
Princípio sagrado desde as primeiras edições dos Jogos Olímpicos, a "trégua olímpica" visa promover a paz entre as nações durante o evento esportivo a fim de que conflitos não sejam criados no decorrer das competições. Por mais que a Fifa não tenha nenhuma regra clara como o Comitê Olímpico Internacional (COI) sobre tréguas, o impacto do futebol pode servir como um apaziguador.
Dada a importância mundial e a mobilização, a Copa do Mundo tem a capacidade de ser um alívio para populações que enfrentam tensões, conflitos e até guerras. Há quem diga também que o torneio pode ter um caráter contrário, escondendo os verdadeiros problemas de um país participante ou até mesmo sede.
Na história das Copas, apenas a Segunda Guerra Mundial fez com que a competição não fosse disputada, nos anos de 1942 e 1946. Foram 12 anos sem o Mundial, entre as competições de 1938, a última antes do conflito, e 1950, a primeira após. Mesmo assim, algumas seleções tiveram de disputar outras edições do torneio, sabendo que seus países enfrentavam momentos de instabilidade.
Um possível reencontro entre EUA e Irã

Fora dos gramados, um dos assuntos mais comentados antes da Copa do Mundo é a tensão que envolve Estados Unidos e Israel contra países do Oriente Médio, em especial o Irã. Apesar das dúvidas sobre a participação no Mundial deste ano, a seleção iraniana confirmou que estará na disputa, exigindo algumas determinações dos três países anfitriões (Canadá, Estados Unidos e México).
Na competição, EUA e Irã estão em grupos separados, D e G, respectivamente. Entretanto, existe a possibilidade das equipes se enfrentarem na segunda fase, anterior às oitavas de final. Para isso, os times terão de ficar em segundo lugar em suas chaves.
O confronto não seria novo na história dos Mundiais. Na última edição, os Estados Unidos venceram por 1 a 0. Já em 1998, também pela fase de grupos, deu Irã por 2 a 1. Essa partida ficou conhecida como "Jogo da Paz", já que atletas iranianos entregaram flores aos jogadores americanos. Além disso, uma foto foi feita com os dois elencos juntos.
Naquele momento, ambos os países ensaiavam uma reaproximação, já que a relação entre as nações já estava estremecida desde o fim dos anos 1970, algo que acabou não acontecendo. Em 2026, as relações entre o país da América do Norte e o país do Oriente Médio são praticamente inexistentes, o que não impede do futebol aparecer como um "breve apaziguador" mais uma vez.
Teve Copa

Em 2013, as ruas das capitais brasileiras foram tomadas por manifestações sob o coro de "Não vai ter Copa". A frase, que era uma marca registrada do protesto, surgiu em um contexto em que parte da população não aprovava os altos investimentos na Copa do Mundo. O motivo seria a falta do mesmo cuidado com serviços públicos. Nesta linha, o aumento do preço da passagem e da gasolina estavam entre as principais cobranças.
Os protestos seguiram em 2014, mas perderam força considerável com o começo do Mundial. As manifestações deram lugar aos torcedores brasileiros, argentinos, colombianos, chilenos e até de outros continentes sendo destaques nos estádios e fora deles.
O entusiasmo do público em função do evento tomou conta das ruas e reforçou a tese de que a Copa seria disputada. Desde então, o Mundial é lembrado como um dos melhores pelo público do futebol.
Quando um ídolo parou a guerra

Em 2005, a Costa do Marfim fez história ao se classificar para uma Copa do Mundo pela primeira vez. Com uma geração talentosa no campo, coube ao atacante Didier Drogba, ídolo do Chelsea, também ser craque fora dos gramados.
A partir da morte do líder Félix Houphöet-Boigny, em 1993, o país africano passou a viver um período de crise econômica e de golpes de Estado por parte de grupos políticos e étnicos. No começo dos anos 2000, a Costa do Marfim viveu o auge do conflito, com o norte do país sendo comandado por rebeldes de Burkina Faso, de maioria muçulmana, enquanto o sul tinha lideranças cristãs e próximas ao governo nacional.
Em outubro de 2005, no Sudão, "Os Elefantes", apelido da seleção marfinense, garantiram a vaga na Copa do Mundo do ano seguinte ao vencer o Sudão, fora de casa. Após o apito final, Drogba fez um desabafo histórico:
— Marfinenses, do Norte e do Sul, do Centro ao Oeste. Hoje nós provamos que todos podemos conviver e jogar juntos na Costa do Marfim. Temos o mesmo objetivo: a classificação para o Mundial. Vocês prometeram que essa festa reuniria todo o povo. Hoje, pedimos, por favor: perdoem, perdoem. O único país da África com todas essas riquezas não pode se consumir em guerras. Por favor, entreguem as armas. Organizem as eleições e tudo vai melhorar — discursou.
Na semana seguinte, um cessar fogo foi firmado entre rebeldes e forças do governo. Após ser eleito o melhor jogador africano de 2006, Drogba voltou ao país para celebrar o feito com seu povo e esteve em Bouaké, cidade que era dominada pelos rebeldes. Ele prometeu que a seleção jogaria no local, promessa que foi cumprida no ano seguinte, em um jogo que colocou tropas de ambos os lados juntas nas arquibancadas.
Conflitos internos voltaram a acontecer nos anos seguinte, mas a força de Drogba deu esperanças ao mundo de como grandes lideranças podem buscar a paz pelo mundo.
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