Rodrigo Lopes
de Kiev, Ucrânia
Durante o dia, Kiev resiste. Pessoas passeiam pelas praças e arborizadas avenidas na capital ucraniana de 3 milhões de habitantes. Tomam café, frequentam bares e restaurantes, assistem a peças de teatro e vão aos cinemas. Os rostos estão mais cansados do que sorridentes, mas há movimento. Há vida.
À noite, o país muda. A Ucrânia se fecha. As luzes apagam mais cedo. Nas calçadas, os passos se aceleram. O silêncio é rompido pelo som das sirenes — e de explosões
Entre 9 e 14 de setembro, Zero Hora esteve no país que luta para sobreviver desde 24 de fevereiro de 2022. Em um dos momentos mais delicados desde a invasão — em meio a negociações que podem incluir cedência de território ocupado pela Rússia e no período em que a capital sofreu na carne seu mais intenso bombardeio — a reportagem percorreu o país de Oeste a Leste, até Kiev. A entrada foi por terra, após sete horas de viagem desde a fronteira com a Polônia. Em seis dias entre a capital e Lviv, a segunda maior cidade do país, foi possível sentir o cotidiano da guerra.
Há escombros. Há prédios públicos mutilados. Há marcas de bombas em centros culturais, escolas e casas. Mas há também resiliência.
Mesmo com três anos e sete meses de conflito, a população tenta seguir adiante. Faz fila na sorveteria. Bebe cerveja nos bares. Frequenta concertos de música clássica. Entra e sai do metrô. Anda de carro, de bicicleta, de ônibus.
É uma estranha ambivalência: um país em alerta, que vive entre explosões e espetáculos, entre o medo e a normalidade, mas que insiste, todos os dias, em não deixar a guerra vencer sua rotina.
Edição
Rodrigo Celente
Edição de vídeo
Tiago Medeiros
Design e infografia
Carlos Garcia
São 9h40min (3h40min em Brasília) em um dos principais acessos rodoviários a Kiev, ou Kyiv, como preferem os ucranianos — e essa não é só uma questão estilística. Para a população, que desde 24 de fevereiro de 2022 vê seu país correr o risco de desaparecer do mapa, adotar a escrita e a pronúncia dos antepassados (e não o Kiev derivado do russo, os agressores), essa é uma reafirmação da identidade nacional, da Ucrânia independente e soberana.
É uma terça-feira comum na cidade fundada no século 5 e que mistura, na arquitetura, raízes da Rus de Kiev, um grande reino medieval entre os mares Báltico e Negro, onde hoje estão localizadas Ucrânia, Belarus e a porção europeia da Rússia, igrejas ortodoxas em estilo bizantino, o classicismo herdado do império czarista, até os blocos de concreto do período soviético e as construções modernas da Ucrânia independente. Há congestionamentos, moradores frequentam uma feira de frutas e verduras na entrada da capital e, na Praça Maidan, onde retumba a alma da resistência ucraniana, trabalhadores brotam da estação de metrô, para chegar ao trabalho.
Próximo ao Monumento da Independência, alguns pedestres se permitem uma rápida reverência no labirinto de bandeiras ucranianas, nas cores amarelo e azul, permeadas por fotografias dos soldados (considerados heróis) que tombaram nesses três anos e sete meses de guerra com a Rússia. Quarenta minutos atrás, na cidade de Lviv, a cerca de 500 quilômetros de Kiev, como fazem todos os dias, às 9h, os moradores pararam, em um minuto de silêncio em homenagem aos mortos. A pausa, rigorosadamente obedecida sob o comando dos alto-falantes, é contada, segundo a segundo, por uma batida seca como a de um martelo no metal. Estejam onde estiverem, na recepção do hotel, no caixa do supermercado, na calçada, todos param e ficam de pé. Depois, voltam a seus afazeres.
É assim o dia a dia nas duas maiores cidades da Ucrânia. Kiev tem avenidas largas e grandes parques. Mistura o brutalismo da era soviética com prédios tecnológicos, como o NSC Olimpiyskiy, casa do Dynamo Kiev. É movimentada, moderna. A luz do outono a deixa mais brilhante e colorida. Na capital que Vladimir Putin sonhava conquistar em três dias, o som da guerra não ecoa pelo matraquear dos fuzis, como em Kharkiv, Zaporizhzhia e Dnipro — transformadas em campos de batalha, onde nacos de terra são disputados palmo a palmo pelo exército russo e as forças armadas ucranianas, com auxílio de voluntários dos dois lados. Aqui, a 600 quilômetros do front, o risco são os mísseis e os drones suicidas disparados pela Rússia.
