De 2014 para cá

Cinco anos depois da Copa: dos 12 estádios construídos para o Mundial, cinco geram prejuízos aos cofres públicos

Arena da Amazônia, em Manaus, chega a receber jogos com público inferior a 500 pagantes nesta temporada

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Erguida ao custo R$ 532 milhões, Arena Pernambuco não é utilizada por nenhum dos três clubes grandes do Recife

No Brasil, apesar de a paixão pelo futebol ser mais intensa e mais antiga do que na Rússia, sede da última Copa do Mundo, o descaso com estádios erguidos pelo poder público é muito maior. Cinco dos 12 palcos da Copa 2014 têm aproveitamento inexpressivo e geram prejuízos aos cofres públicos: a Arena Pernambuco, no Recife, a Arena da Amazônia, em Manaus, o Mané Garrincha, em Brasília, a Arena Pantanal, em Cuiabá, e a Arena das Dunas, em Natal.

O caso da Arena Pernambuco é um dos mais emblemáticos. Mesmo com três clubes de massa na cidade, nenhum deles quer usar o estádio, que tem capacidade para 44 mil pessoas e foi erguido ao custo de R$ 532 milhões, na cidade de São Lourenço da Mata, situada a 20 quilômetros do centro da capital pernambucana. 

A longa distância e a falta do "efeito caldeirão" não cativaram os três grandes do Recife. O Sport segue atuando na Ilha do Retiro, enquanto o Santa Cruz permanece mandando os seus jogos no Arruda. Logo após a Copa de 2014, o Náutico foi o único que se interessou por realizar os seus jogos na Arena. Porém, a presença de público foi muito pequena e, cinco anos depois, o clube optou por reativar o Estádio dos Aflitos, relegando o palco do Mundial ao ostracismo. 

— É uma questão cultural. Os torcedores de Sport, Santa Cruz e Náutico têm uma história com seus estádios. E a logística para a Arena Pernambuco é complicada, as pessoas têm dificuldade para chegar. Há ainda muita insegurança nas proximidades, pois o acesso ao estádio é pouco iluminado. Além disso, o trânsito na estrada que leva até a Arena é muito intenso. Como se não bastasse, há também a questão financeira. Não é rentável jogar na Arena, pois o aluguel do estádio é caro — explica o jornalista João Victor Amorim, da Rádio Jornal, do Recife.

Administrada pelo governo estadual, a Arena abrigou apenas 10 partidas profissionais em 2019. Na maior parte delas, os mandantes foram equipes sem expressão, como o Vitória de Santo Antão. Como resultado, a presença de público foi inexpressiva. No empate por 2 a 2 entre o Vitória de Santo Antão e o Afogados da Ingazeira, no dia 17 de março, o borderô registrou apenas 461 pagantes. Em 2018, a Arena apresentou um prejuízo de R$ 7,4 milhões, número que tende a aumentar no balanço de 2019.

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Vitória de Santo Antão e Afogados de Ingazeira jogaram para 461 pagantes em março deste ano

Sem equipes de massa no Estado, a Arena da Amazônia é mais um estádio da Copa 2014 a amargar prejuízo. Também gerido pelo governo estadual, o local é utilizado por clubes pequenos da região, como Nacional, Manaus, Fast e Rio Negro. O público raramente ultrapassa a casa dos mil torcedores. A exceção é quando algum grande clube do centro do país leva a partida para Manaus, o que não comum. No Brasileirão 2019, por exemplo, Vasco e Corinthians jogaram pela terceira rodada do campeonato nacional no estádio amazonense e registraram um público de 25.779 mil pessoas. Uma exceção à regra.

O futebol feminino ajuda a movimentar a Arena da Amazônia. Case de sucesso na modalidade, o Iranduba manda alguns de seus jogos no estádio e costuma levar um número maior de torcedores para assistir às partidas da Série A1 do que as equipes masculinas locais. Na derrota por 3 a 0 para o Flamengo, no dia 17 de março, 3.522 pessoas compareceram. O governo também organiza outros eventos para aproveitar melhor a Arena, mas a renda é insuficiente para evitar o prejuízo anual de R$ 8,5 milhões.

— Além dos jogos de futebol, a Arena abriga shows musicais e alguns jogos de base. Nos campeonatos sub-11, eles dividem o campo em dois. Na final da Liga dos Campeões, uma empresa exibiu o jogo dentro do estádio. Mesmo assim, o prejuízo ainda é grande. Todo ano a Arena da Amazônia fica no vermelho — relata o jornalista Gabriel Mansur, repórter do portal Globo Esporte.

Um dos maiores exemplos de elefante branco no Brasil é o estádio Mané Garrincha, em Brasília, que custou cerca de R$ 1,7 bilhão aos cofres públicos. Com capacidade para 72,7 mil torcedores, o estádio só atrai um público significativo em jogos da Seleção Brasileira ou quando clubes de São Paulo e Rio de Janeiro vende mando de campo para atuar na cidade.

