
Durante a Copa do Mundo do Catar, o técnico Walid Regragui comparou o Marrocos, a sua seleção, a Rocky Balboa. A comparação residia na improvável história do lutador dos cinemas com a campanha de seu time no Mundial.
Semifinalista em 2022, os marroquinos passaram por Bélgica, Espanha e Portugal. Mesmo que na próxima edição do torneio seus jogadores se sacrifiquem ao máximo, joguem com o coração, com a alma e recebam o amor da torcida, os Leões de Atlas não serão mais Rocky.
A inédita terceira participação seguida apresenta-se apenas como o cartaz mais reluzente de um trabalho de longo prazo e vitorioso. Ainda não há estofo para ser, no início, um protagonistas com a pompa de um Sylvester Stallone, mas Marrocos disputará a próxima Copa do Mundo sem o carimbo de figurante, como em todas as outras participações.
O reforço da nova posição do país no tabuleiro do futebol se solidificou no último domingo (19), quando Marrocos venceu a Argentina por 2 a 0 e conquistou o Mundial Sub-20.
Títulos em sequência
O quarto lugar na Copa do Mundo do Catar e o título inédito não são fatos isolados. Nesta década, os marroquinos se intrometeram entre os países da África negra e o Egito como uma das potências continentais.
Em anos recentes, o Marrocos foi campeão continental sub-23 e sub-17. O bronze no futebol nos Jogos Olímpicos de Paris foi uma das duas únicas medalhas marroquinas.
Neste ano, o time levou o título africano no sub-17 e o segundo lugar no sub-20. Até então, o maior êxito havia sido o já desbotado título da Copa Africana de Nações em 1976.
Marrocos tem um rei do futebol. Não um Pelé, de gols tão inimagináveis quanto a campanha marroquina no Catar. Um rei da realeza mesmo, de usar coroa, herdeiro da dinastia alauíta, descendente diretamente do profeta Maomé.
Mohammed VI é considerado a principal razão para que o futebol do país fosse para lá de Marraquexe e se espalhasse pelos grandes palcos. Para transformar Rocky em um blockbuster, é precioso investir.
As conquistas não são ao acaso. Elas são resultados de uma visão clara, investimento consistente e de um trabalho rigoroso.
TOUNDÉ ALIOU
Repórter do Morocco World News
O monarca investiu dinheiro pesado para a construção de um centro de treinamento de alto nível. Batizado de Academia Mohammed VI — a benevolência não é total — e inaugurado em 2009, o CT mudou o patamar dos Leões de Atlas.
— Na África, dizemos que você colhe aquilo que plantou. As conquistas não são ao acaso. Elas são resultados de uma visão clara, investimento consistente e de um trabalho rigoroso. Por anos, Marrocos semeia sementes de uma revolução esportiva estruturada. Os resultados falam por si — destaca Toundé Aliou, repórter do Morocco World News.
O trabalho de formação

Trata-se de uma visão a longo prazo. Na Academia Mohammed VI estão garotos entre 12 e 17 anos. Além do aprendizado do futebol, as instalações oferecem escola para todos os atletas.
Os jovens são selecionados através de competições regionais. Os garotos também têm a oportunidade de disputar torneios na Europa para ganharem casca.
No início, a proposta causou estranheza. Receosos, muitos pais não enviavam os seus filhos para o CT. A primeira turma contou com 45 crianças. O suficiente para produzir um futebolista de alto nível. Entre eles estava Nayef Agerd, contratado este ano pelo West Ham em 2022 por 35 milhões de euros.
Não precisava ter o tempo todo a bola, mas era uma seleção em que todo mundo defendia bem, em bloco, e atacava de forma muito rápida e objetiva.
LUÍS FERNANDO FILHO
Jornalista do portal Ponta de Lança
Há uma metodologia de trabalho delineada espalhada pelos 30 hectares do CT. Foi criada uma sistemática para a construção de jogadores competitivos. A filosofia vista na Copa do Mundo de 2022, com um time forte na defesa, valente fisicamente e rápido para chegar ao ataque, é replicado em todas as categorias.
Apinhado de "jogadores de rua", habilidosos, mas pouco focados no jogo, Marrocos passou a ter atletas com diferentes características.
— É um estilo de jogo reativo, onde todo mundo defende muito bem. E é exatamente o que a gente viu no Marrocos na Copa do Mundo enfrentando as maiores seleções. Não precisava ter o tempo todo a bola, mas era uma seleção em que todo mundo defendia bem, em bloco, e atacava de forma muito rápida e objetiva — observa o jornalista Luís Fernando Filho, do portal Ponta de Lança, especializado no futebol africano.
Do time campeão no fim de semana Yassir Zabiri, Fouad Zahouani, Houssam Essadak e Yassine Khalifi saíram da Academia.
Os filhos da diáspora