Na rotina quase normal das duas cidades, as marcas do conflito são sutis: aparecem no rombo que rasga a fachada de prédios, como o do Gabinete de Ministros, sede administrativa do governo, atingido entre o sexto e o sétimo andares no último dia 7. Estão nas estátuas e monumentos envelopados, como se aguardassem o próximo ataque, nas barricadas improvisadas com concreto e sacos de areia, em frente a edifícios e nos passos apressados dos pedestres quando o toque de recolher se aproxima.
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Há regras, normas e leis específicas a serem observadas na Ucrânia em guerra. É proibido filmar ou divulgar fotos e vídeos de movimentos militares ucranianos, locais de ataques ou bombardeios, nomes de ruas, paradas de ônibus, lojas, fábricas, instalações civis e militares. As penalidades são de até 12 anos de prisão. As imagens que ilustram esta reportagem, por exemplo, do buraco aberto por um drone russo na sede do Gabinete de Ministros, só puderam ser divulgadas depois que os jornalistas deixaram o país — assim como boa parte do conteúdo lá gravado. É uma tática para não revelar ao inimigo dados sensíveis que possam ser usados como alvo.
Quem chega à Ucrânia, precisa se adaptar. O país vive sob lei marcial: só é permitido transitar pelas ruas entre 6h e meia-noite. Depois, quem estiver circulando pode ser preso. É recomendado também baixar, no celular, um aplicativo chamado Air Alert, que permite rastrear alarmes de ataques aéreos no mapa da Ucrânia em tempo real e faz disparar uma sirene diante de uma iminente ofensiva. A plataforma mostra as áreas mais perigosas. Nessa manhã, apenas o Donbass, onde ficam as províncias separatistas de Donetsk e Luhansk, estão em vermelho. Com sorte, será um dia tranquilo em Kiev.
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Engana-se, entretanto, quem pensa que o governo move-se todo na batida do esforço de guerra. Obras, como a ampliação da rodovia entre Lviv e a fronteira polonesa, estão a pleno, há o lançamento de uma plataforma digital para a área da educação e constantes estratégias para aumentar as exportações de trigo, milho e cevada. Como disse a ZH uma autoridade do governo, é preciso que o país continue existindo quando a guerra terminar.
A relativa normalidade com que os ucranianos convivem com o conflito aparece em diferentes falas dos moradores.
— Não vou para o abrigo, se um míssil quer nos atingir, que atinja. É meu país e não vou embora — conta uma jovem que prefere não se identificar, refletindo um sentimento ouvido com frequência em Kiev e que resume cansaço, negação e revolta.
Para ela, mostrar que a vida está o mais normal possível é uma forma de enviar uma mensagem aos russos de que eles não conseguiram quebrar a alma do país. Mas também é uma oportunidade de sinalizar aos compatriotas no front de que alguém os espera.
— O papel do exército, na linha de frente, é muito importante. Mas os civis também têm de fazer a sua parte. Não só por sobrevivência, mas para que os soldados no front saibam que têm para quem voltar — destaca.
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Outra ucraniana, Olena Vladyka, 29 anos, morou na capital, onde mantém o apartamento. No entanto, desde o início do conflito, mudou-se com o marido para Lviv, cidade que considera mais segura. Ela reflete sobre a aparente ambiguidade de viver em meio à guerra: entre a normalidade cotidiana e a constante ameaça.
— Um dia, você está em um restaurante: vida normal. No outro, vai para o abrigo: é a guerra. Para nós, não está dividido. Aceitamos que vivemos no meio da guerra. Nos primeiros seis meses, a vida normal foi paralisada. Não se ia a restaurantes. Como fazer festas de aniversário, de casamento? Depois de seis meses, percebemos que o conflito ia demorar a acabar. Aprendemos a viver com a guerra. Percebemos que, em três anos, alguém precisa casar, alguém precisa ter filhos. É um processo natural. Você não pode parar. Por isso, temos festas, e, ao mesmo tempo, alarmes tocando. Não são duas vidas separadas, mas uma vida no meio da guerra. Aprendemos como combinar essas coisas — conta.
