Como todo colorado, meu domingo foi de estupefação. Afinal, os três pontos do Gre-Nal estavam antecipadamente contabilizados, embora se admitisse um empate para ficar na frente do coirmão. A avalanche tricolor, porém, soterrou nosso sonho de Libertadores. Como previ numa roda de chope, o Inter deve mesmo ficar entre o sexto e o oitavo lugar.
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Democracia pressupõe respeito às escolhas. A premissa garantiu uma alegria memorável em meio ao turbilhão depressivo pós-jogo. Aos seis anos, minha filha, Laura, hoje com 20 anos, assumiu seus pendores tricolores. Desde então, a decisão gera acaloradas discussões em dias de clássico lá em casa, onde o coloradismo impera absoluto.
Sócia do Grêmio, Laura jamais experimentou tamanha euforia como no domingo. Como faço nas vitórias comandadas por D'Alessandro - quando joga ao invés de vociferar dentro do campo -, fiquei diante da TV até a madrugada para assistir a todos os programas esportivos, rever os gols, conferir a inesquecível euforia da nação tricolor. Tudo isso ao lado da minha filha.
Aos 54 anos, aprendi que futebol é business que envolve bilhões para pagar salários irreais a jogadores medíocres. Há décadas deixei de brigar com confrades rivais às segundas-feiras ou de tocar flauta nos derrotados. Saudosismo? Não. Os ensinamentos do velho Giba, falecido aos 52 anos, mostram que "conviver com os diferentes" nos poupa de sofrimentos, frustrações e evita o extermínio de preciosas amizades. Inclusive no futebol.
Domingo por coincidência, antes do histórico 4 a1, comprei uma camiseta retrô do Grêmio para a Laura que me acompanhava ao supermercado.
- Pode usar no jogo, mas não me sacaneia! - brinquei.
Lembrei do episódio enquanto assistíamos ao Bate-Bola da TVCOM, e ao rir da loucura incontida do Peninha Bueno no Extraordinários no Sport TV.
Foi uma dolorosa goleada. Mas já na quarta-feira, diante do freguês tricolor treinado por Muricy Ramalho, tudo será passado. Eu não suportava mais ver minha filha chegar amargurada do estádio, esmagada pela frustração impingida pelo time do coração.
A mensalidade tricolor, debitada religiosamente em minha conta do Banrisul, não rende juros. Mas o investimento gerou enorme felicidade e um momento inesquecível ao lado da Laura, que demorou a dormir no domingo à noite. Turbilhão de emoções que só o futebol pode proporcionar.
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