
Entre bandeiras erguidas em clássicos, decisões milimétricas e jogos de alto nível pelo mundo, Rafael da Silva Alves construiu uma trajetória discreta, mas definitivamente precisa. Agora, aos 43 anos, o gaúcho de Pelotas alcança o auge da carreira ao ser convocado para a Copa do Mundo. Mais do que o reconhecimento técnico, a conquista carrega uma história de formação, disciplina e memória.
Formado em Educação Física e Fisioterapia, ingressou na arbitragem em 2006, pela Federação Gaúcha, passou à CBF em 2011 e chegou ao quadro da Fifa, em 2020. Desde então, trilhou um caminho de evolução constante até atingir o ápice. Depois de 16 anos, o Rio Grande do Sul volta a ter um representante na arbitragem de um Mundial: Rafael da Silva Alves, tradicionalista e movido pelo legado familiar.
— É a materialização de todo um esforço, dedicação, renúncia e resiliência para chegar nesse momento tão especial da minha vida profissional — celebra a convocação à Copa em entrevista à reportagem de Zero Hora.
A escolha pela bandeira
A decisão de seguir como árbitro assistente não foi por acaso. Rafael entendeu cedo que suas características se encaixavam melhor na função, especialmente a atenção ao detalhe e a busca pela precisão.
— O assistente vive num contexto de perfeccionismo. Muitas vezes é julgado por um ou dois centímetros. Essa busca pela perfeição sempre me despertou muito interesse — explicou.
— A gente precisa enxergar o jogo de uma maneira diferente, contribuir com o controle e ajudar para que o espetáculo tenha fluidez — completou.
Rotina e esforço
Com a evolução da arbitragem no Brasil, Rafael hoje se dedica exclusivamente à função. A rotina inclui jogos, viagens, treinamentos e períodos de preparação com a estrutura da CBF.
A convocação para a Copa não surgiu de forma repentina. É resultado de uma trajetória construída jogo a jogo, ao longo de duas décadas. Rafael já atuou em mais de 300 partidas, incluindo Gre-Nais pelo Gauchão, compromissos pelo Brasileirão e pela Libertadores, além de finais de Copa do Brasil e Supercopa. Entre os momentos marcantes estão a final dos Jogos Olímpicos de Paris e confrontos do Mundial de Clubes.
— É uma construção de 20 anos, com muita renúncia, sacrifício e treinamento. São experiências que vão te qualificando até chegar a um momento como esse — destacou.
Homenagem ao pai

Se há um fio condutor em toda a trajetória de Rafael, ele passa pela figura do pai, Antônio Carlos, principal incentivador e responsável por apresentar o futebol como ferramenta de formação.
— Ele usava o esporte como educação, para criar disciplina, caráter. Devo muito ao meu pai por tudo que estou vivendo hoje — contou.
O pai faleceu em agosto do ano passado, pouco antes de mais uma conquista na carreira do gaúcho: o de melhor assistente do Campeonato Brasileiro 2025.
— Ele não pode estar presente fisicamente, mas tudo que eu fiz foi para honrar o que ele me ensinou. Onde estiver, vai estar vibrando comigo — fala, com emoção, Rafael.
A convocação para a Copa, assim como o prêmio de melhor assistente do Brasileirão, ganha um significado ainda mais profundo:
— São formas de retribuir tudo que ele fez por mim.
Raízes gaúchas
A presença na Copa também recoloca o Rio Grande do Sul no mapa da arbitragem mundial. Rafael faz questão de valorizar o legado de nomes históricos:
— É uma responsabilidade muito grande representar o Estado. Já fomos representados por grandes nomes, como o Simon, que é minha referência máxima não só dentro de campo, mas também como pessoa.
Além da arbitragem, o sentimento de pertencimento ao Estado é algo que o acompanha desde a infância, das raízes de sua família. Seu avô paterno, Hugo da Cunha Alves, foi um dos fundadores do movimento tradicionalista gaúcho.
— Venho de uma família tradicionalista. Meu avô deixou um legado muito grande da paixão que ele tinha pelo Estado, que inclusive era um lema dele: "pelo Rio Grande e pelo Brasil, em qualquer chão, sempre gaúcho". Agora eu posso falar: pelo Rio Grande, pelo Brasil e pelo mundo, em qualquer chão, sempre gaúcho — orgulha-se.
Referência na arbitragem
Para quem construiu história em Copas do Mundo, como Carlos Eugênio Simon, chegar a esse nível exige muito mais do que conhecimento. Referência e amigo de Rafael, ele é o único brasileiro a apitar três mundiais (2002, 2006 e 2010).
— Eu conheci ele ainda estagiário numa clínica de fisioterapia, em Porto Alegre. Ele se interessava, perguntava sobre regra, sobre lance. Em uma dessas conversas, eu disse: ‘faz o curso na Federação’. E ele fez — relembra Simon.
O ex-árbitro ainda rasga elogios a Rafael e o aconselha:
— É muito dedicado, muito focado. Está sempre entre os melhores nos testes, se interessa por futebol, por condicionamento físico. É fruto do trabalho dele ter chegado a esse nível, a elite da elite, que é uma Copa do Mundo. Ele não precisa mudar nada. Só continuar fazendo o que sempre fez. Está lá pelo que construiu.
Olhar de quem convive
Fora dos campos, a imagem de foco e disciplina também se confirma. Prima de Rafael, Thaís descreve um perfil marcado pelo apego à família e pelos valores que carrega desde a infância. Segundo ela, o primo tem como principal característica a dedicação:
— O Rafael prioriza muito a família, valoriza as nossas raízes. A não ser que esteja viajando, é presença certa nos almoços de domingo. Temos um convívio muito próximo e ele é muito presente e dedicado nos cuidados com todos.
— Desde jovem ele sempre foi muito focado e disciplinado. Tem rotina de exercícios em dois turnos, é regrado com alimentação. Essa conquista é mérito desse esforço todo. A gente sempre acreditou que esse dia chegaria. Estamos muito felizes e orgulhosos do caminho que ele está trilhando no futebol — completa Thaís.
Entre o sonho pessoal e o desejo coletivo
Às vésperas do maior desafio da carreira, Rafael mantém os pés no chão. Sonhar com uma final de Copa é possível, mas com uma condição especial e justa:
— Para trabalhar numa final, o Brasil não pode estar lá. E eu, acima de tudo, sou torcedor. Quero ver a Seleção campeã.
Entre a precisão de centímetros e as expressivas conquistas, Rafael Alves chega ao topo carregando mais do que técnica: leva consigo uma história de formação, pertencimento, memória e tradicionalismo. Será um gaúcho para o povo do RS torcer na Copa.
Produção: Leo Bender
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