Olena dirige uma agência especializada na busca genealógica, voltada a identificação de parentes de brasileiros na Ucrânia. De tempos em tempos, viaja para o Exterior. Esteve no Brasil, e, nesses dias de setembro, iria à Grécia. Seu marido, em idade militar, no entanto, está proibido de sair da Ucrânia. Advogado, até agora, não foi chamado a lutar. Os primeiros a pegarem em armas foram homens com experiência em combate ou voluntários.
É o caso de Alexander Nosachenko, executivo que trabalha para uma empresa de gestão de investimentos, que trocou o terno e a gravata pelo uniforme militar quando o confronto começou. Mandou a família para o Exterior. Atuou em um grupo de atiradores de elite para ajudar a defender Kiev. Atualmente, de volta ao mundo corporativo, vive esse sentimento estranho de todo ucraniano: a guerra segue, pessoas continuam perdendo suas vidas, mas a rotina coexiste.
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— Kyiv está 600 quilômetros distante do front, mas, ao mesmo tempo, temos drones e mísseis russos atacando a cidade. Em certas situações, civis morrem, mas, ao mesmo tempo, a vida continua.
Basicamente, você não pode pensar durante todo o tempo na guerra. Por um lado, pode-se ir a uma cafeteria ou a um restaurante. As pessoas desfrutam a vida em paz. Porém, ao mesmo tempo, depois de uma hora, elas estão ajudando os amigos e familiares no front, enviando-lhes o que precisam — diz.
A família de Alex também retornou a Kiev, e os filhos, à escola:
— Quando você vai dormir, não importa onde esteja, não há 100% de garantias de que irá acordar no outro dia. Não importa quantos sistemas de defesa antiaéreo posicionem em Kiev, há muita chance de que um míssil de cruzeiro ou balístico, que atingem grandes velocidades, não seja interceptado, ou de que um drone caia em uma rua, em uma casa. Mas não temos outra chance. Temos de lutar.
Certa resiliência é evidente nos eventos. A Premier League da Ucrânia, principal competição de futebol do país, só recomeçou este ano, depois de mais de três de suspensão. Em 2 de agosto, uma partida de futebol entre LNZ e Zorya Luhansk, em Kiev, foi suspensa aos 17 minutos, após soar o alerta de ataque. As equipes foram para os vestiários, e os poucos torcedores presentes deixaram o estádio. No dia 24, o jogo entre Ruth Lviv e Metalist Kharkiv durou quatro horas e 23 minutos por conta das interrupções sucessivas em razão das sirenes.
Na semana em que ZH esteve na Ucrânia, ocorreu a 5ª Cúpula de Primeiras-Damas e Cavalheiros, que reuniu autoridades de Áustria, Dinamarca, Estônia, Lituânia, Finlândia, Sérvia e Alemanha. Os discursos no palco de um antigo arsenal transformado em centro de eventos foram silenciados pelas sirenes. Às 11h (5h em Brasília), de forma ordenada, os palestrantes e a plateia caminharam até os abrigos localizados no subterrâneo do armazém. A reportagem de ZH ficou refugiada no mesmo recinto em que estava Olena Zelenska, mulher do presidente Volodimir Zelensky, e outras primeiras-damas. Sentadas à mesa, elas conversavam calmamente, enquanto seguranças as rodeavam, até que as sirenes cessassem. Ninguém entre os demais se aproximava. Passados 15 minutos, a mestre de cerimônia foi até a delegação e anunciou que o perigo iminente havia passado. A nós, coube ficar de olho no aplicativo, a indicar que a região de Kiev havia deixado de ser vermelha.
O “modo guerra” de viver na Ucrânia reivindica cuidados especiais com a segurança, claro, de Zelensky. Apesar da presença de sua esposa no evento, em nenhum momento o nome do presidente ucraniano foi confirmado pela organização. Havia apenas um indicativo de que ele estaria presente: antes do encerramento, o apresentador anunciou que um “special guest” ("convidado especial") tinha chegado. Havia um grande número de seguranças no salão, todos vestindo camisa verde oliva a cobrir a camiseta preta, no dress code militar adotado por Zelensky desde o início do conflito.
Na volta do intervalo, desfez-se o mistério. Zelensky entrou no salão, sob aplausos, ao lado do primeiro-ministro da Finlândia, Petteri Orpo. Estavam cercados de seguranças, que não traziam armas aparentes, mas carregavam algumas pastas pretas discretas.
