
A guerra entre Estados Unidos e Irã respinga na Copa do Mundo. Os americanos, junto com Canadá e México, sediam o torneio. O país do Oriente Médio está classificado para a competição com início em 11 de junho. Ainda não há pistas sobre as resoluções do conflito e a presença dos iranianos na maior competição de futebol do planeta.
Na quarta-feira (11), o ministro do Esporte do Irã, Ahmad Donyamali, o país não irá disputar a competição.
— Considerando que este regime corrupto (os Estados Unidos) assassinou nosso líder, sob nenhuma circunstância poderemos participar da Copa do Mundo — declarou.
Na quinta-feira (12), o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que a seleção iraniana é bem-vinda para disputar a Copa, mas disse ser inapropriada a presença da equipe em terras americanas.
“A seleção iraniana de futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas, sinceramente, não acho apropriado que eles estejam lá, considerando a segurança e as próprias vidas dos participantes. Agradeço a atenção dispensado a este assunto”, escreveu em suas redes sociais.
Não é a primeira vez que futebol e política se relacionam em ano de Copa do Mundo. A seguir, Zero Hora apresenta outras situações em que guerras impactaram na Copa e vice-versa. Confira.
1938 - Seleção deixa de existir
Anschluss é o evento que mudou os rumos da terceira Copa do Mundo da história. Assim foi batizado o período entre 11 e 13 de março de 1938. Durante estes três dias, a Áustria foi anexada pela Alemanha, de Hitler, em um dos primeiros ecos do que seria a Segunda Guerra Mundial.
Classificada para o torneio, a Áustria deixou de existir e abriu um buraco na Copa da França. A vaga não foi preenchida por outro país. A Suécia, sorteada como adversária dos austríacos, ficou sem adversário na primeira fase e avançou direto para as quartas de final, quando aplicaram 8 a 0 em Cuba.
O Wunderteam seria uma das equipes mais fortes da competição. Antes do Grande Reich Alemão ter sua seleção, realizou-se um amistoso entre Alemanha e Áustria. A intenção era mostrar a superioridade dos alemães.
Os austríacos não compartilhavam do mesmo ideal. Venceram por 2 a 0, gols de Sindelar e Sesta. Sindelar, o Homem de Papel devido à sua mobilidade, o primeiro falso 9 da história, o ícone de morte suspeita.
Ele se negou a defender a Alemanha na Copa. A alegação oficial recaiu sobre problemas físicos. Em janeiro de 1939, ele foi encontrado morto em seu apartamento. Até hoje a morte não foi explicada.
Com um time desentrosado, a Alemanha caiu na primeira fase ao ser eliminada pela Suíça.
1969 - A Guerra do Futebol
As Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970 foram pano de fundo para uma guerra, a Guerra do Futebol. El Salvador e Honduras viviam um clima tenso e disputavam uma vaga no Mundial do México.
Honduras tem cerca de cinco vezes o tamanho do território salvadorenho. À época, El Salvador tinha a maior densidade demográfica da América Central, com uma população maior do que a do seu vizinho, apesar da diferença das dimensões territoriais.
No fim dos anos 1960, em torno de 300 mil salvadorenhos deixaram o seu país para viver em Honduras, onde trabalhavam com agricultura para trabalhar no campo. O governo hondurenho acusava os imigrantes de roubarem suas terras. O outro lado dizia que seus cidadãos eram perseguidos.
Esse era o cenário para o duelo pelas Eliminatórias entre os dois países. Em 8 de junho de 1969, em Tegucigalpa, capital de Honduras, os donos da casa venceram por 1 a 0. Uma semana depois, El Salvador goleou por 3 a 0. Os visitantes sofreram um cerco no hotel em onde estavam hospedados e foram hostilizados. A tensão subiu.
Na véspera do jogo-desempate, no México, os dois governos romperam relações diplomáticas. El Salvador venceu por 3 a 2 na prorrogação.
Em 15 de julho, El Salvador invadiu Honduras. O confronto armado durou 100 horas e deixou mais de 2 mil mortos.
Na Copa, El Salvador perdeu para Bélgica, México e União Soviética.