Um fator social influiu para o crescimento. Em diversos momentos da história, o povo marroquino se espalhou pelo mundo, sobretudo na Europa. Cerca de 5 milhões de marroquinos vivem fora do país — a população do Marrocos é de 38 milhões de habitantes.
É uma quantidade significativa de gente morando em países como França, Bélgica, Holanda, Espanha e Itália. Quantidade significativa de talento a ser explorado. A federação marroquina mapeou filhos e netos da diáspora. Apresentou um plano de carreira para os mais promissores.
O que também faz esses jogadores aceitarem é a questão da identidade, do pertencimento, de representarem o país de seus pais.
LUÍS FERNANDO FILHO
Jornalista do portal Ponta de Lança
Funcionou. Dos 26 convocados para a Copa do Mundo do Catar, 14 nasceram fora do território marroquino. Entre eles estavam os dois principais nomes da campanha. O goleiro Yassine Bounou nasceu no Canadá, e o lateral Achraf Hakimi, do PSG, tem naturalidade espanhola.
— O projeto ao Hakimi foi apresentado ainda quando ele estava na base do Real Madrid. É um fator importantíssimo para quem ainda está pensando se vai representar país quando chega o convite. Eles vêem que tem um plano de carreira e um projeto de futebol convincente, que vai levar a algum lugar interessante — destaca Filho, e completa:
— O que também faz esses jogadores aceitarem é a questão da identidade, do pertencimento, de representarem o país de seus pais.
O que o Morocco está experimentando, é simplesmente fazer do futebol uma prioridade e usar o futebol como o motor para a globalização e a exposição de seus valores.
LESLEY AKONWI
CEO do portal Kick442 Africa
Apesar disto, todo o projeto não foi suficiente para convencer Lamine Yamal a optar pelos Leões de Atlas ao invés da seleção da Espanha. Filho de pai marroquino, ele se reuniu com o técnico Walid Regraeg, mas rechaçou o convite.
O futuro do futebol de Marrocos

Aqueles que acompanham o futebol marroquino com olhar lupino garantem que não trata-se apenas de uma onda de bons resultados ou uma única fornada de talentos. A camisa vermelha, acreditam, aparecerá com maior constância nas fases decisivas dos torneios.
— O Marrocos acabou de começar. Todas essas coisas representam o início dos esforços que eles fizeram ao longo dos anos, investindo em algumas das melhores infraestruturas, as melhores tecnologias, as melhores técnicas, conhecendo como garantir que eles façam um time nacional formidável — opina Angu Lesley Akonwi, CEO do portal Kick442 Africa, e completa:
— O que o Morocco está experimentando, é simplesmente fazer do futebol uma prioridade e usar o futebol como o motor para a globalização e a exposição de seus valores para o resto do mundo.
O sucesso traz responsabilidades. Marrocos será visto com outros olhos na Copa do Mundo do próximo ano. E, na sequência, terá a pressão de jogar em casa a edição de 2030, sediada ao lado de Espanha e Portugal — Uruguai, Argentina e Paraguai também receberão jogos.
Marrocos não é mais um azarão, é uma referência continental e um modelo para o desenvolvimento do futebol africano.
TOUNDÉ ALIOU
Repórter do Morocco World News
Ninguém ousa prever os resultados. Mas todos concordam com a nova posição dos Leões de Atlas no cenário do futebol.
— Um time mais forte em 2026? Talvez, mas certamente mais ambicioso. Depois da semifinal de 2022, Marrocos vai mirar ainda mais alto. Temos jogadores, talento e liderança para alcançar qualquer sonho no futebol. Marrocos não é mais um azarão, é uma referência continental e um modelo para o desenvolvimento do futebol africano — enfatiza Aliou.
Assim como foi com Rocky Balboa, Marrocos sonha em se transformar em uma série de sucesso com muitos episódios.