Naquele momento, o local do evento, certamente, era o ponto mais vigiado do país. Alguns presentes repararam que o sinal de celular ficou intermitente, indicando interferência.
Na fala do presidente, a guerra foi assunto secundário. O tema da educação, foco do evento, foi destaque.
— Somos gratos por essa visita e por toda a solidariedade demonstrada. Para a Ucrânia, esta cúpula é a prova de que, mesmo em tempos de guerra, continuamos fazendo parte do diálogo global, trabalhando juntos para encontrar respostas para os desafios que enfrentamos. E isso importa — enfatizou Zelensky, sem referir, em nenhum momento, a ida para o bunker, rotina que sua esposa, as demais primeiras-damas, e todos os presentes tiveram de seguir.
O dia em Kiev ou Lviv é apenas um capítulo parcial da história da guerra. Quando as sirenes voltam a soar e o país mergulha na escuridão, a aparente normalidade cede lugar ao medo e às explosões que iluminam o céu. É à noite que o verdadeiro teste começa — e essa, ainda, é outra história.
Kiev, 23h30min (17h30min em Brasília). Não é mais seguro ficar nas ruas. Mas os jovens esticam a corda: no final da noite de terça-feira, próximo ao Arco da Liberdade do Povo Ucraniano, um gigantesco monumento inaugurado nos estertores do império soviético, adolescentes namoram, bebem e andam de patinete elétrico na margem do grande Dnipro, o rio que corta Kiev — e a Ucrânia. Jovens fazem selfies abraçadas a grandes buquês de rosas vermelhas sobre Klitschko Bridge, uma passarela de vidro inaugurada em 2022. O local é símbolo da resistência dos kievianos em comparação com a polêmica Ponte da Crimeia, construída por Vladimir Putin sobre o Estreito de Kersch, elo entre a Rússia e a península ocupada em 2014. O ponto turístico em Kiev foi danificado após ser atingido por um míssil russo em outubro de 2022. A ponte de Kersch, orgulho russo, foi alvo de várias ações de sabotagem ucraniana nos últimos anos.
Daqui, do alto da passarela de Kiev, observa-se a metrópole parcialmente iluminada. As luzes que se projetam sobre o rio contrastam com áreas de escuridão — o próprio arco está às escuras — para embaralhar os olhos dos combatentes que comandam drones com joysticks.
Kiev é uma cidade onde a vida ocorre na superfície e no subsolo. Abaixo das ruas, uma cadeia de túneis e estações de metrô, que são como shoppings debaixo da terra, revelam uma Kiev pulsante e eclética. Aliás, foram essas estações que se transformaram em bunkers durante os primeiros bombardeios, em fevereiro de 2022. É também nelas que estão localizados alguns dos bares mais badalados.
Descendo as escadas, abaixo da Maidan, uma porta antes do acesso às plataformas de trens chama a atenção. A estrutura de ferro, cravejada de "mãos", deixa tudo mais misterioso. Ao cruzar a porta, a revelação: o restaurante Ostannya Barykada (Última Barricada, em português). O barulho que se escuta é o do tilintar de copos e talheres. Grupos de amigos, casais e famílias apreciam a gastronomia ucraniana contemporânea, composta por borscht (uma sopa de beterraba com repolho), matsyk (carne seca de porco) e salo (gordura do dorso do porco curada em sal e especiarias).
Esse sopro vem também da cultura. Meses atrás, as sirenes antiaéreas soaram durante um concerto de música erudita. Entre um acorde e outro dos trompetes, pratos, tambores, violinos e violoncelos, os músicos não deixaram de tocar abafando o som que indica perigo, a plateia se retirava para o bunker de um teatro.
Kiev resistiu à descomunal coluna de blindados russos nos primeiros dias da guerra, retomou seu ritmo anterior à invasão. À noite, os cafés estão cheios, há música ao vivo em praças, vozes invadem as ruas. Os metrôs trazem e levam centenas de pessoas. Uma aura de normalidade toma conta da cidade.
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Esse cenário se repete em Lviv, patrimônio da Unesco, eleita a cidade dos jovens da Europa em 2025.
Em março de 2022, nas primeiras semanas da guerra, Sofia Dunaievska, 18 anos, natural de Kharkiv, mudou-se com a família para a Espanha. Voltou algum tempo depois. Hoje, estuda Jornalismo, em Lviv. Costuma sair com amigos à noite, em um exemplo da combinação entre a rotina da vida que tenta seguir e a dureza da realidade.
