Com criatividade e

o apetite das ovelhas

A s letras que mostravam o nome do estádio estavam apagadas, e isso tirava o sono do inquieto Celestino Nunes de Nunes, 58 anos. Um dia, ele acordou decidido. Com um galão de tinta vermelha, uma escada e um pincel, fez ressurgir o nome Vila Honório Nunes, casa do Grêmio Santanense, clube campeão gaúcho de 1937.

– Quando terminei de pintar a última letra, estufei o peito de orgulho – emociona-se Celestino.

Funcionário da prefeitura de Livramento, ele é muito mais do que um torcedor fanático do Grêmio Santanense, time que não disputa uma competição profissional desde 2002. É o faz-tudo. Desde a coordenação da equipe máster, única atividade do clube em futebol atualmente, até a marcação das linhas do gramado do estádio:

– Encaro cortar grama, pintar o que está enferrujado, fazer churrasco para arrecadar dinheiro. Não me importo, quero ajudar o Grêmio.

Para ajudar, ele usa a criatividade. A fim de marcar as linhas de campo, montou uma engenhoca que não maltrata suas costas – antes, eram feitas com trincha – e fica “quase perfeita”. Um vídeo na internet deu a ideia para montagem da máquina. Outra solução caseira tem sido importante na conservação do ralo gramado do Honório Nunes: a criação de ovelhas. Celestino garante que elas são uma mão na roda. Uma dúzia delas está solta no estádio e se encarrega de comer o capim ruim.

– Depois a gente ainda assa um bom churrasco – diverte-se.

Celestino, o faz-tudo do Grêmio Santanense

Só mesmo bom humor para tentar superar as dificuldades. O presidente do clube, Luís Paulo Dutra, 62 anos, enfatiza que a “lonjura” sempre foi uma inimiga perversa dos clubes da Fronteira.

– Uma viagem curta para disputar uma partida do Gauchão é 400 quilômetros, no mínimo – salienta.

O presidente é objetivo ao afirmar que não há planos para o retorno de atividades profissionais. Fala em “dura realidade”. Sonha com a volta das categorias de base.

– Mas do que adianta voltarmos com os guris se não temos boas condições para dar a eles? Queria poder dar assistência médica, odontológica, física etc, mas não tem como – alega Dutra, advogado e proprietário rural em Livramento.

A torcida lamenta a situação. É o caso da dona Maria do Carmo Santiago, 73 anos, a tia Mirica. Mãe do ex-jogador Claudiomiro, que atuou no Grêmio e no Santos, ela mora em uma casinha verde musgo ao lado do estádio. Criou vínculos fortes com o time e acompanhou grandes momentos ali bem pertinho:

– Meu filho surgiu aqui para o futebol, o campo do Grêmio era uma extensão do nosso pátio. Vê-lo assim agora, dói. Meu desejo e ver o estádio ativo novamente. Quem sabe, né?

Além de revelar Claudiomiro, o Honório Nunes também foi casa do volante Pino, do meia Fabio de Los Santos e do zagueiro Zambiasi.

Pedaços

da memória

túnel

do tempo

Com criatividade e

o apetite das ovelhas

ppp