
A conquista da vaga na Copa do Mundo ajuda a aliviar o sofrimento do povo do Iraque, devastado nas últimas décadas por guerras e pelas sequelas da ditadura de Saddam Hussein.
O relato é do atacante carioca Cláudio Maradona, ex-São José e hoje atleta do Newroz, clube baseado na cidade de Suleimânia, no nordeste iraquiano.
— O país tem as suas cicatrizes ainda não curadas, e o futebol acaba suprindo esse vazio que sentem os iraquianos. Eles estão muito felizes que vão jogar a Copa. Para o povo iraquiano, é como se fosse um título de campeão mundial _ contou o atacante de 31 anos, em entrevista ao programa Cardápio de Domingo, da Rádio Gaúcha.
Segundo o atleta natural de Duque de Caxias, a festa nas ruas iraquianas foi emocionante.
— Os caras pararam o país, passaram por todas as cidades por cima de um caminhão de bombeiros, uma loucura. Eram crianças, jovens, pessoas de 30 ou 40 anos, e idosos comemorando e chorando na rua — completou.
A maioria dos atletas que venceram a Bolívia na repescagem intercontinental, no última dia 1º, e garantiram a volta do Iraque a uma Copa do Mundo após 40 anos de ausência, nasceu e cresceu em meio à guerra. Ou guerras, no plural.
Berço da antiga Mesopotâmia, o Iraque foi palco nas últimas décadas de uma guerra com o Irã (1980-1988), da Guerra do Golfo (1990) e da invasão norte-americana (2003), além de inúmeros conflitos internos e dos 24 anos de uma ditadura sangrenta, conduzida com punhos de ferro por Saddam Hussein.
Uma das consequências deste período é a conflituosa relação entre árabes e curdos, as duas etnias predominantes no país.
O Newroz, clube onde atua Cláudio Maradona, está situado dentro da Região Autônoma do Curdistão, de maioria curda, etnia minoritária no país e historicamente perseguida no passado.
— O Saddam Hussein matou muitos curdos. Então eles (árabes e curdos) historicamente não se gostam, e aí o Iraque tem essa divisão entre o Curdistão e o restante do Iraque — contou.
Segundo o atacante, a conquista da vaga na Copa do Mundo e o futebol de forma geral, paixão popular no país, ajudam a unir árabes e curdos.
— Sim, o futebol une os árabes e os curdos. O meu clube é curdo e tem mais atletas árabes do que curdos. Não se vê nada (de problemas entre os atletas), é natural. Mas se tirar o futebol, aí dá muito problema, porque os curdos passaram por muitas coisas ruins com os árabes, muita morte, muito sofrimento — relata o atleta.
Segundo Maradona, a convivência entre atletas árabes e curdos no vestiário é respeitosa, mas todos os lados — incluindo os estrangeiros — sabem que há limites a serem respeitados.
— Se você falar para um árabe que ele é curdo, dá problema. E se você falar para um curdo que ele é árabe, também dá problema — revela.
A seleção iraquiana, por exemplo, segundo Maradona, tem apenas um atleta curdo: o zagueiro Akam Hashim, que, ao lado de diversos companheiros árabes, ajudou o Iraque a recolocar o país na Copa, o que não ocorria desde o Mundial de 1986, no México.
— O futebol une. Mas, se tirar o futebol, aí dá problema — repete Maradona.
Confira a íntegra da entrevista do atacante Cláudio Maradona à Rádio Gaúcha:
Como repercutiu aí no Iraque a classificação para a Copa do Mundo?
A festa durou uns três dias desde que aconteceu o jogo. A cidade não para, o país não para e teve até alguns jogos cancelados da liga devido à classificação do Iraque. Foi uma loucura. Eu não acreditava que o Iraque iria passar. O povo está louco de alegria porque faz muitos anos que o Iraque não ia a Copa.
Cancelaram jogos da liga pelas comemorações?
Sim, cancelaram uma rodada, uma loucura. É como se fosse um título de campeão mundial. Os caras pararam o país, passaram por todas as cidades por cima de um caminhão de bombeiros, uma loucura. Eram crianças, jovens, pessoas de 30 ou 40 anos, e idosos comemorando e chorando na rua.
Muitas pessoas nunca tinham visto o Iraque na Copa. E a gente viu o que aconteceu no Iraque no passado. Muita coisa mudou e melhorou, mas o país ainda tem as suas cicatrizes não curadas. Então, o futebol acaba suprindo esse vazio que os iraquianos sentem. Eles estão muito felizes que vão jogar contra jogadores de alto nível mundial, só falam nisso.
Você mora em Suleimânia, no nordeste do Iraque, que fica na região autônoma do Curdistão. Como é nesta região do país?
Eu falo para os meus amigos que a cidade onde eu moro é o Rio de Janeiro sem praia. Eu tenho tudo, só não tenho praia. A cidade é muito boa, o povo é educado e tem mentalidade europeia porque somos vizinhos praticamente da Turquia. Claro, é perto da fronteira com o Irã mas a cidade é mais próxima culturalmente dos turcos. Então, você consegue andar na rua normalmente. A sua esposa anda normalmente, não precisa andar de burca ou toda tapada. As pessoas respeitam, você consegue andar de bermuda e camiseta normal, tomar uma cerveja, tomar um whisky em um bar, coisas que para os lados de Bagdá você não consegue.
Em Bagdá a cultura é diferente da região do Curdistão?