Em 2019, isso ocorreu em apenas três oportunidades. Em 2 de fevereiro, 15.864 pessoas compareceram ao Mané Garrincha para assistir à vitória do Vasco sobre o Fluminense, pelo Campeonato Carioca. No dia 5 de junho, 34.204 espectadores estiveram na vitória da Seleção sobre o Catar, por 2 a 0, em amistoso preparatório para a Copa América. Já no dia 12 de junho, o Flamengo venceu o CSA por 2 a 0, pelo Brasileirão, em partida que teve um público de 37.673 torcedores. 

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Flamengo, de Gabigol, levou 37 mil pessoas ao estádio em Brasília

Situações assim, no entanto, são exceções. Em 2019, o Mané Garrincha foi sede de 15 partidas do Campeonato Candango, tendo como mandante equipes como Gama, Brasiliense, Capital e Real. Na grande maioria das vezes, o estádio brasiliense registrou públicos inexpressivos. No dia 18 de fevereiro, a vitória do Real por 4 a 1 sobre o Santa Maria teve apenas 60 pagantes. Pouco utilizado pelos clubes locais, o estádio acabou virando sede de jogos de futebol americano, congressos e shows musicais, como o do cantor Roger Waters e do festival sertanejo Villamix. 

Mas a renda desses eventos é insuficiente para bancar o custo anual de R$ 8,4 milhões com a manutenção. Recentemente, a administração do estádio foi concedida para uma empresa privada pelo período de 35 anos. Antes, o local abrigava os escritórios das secretarias estaduais de Transporte, Turismo e Esporte. Até maio, quando a gestão do Mané Garrincha ainda era responsabilidade do governo do Distrito Federal, a arrecadação no ano tinha sido de apenas R$ 230 mil, com um prejuízo mensal de R$ 640 mil.

— O que se comenta aqui em Brasília é que vai demorar 200 anos para o Mané Garrincha recuperar os quase R$ 2 bilhões que foram gastos na sua remodelação. E, ainda assim, isso só será possível ou com jogos de grandes clubes do Campeonato Brasileiro ou com shows —  explica o jornalista Rener Lopes, do site Esportes Brasília.

Já a Arena Pantanal, em Cuiabá, é outro exemplo de estádio subaproveitado. Erguida por R$ 628 milhões e com capacidade para 44 mil torcedores, o estádio abriga os jogos do Cuiabá na Série B. No entanto, a média é de pouco mais de 5 mil torcedores. O prejuízo anual para o governo estadual, responsável pela gestão da Arena, é de cerca de R$ 4 milhões.

— O futebol de Mato Grosso tem crescido nos últimos anos, mas abrigar os jogos do Cuiabá na Série B ainda é pouco para um estádio que custou quase R$ 700 milhões aos cofres públicos — lamenta o repórter Derick Bueno, do site Leiaagora, do Mato Grosso.

Por fim, a Arena das Dunas, em Natal, é mais um dos suntuosos estádios brasileiros sem o devido aproveitamento. Construído para a Copa 2014 ao custo de R$ 423 milhões e com capacidade para 31,4 mil pessoas, o estádio é utilizado por equipes pequenas do Rio Grande do Norte durante o Campeonato Potiguar, como o Força e Luz, o Santa Cruz e o mais tradicional, o América-RN. Porém, a média de público não ultrapassa os 4 mil torcedores. Depois da eliminação do América-RN na Série D, na última semana, a tendência é de que não haja mais nenhuma partida de futebol profissional na Arena das Dunas em 2019. 

— O estádio é administrado pelo Consórcio OAS, que recebe um repasse de R$ 10 milhões mensais do governo do Estado. De 2014 até maio de 2019, o governo do Rio Grande do Norte já havia repassado R$ 607 milhões para o consórcio. Sem jogos, a gestora acaba realizando outras atividades na Arena, como shows musicais. Funcionam lá alguns escritórios e até uma academia — relata o jornalista Malyk Nagib, da TV Assembleia, do Rio Grande do Norte.

Apesar das críticas à farra dos gastos com estádios no Brasil, a verdade é que o governo russo injetou muito mais dinheiro público na Copa de 2018 do que o governo brasileiro em 2014. Segundo a imprensa local, a Rússia gastou o equivalente à R$ 19,3 bilhões em estádios, contra R$ 8,3 bilhões do Brasil, de acordo com levantamento do Ministério do Esporte. Porém, o investimento russo se reverte em um melhor aproveitamento das arenas nas ligas russas.

E o legado da Copa da Rússia é superior ao do Mundial no Brasil não apenas no que diz respeito a estádios. Enquanto o povo brasileiro ainda aguarda a conclusão de obras de infraestrutura que foram prometidas há cinco anos, o povo russo se beneficia de algumas melhorias feitas no país.

— A construção de novos aeroportos é o legado mais importante. Antes, os terminais em cidades como Volgogrado e Samara eram uma vergonha  — relata Julia Yakovlevo. _ Também foram abertas novas estações de metrô em Moscou e em São Petersburgo _ acrescenta Fábio Aleixo. 

No embalo das novas Arenas e do maior interesse do povo pela bola, a Rússia impulsiona o futebol local e desfruta do legado da "melhor Copa da história". 

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