
Em 2026, o Grêmio Náutico União (GNU) completa 120 anos em Porto Alegre. Mais do que uma conquista própria, a trajetória do clube ajuda a contar a história do esporte brasileiro para além do futebol.
Fundado por seis jovens descendentes de alemães com o objetivo de remar, o GNU atravessou guerras, mudanças sociais e transformações urbanas até se consolidar como um dos principais pilares do esporte olímpico e paralímpico no país.
Hoje, com 450 colaboradores, mais de 31 mil associados, 1,1 mil atletas federados, quatro sedes e presença entre os maiores clubes esportivos do Brasil, o GNU representa um modelo que transcende o lazer. O clube é parte essencial de uma engrenagem que forma atletas, movimenta a economia do esporte e conecta bem-estar, educação e sociedade.
Há mais de 20 anos na diretoria, Ricardo Rodrigues Alves ingressou no clube aos 13 anos, com o objetivo de jogar basquete. Mas a participação no GNU se tornou tradição familiar. Formado nas categorias de base do União, seu filho Thiago Alves, acabou integrando a Seleção Brasileira de vôlei masculino medalhista olímpica em Londres, em 2012.
— Nunca imaginei que me tornaria presidente do clube. É um privilégio ocupar o cargo neste marco dos 120 anos. Além disso, sou um dos poucos presidentes sem ascendência alemã, o que mostra uma instituição cada vez mais diversa.
A seguir, Alves fala sobre o papel dos clubes na formação de atletas, na gestão esportiva e no alto rendimento no Brasil.
Como você avalia o papel histórico do GNU na sociedade e no esporte?
Quando o Grêmio Náutico União foi fundado, o remo era um esporte muito relevante, mas clubes tradicionais não aceitavam jovens. Por isso, seis guris descendentes de alemães criaram seu próprio espaço para remar. Inicialmente, o nome era em alemão e significava “clube da amizade”. Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1917, foi adaptado para o português, tornando-se Grêmio Náutico União.
Ao longo desses 120 anos, o clube cresceu e se renovou. Hoje, já é o terceiro maior do Brasil em patrimônio e, em 2025, ficou entre os quatro melhores do ranking esportivo nacional. O legado que começou com o remo hoje inclui 19 modalidades olímpicas e sete paralímpicas, tanto masculinas quanto femininas. Agora, para celebrar o aniversário, estamos promovendo eventos sociais, culturais e esportivos com o lema “120 anos em movimento”.
Qual é o papel dos clubes sociais na estrutura do esporte olímpico e paralímpico brasileiro?
É um papel fundamental. Os grandes clubes do Brasil têm forte foco no esporte, o que gera visibilidade e atrai investimentos públicos e privados. No caso do GNU, isso se soma a uma atuação mais ampla, com atividades sociais que integram diferentes gerações, incluindo um grupo 60+ bastante ativo.
Também existe uma filosofia de que quem traz a família para o clube é a criança. Por isso, há grande investimento em espaços infantis e escolinhas esportivas, que atendem mais de sete mil alunos. Com recursos provenientes das loterias, por meio do Comitê Brasileiro de Clubes, da Fenaclubes, mantemos um projeto social com 60 vagas para crianças em situação de vulnerabilidade, que são tratadas como associadas.
Além disso, há forte atuação social e filantrópica. Só nas enchentes de 2024, o clube realizou mais de mil resgates, abrigou famílias e organizou doações com apoio dos associados.
No país do futebol, como o GNU forma atletas de alto rendimento em diferentes esportes?
O GNU tem tradição nacional e, desde a Olimpíada de Tóquio, em 1960, envia atletas para representar o Brasil em Jogos Olímpicos. No paralimpismo, a nadadora Maria Carolina Gomes Santiago (Carol Santiago) é um dos destaques mais recentes, com seis medalhas de ouro em duas edições dos Jogos.
O clube segue investindo em infraestrutura, como novas quadras de tênis e uma academia moderna. Mas há diferenças entre o associado de lazer e o atleta competitivo. A formação envolve uma estrutura completa, com suporte médico, fisioterapia, psicologia e convênios com escolas e universidades, buscando atender o atleta de alto rendimento de forma integral.
O paralimpismo vem ganhando mais visibilidade. Como o clube contribui para o desenvolvimento do esporte inclusivo?
Havia muito preconceito no passado, mas isso vem diminuindo com a visibilidade das Paralimpíadas e a maior cobertura da mídia. O clube investe em modalidades como judô para cegos, natação e esgrima, com equipes masculinas e femininas. O interesse de patrocinadores pelo esporte paralímpico também cresceu significativamente.
Como a estrutura e as áreas verdes do clube contribuem para a sustentabilidade e a integração com a cidade?
O clube possui uma ilha a cerca de seis minutos do Centro de Porto Alegre, com acesso por catamarã, com forte presença de natureza e estrutura esportiva. Também mantém programas de sustentabilidade e foi o único clube presente na COP 30, em Belém.
As áreas verdes nas sedes são amplas e recebem gestão especializada. Mantemos ainda parcerias com escolas, possibilitando que as crianças tenham contato com a natureza nas dependências do clube, com lagos, áreas abertas e espaços educativos.
Quais são os principais pilares da gestão e o que empresas encontram ao investir no GNU?
A gestão é estruturada, com gerência-geral, área operacional e nove gerentes em diferentes setores, como recursos humanos, esportes e marketing. A administração é conduzida por associados voluntários — presidente, vice-presidentes, diretores e conselheiros — que atuam de forma organizada e comprometida. Há rigor nos processos, com auditorias internas e externas, controladoria e atenção especial às áreas de compras, manutenção e investimentos.
As empresas associam suas marcas a um clube vencedor, com grande visibilidade e forte presença social. Entre os parceiros estão grandes marcas do Rio Grande do Sul, como redes varejistas, bancos e indústrias.
O clube oferece exposição em eventos, revista própria, site e ações internas. O apoio público e privado é essencial. Sem esses recursos, não seria possível alcançar nem um terço dos resultados atuais. Além disso, há iniciativas como confrarias e eventos gastronômicos que aproximam patrocinadores, associados e comunidade.
Olhando para o futuro, como vê o papel do GNU no esporte brasileiro?
O clube busca crescer ainda mais no ranking nacional. O foco está sempre no futuro — em 2023, foi lançado um projeto com foco nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. Há investimento contínuo em atletas de alto rendimento, bem como programas para todas as idades, que inclui atividades físicas, sociais e culturais.
O crescimento do clube continua, sempre com responsabilidade. Há campanhas de novos sócios, com facilidades de adesão, com controle desse ritmo para manter a qualidade dos serviços.
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