Há pesquisas sobre os povos mais felizes, os que mais comem beterraba, os mais míopes, os que menos fazem sexo. Nunca vi uma pesquisa sobre os que mais choram.
Ninguém chora mais do que nós. Nunca antes neste país, se chorou tanto quanto nesta Copa. Choram quando cantam o Hino. Julio César, Neymar, Thiago Silva choram quando alguém erra ou acerta um pênalti.
O repórter de TV chega perguntando ao jogador: você vai chorar no começo ou no fim da entrevista? Quer dedicar o choro a alguém? Quem chora melhor na Seleção?
Antevejo que esse time de chorões irá enfrentar a seleção alemã nesta Copa. Chorões contra durões. Os homens alemães choram pouco. Um estudo da Sociedade Alemã de Oftalmologia diz que eles choram, mas escondidos. Não é caricatura, é a vida.
Por isso vou contar mais uma história de café. Num verão em Berlim, conheci o famoso Café Einstein Stammhaus. Um casarão com móveis antigos, ambiente vienense, paredes revestidas de madeira.
Na mesa com o grupo de jornalistas, dois guias que nos acompanhavam: uma alemã de 22 anos, que morou no Rio dos 10 aos 18 anos, e um alemão de uns 60 anos, quietão, esquemático. Com sotaque carioca, a moça era uma garota de Ipanema. Tanto que disse: não sou alemã, me sinto brasileira.
O pai era funcionário da diplomacia alemã, um dia teve de voltar a Berlim e a família voltou junto. E do que a moça mais sentia falta? De encontrar alguém, num café ou bar, simplesmente por querer encontrar. De tomar um café ou um chope com um conhecido que encontrara ao acaso na rua, ou com alguém para quem telefonara para dizer: vamos nos ver?
E aí ela contou que em Berlim tudo tinha de ser planejado, com um objetivo concreto, uma utilidade. Você deve programar um encontro, deixar clara a intenção e convencer o outro de que isso pode, sim, ser interessante.
Ela continuou falando e repetiu: por isso, eu sou brasileira e quero voltar, um dia vou conseguir voltar.
Éramos cinco homens e quatro mulheres na mesa. Os homens emudeceram, miraram os senhores e as senhoras elegantes que tomavam chá com apfelstrudel e fingiram que estavam apenas emocionados, mas não a ponto de chorar.
O guia alemão, baixo, gordinho, ouvia tudo quieto. Emoção não era com ele. Era um homem duro, de testa franzida, exigente no cumprimento de horários, econômico na fala.
Duas semanas depois, na hora de ir embora, num restaurante, todos temiam pela despedida da moça. Ela recebeu um presente da turma, e eu fui encarregado de entregar a lembrança ao alemão.
A carioca-alemã emocionou-se, mas se conteve. O alemão de pedra me abraçou com força e, de repente, desatou num choro comovedor.
Conto essa história porque sei que no dia 8 vamos enfrentar os durões que também choram. E quem sabe se aquela moça de Berlim não voltou a morar no Rio e não anda torcendo e chorando pelo Brasil?