— Saí com meus amigos, estávamos conversando, rindo, falando da vida, mas, em certo momento, vi que passavam muitos carros da polícia e havia muita gente de pé. Elas olhavam para a rua, e, de repente, um carro preto passou: ali, eu sabia que uma pessoa havia sido morta na guerra. Nosso herói — afirma.
A vida parece suspensa por um minuto, segundo Sofia. Passado esse hiato, tudo volta a acontecer, como se o conflito tivesse sido esquecido.
— Mas aquela pessoa já não pode — constata a jovem, que tem uma prima de 24 anos no front.
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A guerra ceifou sobretudo os jovens. No memorial aos heróis de Lviv, uma imensa área transformada em cemitério, um olhar cuidadoso permite calcular, nas lápides, o tempo de existência de cada militar: 20, 25, 30 anos, na maioria. Irina Tsybukh é uma delas. Paramédica e combatente, foi morta em 29 de maio próximo a Kharkiv, dias antes de completar 26 anos. Antes de entrar no Batalhão Médico do exército, foi ativista social. Produziu, inclusive, um filme sobre as crianças de Donetsk e Luhansk.
Nunca quis estar na guerra — disse ela, em uma entrevista publicada em 2022. — Sou uma garota que gosta de viajar e de trabalhar em projetos educacionais para crianças. Não uma pessoa que sonhava em trabalhar como paramédica toda minha vida. Mas a agressão russa me forçou a defender meu país.
Irina se voluntariou após a invasão. Entre idas e vindas do front, levou adiante a ideia de instituir o minuto de silêncio diário em homenagens aos mortos em Lviv. Morreu quando seu veículo blindado passou sobre uma mina. Desde então, a mãe, Oxana, visita diariamente o túmulo da filha:
— Até pessoas que não a conheciam ela vêm aqui. Na semana passada, uma menina que estava em rotação (período em que os militares se alternam entre a casa e o front) e que iria voltar à linha de frente, esteve aqui, pedindo um bom serviço, uma boa volta.
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Nesta noite de terça-feira, os grupos oficiais no Telegram estão frenéticos, com mensagens à população, que, entre risadas, narguiles e a cantoria de jovens, deve guardar oxigênio para enfrentar a madrugada que se aproxima. Em Kiev, a mensagem de uma fonte diplomática irrompe no telefone da reportagem: "Fiquem atentos a este grupo ao longo da madrugada. Olhem sobretudo a partir das 2h30min. Avisarei se devem ir ao abrigo do hotel".
Kiev vem de uma sequência de ataques que se superam, um após o outro, como “o maior” desde o início do conflito. Sirene em país em guerra segue um padrão: você sabe que ela vem, só não sabe quando. Às 23h30min (17h30min em Brasília), ela chega: estridente, agonizante, como o barulho intermitente de uma ambulância ao atender a uma emergência e que não consegue passar entre os carros. ZH está no 10º andar do City Hotel, no centro de Kiev. Quando as sirenes disparam, é preciso descer lance por lance de escada até o bunker no subterrâneo do hotel.
O alerta assusta estrangeiros. Sem dúvida, o fator psicológico afeta a todos. A reportagem de ZH passa a noite inteira no bunker. O ambiente é abafado, há poucas conversas entre as 15 pessoas no recinto. Alguns hóspedes estão deitados em sofás, outros, recostados em sacos de dormir. No fundo, escutam-se explosões secas, às vezes mais perto, às vezes mais distantes. Os estampidos fazem disparar, de imediato, o alarme dos carros. Às 3h (21h de segunda em Brasília), o mapa da Ucrânia no aplicativo está pintado de vermelho. A Rússia ataca todas as regiões do país.
Os estrangeiros, maioria no recinto, enfrentam maior dificuldade em se adaptar a essa dualidade, os dias normais, e as noites de inferno. Pelos mapas, é possível identificar que os drones e mísseis se dirigem mais a Oeste, Lviv, e Lutsk.
— Mas, neste momento, estão em ziguezague e podem vir para a capital e para Odessa — diz um morador, em uma troca de mensagens.
Os alvos seriam a infraestrutura de geração de energia. O padrão se mantém: drones seguidos de pausa e, na sequência, mísseis. Os moradores calibram o tom da ameaça por meio de diferentes fontes de informação. Normalmente, o ataque começa com drones Shahid, de fabricação iraniana. Depois, aparecem os mísseis balísticos.