1982 - A Guerra das Malvinas

A ditadura militar argentina cambaleava. Em busca da restauração do seu governo, o general Leopoldo Galtieri e a Junta Militar decidiram retomar o domínio sobre o arquipélago das Malvinas. O conjunto de ilhas sofreu longa disputa entre britânicos, espanhóis e franceses, mas desde 1833 estavam sob domínio da coroa britânica.
As tropas argentinas invadiram as ilhas em 2 de abril de 1982. Sem resistência, não demoraram para assumir o comando. Primeira ministra britânica, Margaret Thatcher enviou tropas para restabelecer o controle da região. O combate durou pouco mais de dois meses e resultou em 649 militares argentinos, 255 britânicos e três civis mortos, além da retomada das Malvinas pelos britânicos. Menos de um ano depois, o governo militar argentino caiu.
Durante a guerra, a seleção argentina disputou amistoso contra União Soviética, Bulgária e Romênia, sempre em Buenos Aires. Entre as partidas contra búlgaros e romenos, Julio Grandona, presidente da federação argentina, confirmou a participação do país na Copa do Mundo.
— Não passou pela nossa cabeça deixar de jogar, mas era um clima muito f***** — declarou o técnico César Menotti ao El Gráfico, em 2014.
Argentina e Inglaterra foram eliminadas na segunda fase da Copa. Os dois países se enfrentaram na edição seguinte em jogo marcado por um golaço e um gol de mão de Maradona. Os argentinos foram os campeões em 1986.
1998 - O jogo da diplomacia
A inimizade entre Irã e Estados Unidos tem longa data. São quase 50 anos de relações cortadas entre as duas nações. Ao menos por 90 minutos, o clima foi amistoso. Em uma época sem confronto bélico entre os dois países, as seleções se enfrentaram na Copa do Mundo de 1998, na França.
As relações azedaram 19 anos antes, em 1979. Apoiada pelos Estados Unidos, a ditadura do xá Reza Pahlavi foi derrubada pela Revolução Islâmica. Naquele ano, militares iranianos invadiram a embaixada americana em Terã e mantiveram 52 reféns por 444 dias. A crise diplomática levou os americanos a implementarem sanções econômicas ao Irã.
A partida no Stade de Gerland, em Lyon, foi um exemplo de diplomacia. Os dois times trocaram gentilezas antes do jogo. Em campo, o Irã venceu por 2 a 1, conquistou sua primeira vitória na história das Copas e impediu o avanço dos EUA às oitavas de final.
2006 - Uma seleção pacifica um país
O futebol da Costa do Marfim vivia o seu melhor momento. Os talentos brotavam feito semente em solo fértil. Didier Drogba, Yaya Touré, Kolo Touré, entre outros. Mas o país vivia um dos seus momento de maior turbulência política.
Um ano antes da Copa de 2006, Drogba, maior marfinense a ter calçado chuteiras, usou a classificação da seleção ao Mundial para pedir paz.
— Nós mostramos hoje que todos os marfinenses podem conviver — principiou antes de se ajoelhar em frente às câmeras. — Por favor, baixem suas armas — concluiu.
A guerra civil teve início em 2002, após rebeldes vindos do Burkina Faso tomarem o norte da Costa do Marfim. Nos anos seguintes, o território seguiu dividido. O norte controlado pelos revolucionários e o sul no comando do sul.
A divisão era um reflexo de conflitos étnicos e religiosos acontecidos na década de 1990. A guerra resultou em cerca de 4 mil mortos.
A classificação à Copa e a participação da Costa do Marfim foi um período de trégua e reconciliação. Em um grupo com Argentina, Holanda e Sérvia e Montenegro, os marfinenses caíram na primeira fase.
Em 2007, a seleção disputou amistoso contra Madagascar, em Bouaké, cidade de reduto rebelde. Antes, no mesmo ano, Drogba percorreu as ruas do local exibindo o troféu de melhor jogador do continente africano. O jogo e a atitude de Drogba simbolizaram a reunificação do povo. Ainda em 2007, o cessar fogo foi assinado.
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