
As polêmicas operações de fiscalização migratória conduzidas pelo governo Donald Trump podem gerar protestos e tirar público dos estádios ao longo da Copa do Mundo 2026. Ao menos esse é o temor de Ariel Ruiz Soto, analista sênior do Instituto de Políticas Migratórias (MPI, na sigla em inglês), um dos principais centros de pesquisa sobre o tema em Washington.
— É totalmente possível que imigrantes decidam não comparecer aos jogos por medo de serem alvo de prisão, detenção ou deportação. Embora seja improvável que as autoridades migratórias realizem operações de fiscalização nos estádios durante a Copa do Mundo, o governo Trump tem feito ameaças claras de intensificação da fiscalização que geram um efeito inibidor sobre os imigrantes e suas famílias — disse Ruiz Soto a Zero Hora.
Segundo o especialista, esse temor tende a ser maior em algumas cidades-sede.
— Esse efeito deve ser mais perceptível em locais como Los Angeles, onde os níveis de ações da fiscalização migratória do governo Trump tem aumento — completou.
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Um fenômeno semelhante foi testemunhado há um ano pela reportagem durante o Mundial de Clubes 2025, também sediado nos Estados Unidos.
— Muitos torcedores de futebol aqui são de origem hispânica e, com as batidas migratórias promovidas pelo governo, até cidadãos legais ficaram com medo. Mesmo que saibam que não estão fazendo nada de errado, preferem evitar incomodação — disse à época o consultor de marketing Oren Lefkowits, 33 anos, momentos antes da vitória do Flamengo por 3 a 1 sobre o Chelsea, na Filadélfia.
Já Arturo Castellanos Canales, gerente de políticas públicas do Fórum Nacional de Imigração, organização que estuda a política para os imigrantes nos EUA, espera que a Copa seja marcada apenas por debates esportivos.
— Só podemos esperar que a fiscalização migratória não se sobreponha ao ambiente do torneio. Os EUA há muito tempo são um destino acolhedor para migrantes, sendo de longe o maior receptor de imigrantes do mundo. Quase 15% da população americana nasceu no Exterior. Esperamos que essa tradição histórica de acolhimento crie um ambiente inclusivo e festivo para os torcedores — opinou.
Ariel Ruiz Soto prevê ainda a possibilidade de protestos contra as políticas migratórias de Trump antes do Mundial:
— O aumento das tensões nos EUA em torno da aplicação das leis de imigração e das restrições de visto já existentes para torcedores internacionais de algumas das seleções que disputarão a Copa do Mundo provavelmente levará a protestos e a debates políticos antes do início do evento.
Em 2025, Trump assinou um decreto proibindo a emissão de vistos para cidadãos do Haiti e do Irã, e impondo severas restrições para visitantes da Costa do Marfim e de Senegal, todos países que estarão representados na Copa do Mundo. Os decretos, porém, não valem para atletas, membros da comissão técnica e integrantes das delegações que disputarão o Mundial.
Uma polêmica similar ocorreu no fim de janeiro, às vésperas do Super Bowl, a final da liga nacional de futebol americano, quando houve rumores de que o ICE (agência de fiscalização migratória) faria batidas nos arredores do estádio.
À época, a secretária-assistente do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), Tricia McLaughlin, afirmou à revista People que o órgão não revela detalhes de operações, mas garantiu que "aqueles que estão nos EUA legalmente e não estão violando as leis não têm nada a temer.”
No entanto, apesar de prever uma diminuição na presença de imigrantes no Mundial, Soto não vê maiores preocupações para torcedores brasileiros.
— Não há evidências que sugiram que imigrantes ou turistas brasileiros sejam especificamente alvo de ações de fiscalização migratória. Torcedores internacionais que passaram pelos processos de verificação de segurança para obter um visto ou documento de viagem para os EUA provavelmente não serão alvo de operações de fiscalização — esclareceu.








