidos
A tarde estava ganha para quem pagou (e caro) pelo ingresso. O telão mostrou Manu Ginóbili, ídolo argentino do basquete, o cara do time que derrotou o Dream Team e depois ganhou Ouro em Atenas 2004. Os Hermanos foram à loucura. Tudo parecia festa. Só que havia jogo, e uma Áustria interessada.
Pressão da Áustria
O segundo tempo foi da Argentina, em alguns momentos, acossada. Dibu salvou o que seria um golaço de falta. Romero levou amarelo, e Scaloni precisou trocá-lo para evitar um vermelho. Veio Otamendi, o xerife desse condado de Messi. O jogo ficou tenso. Parecia até combinado, mas o telão fechou em Shakira, sentada entre seus filhos, em um camarote. O estádio aplaudiu. E o telão mostrou-a de novo. Shakira respondeu com acenos e beijinhos. Mas o campo, para os argentinos, tinha bem menos sorrisos.

Trocas no time
Scaloni repetiu trocas da estreia e mandou a campo Nico González e Julián Álvarez nos lugares de Almada e Lautaro. Renovou o gás para buscar o gol que liquidaria tudo. Só que a Áustria seguia perigosa. O jogo estava quente e, então, chegou a hidratação. Houve vaias e propaganda de um isotônico no telão. Business, meu amigo. Para animar a galera, o sistema de som soltou Makarena. Quase ninguém dançou. O jeito foi esperar passarem os três minutos, cronometrados no telão que mostrava, a essa altura, os torcedores.

Messi, de novo
O recomeço do jogo foi melhor para a Argentina. Messi cobrou escanteio, Nico González quase marcou. A Áustria trocou. Tentou com Arnautovic, veterano, 37 anos, quase contemporâneo de Cindelar, o ídolo dos austríacos que desafiou Hitler e ganhou jogo realizado logo depois da anexação do país pela Alemanha. Cindelar apareceu morto em seu apartamento dias depois. Enfim, embora esforçados, os austríacos conservaram pouco de Cindelar.
Assim, a Argentina levou o jogo. No final, Messi ainda ampliou após confusão na área: 2 a 0.
Vitória, a classificação e, mais do que isso, entregou mais um dos últimos bailes de Messi. Não foi de gala, mas foi de gols, o 17° e o 18º dele em Copas.

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