Como parte do sistema de defesa, a Ucrânia faz um cálculo frio: se o drone irá cair sobre uma área descampada, sem ameaça à população civil, o sistema antiaéreo não é deflagrado. Não vale a pela gastar um foguete de milhões de dólares para abater um aparelho que erraria o alvo. É a economia da guerra.
Com o tempo de guerra, os ucranianos foram entendendo que a decisão de ficar ou correr pode ser modulada de acordo com a ameaça. Por exemplo: o se o aplicativo Air Alert mostra a região em que você está na cor vermelha, há risco. Quando a sirene toca, a mensagem avisa imediatamente se o que foi lançado pelos russos é drone, um míssil balístico ou de cruzeiro, informação essencial para que os ucranianos entendam se devem ou não buscar o abrigo mais próximo. Mísseis balísticos são mais perigosos, pois derrubá-los é uma tarefa mais difícil.
Essa informação é calibrada com as mensagens de canais do governo ou das forças armadas no Telegram. Um indicativo de que o perigo é iminente é quando um caça MIG russo decola do norte. É hora de se esconder.
— Já se sabe que tem de correr para o abrigo porque carrega o temido míssil supersônico — conta um morador.
O embaixador brasileiro na Ucrânia, Rafael de Mello Vidal, já se acostumou a monitorar o risco de ameaça por diferentes canais. Dias atrás, nesse dilema entre correr ou ficar, não conseguiu chegar a tempo ao abrigo.
— Senti os drones zunindo em cima da minha cabeça — relembra.
O resultado da noite insone em Kiev aparece no noticiário: entre 18 e 21 drones invadiram o espaço aéreo da Polônia pela primeira vez, colocando a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em alerta e mobilizando aviões da aliança militar para abatê-los, em um esforço conjunto até então inédito nesse conflito. A guerra, nessa madrugada, subiu de tom, ameaçando colocar a Otan diretamente no conflito. Não há registro de mortos em Kiev. O impacto, para moradores, é psicológico. É um teste de nervos viver em uma cidade na qual as sirenes tocam com frequência.
Às 6h, a reportagem volta ao quarto 1001, no 10º andar do City Hotel. Não são ouvidas novas explosões. Escuta-se apenas o canto dos pássaros e o som de raros carros que começam a sair às ruas. Kiev amanhece, solta a respiração e ganha novo fôlego para enfrentar as próximas 12 horas.
Conflito teve início em 2022 e segue sem perspectiva de resolução
| 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | |||||||
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| Fev | Mar-Mai | Set | Jan-Mai | Jun | Set-Out | Jan-Mar | Mai-Ago | Fev | Ago | Set |
| Rússia invade a Ucrânia em várias frentes e dá início ao conflito , o maior terrestre na Europa desde 1945. Vladimir Putin acreditava que Kiev cairia em dias. Ucranianos combatem em várias frentes e mostram, com ajuda do Ocidente, coesão, força de resistência e agilidade em táticas de defesa. | A ofensiva russa estagna. Tropas russas se retiram de Kiev. A confiança russa começa a ser substituída por uma campanha de desgaste. | Tropas ucranianas retomam Kharkiv. Apesar disso, milhares de pessoas deixam o país fugindo da guerra | A Batalha de Bakhmut se torna um símbolo da brutalidade da guerra. O Wagner Group, liderado por Yevgeny Prigozhin, assume a linha de frente. Bakhmut vira um “moedor de carne”, com pesadas baixas de ambos os lados. | Tentativa de motim do Wagner Group contra Moscou. Prigozhin marcha até Rostov e depois recua. | A Ucrânia inicia contraofensiva no sul, mas avança pouco. Linhas defensivas russas se tornaram mais eficazes. | Drones ucranianos atingem instalações em Moscou e bases aéreas em regiões profundas da Rússia. | A Ucrânia intensifica ataques em Belgorod e Kursk, regiões de fronteira da Rússia. | Donald Trump bateu boca com o presidente ucraniano Volodimir Zelensky em encontro na Casa Branca. | Reunião entre Trump e Putin termina sem acordo sobre guerra na Ucrânia. Encontro ocorreu no Alasca. No mesmo mês, Zelensky, ao lado de líderes da Europa, voltou a se reunir com Trump em busca de um acordo para a paz. | Rússia afirma que negociações de paz com a Ucrânia estão "mais em pausa" do que em atividade. |
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