É totalmente diferente. Lá, os homens não andam de bermuda e chinelo. Você só vai ver eles de calça. As mulheres só andam com burca, totalmente tapadas, não dá nem para ver os olhos direito. Então, é outro tipo de cultura. Eles historicamente não se gostam, porque os iraquianos mataram muitos curdos. O Saddam Hussein matou muitos curdos, então eles não se gostam, e aí o Iraque tem essa divisão entre o Curdistão e o restante do Iraque.
O futebol une curdos e árabes, mas se tirar o futebol aí dá problema
CLÁUDIO MARADONA
Atacante do Newroz, do Iraque
A seleção iraquiana tem jogadores árabes e curdos?
Na seleção não tem muito curdo. Se não me engano, tem só um, que é o zagueiro Akam (Hashim). E o meu clube é curdo, mas tem mais atletas árabes do que curdos. Não se vê nada (de problemas entre os atletas), é natural. Mas se você falar para um árabe que ele é curdo, já dá problema. E se você falar para um curdo que ele é árabe, também dá problema.
O futebol ajuda de alguma forma a unir árabes e curdos?
Sim, o futebol une os dois, sabe?! Mas se tirar o futebol, é muito problema, porque os curdos passaram por muitas coisas ruins com os árabes, muita morte, muito sofrimento. Eu não sei o porquê da raiva dos árabes com os curdos. Dos curdos com os árabes eu entendo, devido às circunstâncias do passado. O futebol une, mas se tirar o futebol dá problema, aí é complicado.
Eu vejo mais de dez ou quinze caças passando no céu, mas na minha cidade não caiu nenhuma bomba, graças a Deus
CLÁUDIO MARADONA
Atacante do Newroz, do Iraque
Como os brasileiros são recebidos aí no Iraque?
O número um aqui para eles é o Zico. É o primeiro que eles falam, porque o Zico treinou a seleção do Iraque (entre 2011 e 2012). Depois eles falam do Roberto Carlos, do Ronaldo, do Adriano, do Cafu, do Ronaldinho... O diretor aqui do meu clube adora o Sócrates. Só brasileiro é bom de bola para eles.
E o Neymar?
Teve a convocação agora do Brasil, e o Neymar não foi convocado. Cheguei ao treino e os caras perguntaram qual era o problema com o Neymar. Falei a eles que ele não estava bem, mas eles disseram que o Neymar tem que ir à Copa mesmo sem uma perna.
Mas então há uma grande admiração pelo futebol brasileiro em geral.
Com certeza. Por causa do futebol, a gente é muito amado aqui. Tem dias que nem deixam pagar almoço ou táxi só por ser brasileiro, isso é gratificante demais.
Você mora muito perto da fronteira com o Irã. Como está a situação nesta região diante dos atuais conflitos no Oriente Médio?
A região do Curdistão (nordeste do Iraque) tem uma capital que se chama Erbil, que fica a três ou quatro horas de onde eu moro. Lá tem uma base americana, então lá está sendo atacado (pelo Irã). Mas na minha cidade não aconteceu nada. Só que o aeroporto está fechado, então não tem como voar, porque pode cair bomba. Lá em Erbil toda hora cai bomba, em Bagdá também, todo dia sete, dez ou doze bombas. O que eu vejo é caça passando no céu, mais de dez, quinze caças passando, mas na minha cidade não caiu nada, graças a Deus.
Você está com a sua família aí? Você se sente seguro?
Sim. A minha esposa já voltou para o Brasil antes até disso acontecer, pois ela está na faculdade. Mas eu me sinto seguro porque temos apoio do clube 24 horas por dia e estou a seis horas da Turquia, posso sair se precisar. Então, a gente se sente seguro dentro do possível.
Se os aeroportos estão fechados, como os jogadores do Iraque conseguiram viajar ao México para jogar a repescagem contra a Bolívia?
O primeiro problema antes disso foi o visto, porque para iraquiano conseguir visto (para o México e os Estados Unidos) é muito difícil. Depois, eles deram um jeito, foram de ônibus até uma cidade com espaço aéreo aberto, pegaram um voo fretado e foram para o México, mas a maior dificuldade foi o visto.
O Iraque na Copa está em um grupo ao lado de França, Senegal e Noruega. Você acha que dá para sonhar com uma classificação para a fase seguinte?
É muito difícil, porque são três seleções de outro nível, é outro futebol. Não que o Iraque não tenha qualidade. Eles têm qualidade, mas não tem, por exemplo, nenhum atleta em clube de primeira linha da Europa. Infelizmente, com todo respeito aos meus amigos na seleção, eu acho muito difícil o Iraque conseguir se classificar.
Como é o futebol no Iraque?
Depende muito, tem time forte, organizado, tem time que joga com bola longa. A seleção é muito rápida pelas pontas e muito determinada. Eles não desistem, botam o pé mesmo, não têm medo. Na Copa, vão jogar sem medo.
Como são os jogos aí no Iraque?
Os estádios lotam em todos os jogos. O futebol é o esporte número um aqui. Todo jogo tem torcida, eles vão com bandeira, café, chá, cantam, xingam, mas estão lá, nunca joguei com estádio vazio.
E quais são as tuas recordações de Porto Alegre e do São José?
Eu amo essa cidade, amo o São José. Tenho uma dívida com o clube. Pretendo voltar para encerrar a minha carreira lá. Já falei para o Fábio Rampi (goleiro histórico de 37 anos do São José) me esperar e não encerrar a carreira até eu voltar (risos).


