
Entre demandas urgentes como trocas de telhados, reparos de infiltrações e gastos com manutenção, a adequação da infraestrutura de água e esgoto acabou ficando para trás em milhares de escolas do Rio Grande do Sul. Das 11.045 instituições de ensino públicas e privadas gaúchas, 4,1 mil ainda tinham fossa e 1.227 contavam com poço artesiano, conforme o Censo Escolar 2025 – a partir de informações de 2024.
Era o caso da Escola Estadual de Ensino Fundamental Rui Barbosa, em Ijuí, no Noroeste, que funcionou durante décadas com um sistema de esgotamento que precisava ser regularizado. O prédio, construído nos anos 1930, já havia sido parcialmente ligado à rede de esgoto. Em um dos lados, contudo, ainda era utilizado sumidouro ligado a uma fossa séptica. A situação mudou no início de 2026.
— Recebemos o contato da Corsan (Companhia Rio-Grandense de Saneamento) e eles vieram fazer algumas análises da qualidade da água, que já era conectada à rede pública e realmente era boa. Aí, já conversamos sobre efetivamente ligar todo o esgoto à rede deles — lembra Sandra Weber, diretora da Rui Barbosa.
A obra levou em torno de 10 dias. Como ocorreu na parte externa do prédio, não houve impacto no dia a dia escolar. Depois da conclusão, a instituição recebeu o Selo Corsan de Qualidade, que valoriza estabelecimentos pelo uso responsável da água, destinação adequada do esgoto e compromisso com práticas sustentáveis.
A adequação do saneamento na instituição faz parte de um trabalho da Corsan, em parceria com a Secretaria Estadual da Educação (Seduc), que mapeou as condições de acesso à água e ao esgotamento sanitário de 6.789 escolas públicas e privadas. O levantamento identificou que 2,9 mil instituições precisavam de alguma adequação para ficarem totalmente conectadas às redes públicas de água ou de esgoto.
Desde o início do projeto, em 2024, 289 escolas foram conectadas à rede de esgotamento sanitário e outras 23 tiveram poços lacrados e o abastecimento regularizado pela rede pública. O planejamento prevê ampliar progressivamente as conexões de esgoto nas escolas, até concluir a universalização:
- 983 até 2026
- 1.615 até 2029
- 2.477 até 2031
- 2.959 até 2033
A expansão acompanha o avanço da construção de redes nos municípios. A priorização das escolas busca fazer com que a universalização do saneamento chegue aos espaços onde crianças e adolescentes estudam e convivem.
Segundo o estudo “Futuro em Risco”, divulgado pelo Instituto Trata Brasil em outubro de 2024, a falta de saneamento básico aumenta em quase 50% a probabilidade de o estudante apresentar disparidade idade-série na infância. Isso faz com que o aluno chegue ao final da adolescência com um atraso escolar acumulado 1,8 ano maior na comparação com jovens com acesso aos serviços.
A pesquisa também mostrou que, em 2024, mais de 100 mil crianças de até nove anos foram internadas no Brasil por doenças relacionadas ao saneamento inadequado.
A adequação aos sistemas de água e esgoto acontece sem custos para a escola. A iniciativa ocorre em um contexto de mudanças na legislação: desde o início de 2026, uma lei nacional tornou obrigatório que as instituições de ensino tenham abastecimento de água tratada e esgotamento sanitário, entre outras exigências básicas de infraestrutura.
Em nota, a Seduc ressaltou que a regularização das condições de saneamento é "uma importante medida para garantir ambientes mais adequados, seguros e saudáveis para estudantes, professores e toda a comunidade escolar". A pasta ainda destacou que o projeto está diretamente relacionado "à qualidade da infraestrutura oferecida aos alunos e às condições necessárias para o pleno funcionamento das escolas".
Cada escola, uma solução
Para definir quais intervenções eram necessárias em cada escola, equipes da companhia passaram a visitar as instituições e confrontar as informações declaradas ao Censo Escolar com a situação encontrada em campo. Em muitos casos, a solução não envolvia apenas construir novas redes, mas regularizar ligações existentes, desativar poços artesianos ou conectar prédios que, embora estivessem em ruas atendidas pela rede pública, ainda utilizavam fossas.
Conforme a presidente da Corsan, Samanta Takimi, o diagnóstico mostrou que a realidade das escolas é bastante heterogênea e que não seria possível adotar uma única solução para todas. Um dos pontos que chamou a atenção foi a expressiva quantidade de poços artesianos nas instituições:
— O Rio Grande do Sul tem um número assustador de poços artesiano, e o fato de ele ter uma água límpida não quer dizer que ela atinja as regras de potabilidade. A Corsan faz mais de 200 análises na sua água para que ela seja disponibilizada. Um leigo não vai ter nem conhecimento, nem condições financeiras para fazer isso na água do poço artesiano. Explicar isso envolve toda uma questão cultural e financeira que temos que ultrapassar — relata.
Um dos riscos é, por exemplo, que o poço artesiano seja contaminado pelo esgoto de alguma fossa próxima, ou que a sua água tenha a presença de metais pesados.
Uma das instituições parcialmente abastecidas por poço artesiano era a Escola Estadual de Ensino Médio Presidente Kennedy, em Cachoeirinha, na Região Metropolitana. A maior parte do prédio já utilizava água da rede pública. O poço, contudo, ainda era usado em banheiros e na limpeza.
Após notificação da Corsan, em 2024, ele foi lacrado e toda a escola passou a utilizar exclusivamente a água fornecida pela companhia. Segundo a diretora Marta de Oliveira, a mudança praticamente não alterou o funcionamento da instituição.
— Foi rápido. Como a rede já existia, não precisou fazer uma grande obra nem interromper as atividades. As coisas seguiram normalmente — conta.
Embora a escola nunca tenha registrado problemas relacionados ao poço, a diretora avalia que a padronização do abastecimento traz mais segurança. Ela lembra que, por utilizar a rede pública para consumo humano, os estudantes já bebiam água tratada, mas considera positiva a adoção de um único sistema para toda a instituição.
Educação ambiental
Além das intervenções de infraestrutura, o projeto da Corsan prevê ações de educação ambiental com as comunidades escolares. Em Cachoeirinha, o tema já fazia parte da rotina antes mesmo da adequação. A escola desenvolve projetos de ecologia, mantém uma horta, recolhe lixo eletrônico e tampinhas para reciclagem e promove atividades voltadas ao uso consciente da água e ao descarte correto de resíduos.
— A gente não precisa fazer um projeto específico sobre saneamento. É um assunto que aparece naturalmente no cotidiano dos estudantes, dentro de uma perspectiva maior de cuidado com o ambiente onde eles vivem — afirma a diretora.
Os alunos do Presidente Kennedy também visitam anualmente uma unidade da Corsan localizada no município da Região Metropolitana.
Para os estudantes mais novos, a Corsan mantém a iniciativa Patrulha contra os Vilões do Esgoto, que fala, por meio de teatro, jogos, desafios e experiências educativas, sobre o funcionamento dos sistemas e sobre como atitudes cotidianas interferem no saneamento e no meio ambiente.
— Quando tu entras na escola, tu ganhas uma oportunidade que não tem preço, porque toda vez que tu tens contato com uma criança, tu consegues replicar qualquer assunto, seja bom ou ruim — ressalta a presidente da Corsan.
A Patrulha já alcançou 23 cidades, 51 escolas e cerca de 9 mil estudantes do Ensino Fundamental.


