
Empolgado e nitidamente cansado, o porto-alegrense Guilherme Martin, de 34 anos, atende a ligação da reportagem pela manhã. Próximo ao Deserto do Atacama, cerca de 2,3 mil km da capital gaúcha, ele explica o tom mais ofegante na chamada:
— Desculpa estar um pouco ofegante. Tem altitude aqui e não estou acostumado.
O motivo que levou o criador de conteúdo até o Chile é o sonho de todo amante de futebol. O que difere a ida até a Copa do Mundo para ele é o meio de transporte escolhido. Ao invés do avião, Guilherme pretende chegar nos Estados Unidos em seu Fusca 1971.
Azul e com adesivos que remetem ao Grêmio, o carro já viajou pela América do Sul nos últimos dois anos para assistir a jogos da equipe na Libertadores e na Copa Sul-Americana. No perfil "Até de Fusca nós Iremos", no Instagram, estão os relatos de todas as aventuras. Desta vez, o sonho é mais ousado, exige mais tempo e um custo extremamente elevado.
A experiência na estrada não evitou que Guilherme Martin tivesse problemas no trajeto, os quais quase provocaram o fim da viagem. Mesmo assim, ele segue na busca pelo objetivo e acredita que chegará a tempo em Nova Iorque para a estreia do Brasil no dia 13 junho.
— No início, achavam (família e amigos) uma loucura. E se parar para ver, realmente é uma loucura. Mas depois que o pessoal viu as viagens dando certo, aí ficaram mais tranquilos. Hoje não estão mais tão preocupados e estão muito felizes pelo resultado.
Trajeto até a Copa

Com certa experiência após as viagens em função do Grêmio, o criador de conteúdo começou a alimentar o desejo de ir ao Mundial no fim de 2024. Já na metade do ano seguinte, teve o visto americano aprovado e pôde dar início ao planejamento. Com a ajuda de três patrocinadores, uma reserva financeira e de doações do público, o gaúcho resolveu iniciar o trajeto em 2 de março deste ano.
— Eu saí com um valor que daria para chegar até a metade. Então, eu falei que ia arrancar com o que tenho. Se no caminho aparecer mais parceiros interessados em embarcar comigo nessa, vai ser muito bem-vindo. Mas estamos avançando e vamos executar de algum jeito — disse Guilherme Martin, que estima gastar pouco mais de R$ 100 mil.
A viagem começou em Porto Alegre até Uruguaiana, onde o Fusca entrou na Argentina. Depois, rumando ao norte do continente, Guilherme cruzou o Chile e chegou à fronteira com o Peru. É neste momento que ele ouviu a intuição e resolveu questionar aos policiais se poderia entrar no país com o carro, que já não tinha mais o motor original.
Problemas na estrada

Em 2025, Guilherme Martin teve seu primeiro Fusca apreendido no Uruguai. Ao abrir uma vaquinha para custear reparos no veículo, ele prometeu presentear os colaboradores com pequenas réplicas da taça da Libertadores. Ao chegar na fronteira, o ato foi configurado como contrabando.
O gaúcho só conseguiu recuperar o veículo no começo deste ano, mas teve de trocar o motor, item que já estava desgastado. A questão é que ao apresentar o documento no Peru, a aduana afirmou que não era permitido a entrada, pois o veículo deveria ter o mesmo motor de sua fabricação.
— Era melhor dar problema agora e eu poder voltar do que eu não conseguir retornar depois — disse.
Sem desanimar, ele retornou a Uruguaiana, local em que foi enviado o motor verdadeiro do Fusca atual. Depois, retomou o percurso e já está no Chile novamente. O plano adotado desde o começo é percorrer cerca de 500 km por dia, sem trajetos no período da noite. Neste turno, ele dorme dentro do veículo em postos de gasolina.
Nas proximidades do Atacama, o carro também sente os efeitos da altitude, que tiram parte da força do veículo, e do calor, que aquece o motor de forma mais rápida. A saída é fazer pausas a cada duas horas.
Uma casa dentro do carro
Apesar de conseguir parar para dormir na casa de alguns conhecidos que fez desde que deu início às viagens com o carro, o Fusca acaba sendo a verdadeira casa de Guilherme até o Mundial. Além de roupas, ele também carrega alimentos não perecíveis para poder cozinhar durante o trajeto.
— Eu tirei o banco do carona e tirei o banco de trás também. Ali eu adaptei uma cama, um espaço para colocar uma geladeira e um espaço pra fazer uma cozinha improvisada. Só tem o banco do motorista. Aí a cama pega praticamente de ponta a ponta o fusca. E no lado esquerdo, atrás do motorista, tem um espaço em que eu boto bagagem, boto minhas coisas — explicou sobre o espaço.

Assim que chegar ao Peru, o gaúcho ainda terá conhecidos por perto. Depois, ele não tem muito conhecimento do percurso e garante que estará "por conta". A ideia é chegar em Cartagena das Índias, cidade portuária na Colômbia. Depois, o Fusca entrará em um barco rumo ao Panamá, uma recomendação de um amigo que viaja de moto até o Alasca.
— Ele (amigo) fez essa travessia em um barco mais simples, um barco que leva coco da Colômbia para o Panamá. E quando fez o percurso, viu um fusca dentro do barco. Ele me mandou mensagem e disse que custaria 800 dólares, é muito mais barato — lembra ao citar que orçou com duas empresas de contêineres que o cobrariam 2,5 mil dólares.
Entre oito e 10 dias, o Fusca estará em solo panamenho. Depois, o trajeto contemplará boa parte da América Central até os Estados Unidos. É nesta parte que ele irá conhecer um dos locais que mais espera: a praia de Puerto Limón, na Costa Rica.
Sem ingresso, mas com um sonho
Correndo contra o tempo, Guilherme Martin acredita que chegará nos Estados Unidos a tempo de acompanhar os jogos do Brasil. Até o momento, ele não tem ingressos para as partidas e pretende assistir ao lado de brasileiros nas fan fests. Quanto à hospedagem, ele também já tem um plano.
— Eu vou estacionar o Fusca em uma rede de academias que tem nos Estados Unidos e que custa 20 dólares por mês. Vi a dica na internet, tem um bom vestiário e funciona 24 horas. Tem em todo o país — garante o gaúcho que recebeu muitas mensagens de brasileiros que moram na América do Norte, nos últimos dias.
Até os Estados Unidos, o futuro de Guilherme e seu fusca é incerto. Ele seguirá com suas transmissões ao vivo no YouTube, momento em que divide com o público o percurso e recebe doações. Da mesma forma, enfrentará as inúmeras dificuldades do caminho, mas sempre com o bom humor. A altitude, o trajeto de barco e as dores no corpo não devem impedi-lo de realizar este sonho.
