A enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024 escancarou uma pergunta que vai além da reconstrução de pontes, estradas e casas: como preparar as cidades para um clima que já não se comporta como antes?
Durante décadas, ruas, sistemas de drenagem, diques e loteamentos foram planejados com base no histórico de chuvas registrado no passado. Em um cenário de mudanças climáticas, essa lógica já não responde aos desafios atuais. Mais do que impedir que eventos extremos aconteçam, especialistas defendem que o objetivo é fazer com que as cidades sigam funcionando quando eles ocorrerem.

— Eu vejo muito as pessoas perguntando “Será que a gente vai ter eventos climáticos extremos?”, e eu acho que a gente tem que começar a mudar um pouco a pergunta: temos que perguntar se as nossas cidades estão preparadas para funcionar quando esses eventos acontecerem, porque eles vão acontecer — resume a arquiteta e urbanista Izabele Colusso, coordenadora do curso de pós-graduação Cidades: Gestão Estratégica, Sustentabilidade e Inovação, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.
Segundo Izabele, o planejamento urbano ainda utiliza instrumentos concebidos para um clima do século passado e precisa incorporar novas estratégias. Entre as possibilidades estão infraestrutura verde (vegetação) e azul (corpos d'água) – modelo para tornar as cidades mais sustentáveis – e soluções baseadas na natureza, gestão de riscos e governança.
Novos parques
Essa mudança de perspectiva já começa a aparecer em alguns municípios gaúchos. Em Cruzeiro do Sul, no Vale do Taquari, a prefeitura tomou uma decisão incomum depois que o bairro de Passo de Estrela, onde ficavam cerca de 600 residências, foi devastado pela enchente de 2024.
Em vez de reconstruir as moradias ali, transformará o local em um parque público de 250 mil metros quadrados, enquanto um novo bairro está sendo implantado em uma região segura, fora da mancha de inundação.
A cidade revisou o Plano Diretor e passou a restringir novas ocupações em áreas de risco. Onde era Passo de Estrela, ficará o Parque Ecológico Memorial Passo de Estrela, que reunirá terrenos alagáveis e úmidos, ilhas de biodiversidade para acomodação das águas, espaço de lazer e esporte, além de elementos atingidos pela enchente que serão mantidos como memória da tragédia.
O projeto é assinado pela empresa Embyá, do Rio de Janeiro, licitada para o trabalho. O plantio de mudas tem ocorrido conforme a saída de famílias remanescentes se concretizou.
Já o projeto-piloto da criação do novo bairro, batizado de Novo Passo de Estrela, contará com mais de 325 lotes residenciais e 35 comerciais. Realizada em uma parceria entre o governo do Estado e a prefeitura da cidade, a obra ocorre em um terreno agrícola adquirido pelo poder público, foi iniciada em meados de agosto e deve ser concluída em cerca de dois anos.
Para Tanara Schmidt, engenheira ambiental e consultora técnica da prefeitura de Cruzeiro do Sul, a tragédia obrigou a cidade a rever sua forma de ocupar o território:
— Decidimos construir um parque no local porque, para que as famílias não voltem a morar lá, precisamos dar um destino para essas áreas. É uma área de arraste (trecho inundável onde a força da água em enchentes atinge energia máxima) e, conforme estudos técnicos realizados em conjunto com o governo do Estado, a melhor alternativa foi essa.
Além de Cruzeiro do Sul, outras cidades da região, como Muçum, Arroio do Meio e Estrela, têm projetos semelhantes para regiões atingidas.
Infraestrutura verde e azul
A lógica está alinhada ao conceito de infraestrutura verde e azul defendido por Izabele. Na prática, significa integrar parques, áreas de preservação, arborização, cursos d'água e banhados ao planejamento urbano, em vez de ver esses espaços apenas como terrenos disponíveis para expansão imobiliária.
Conforme a arquiteta, muitas cidades ainda canalizam arroios, ocupam banhados e permitem construções em áreas que naturalmente absorveriam o excesso de água. Ao eliminar esses espaços, acabam reduzindo a capacidade do próprio território de amortecer os impactos das chuvas.
Isso não significa abandonar obras tradicionais de infraestrutura, como diques e sistemas de drenagem. Elas continuam sendo essenciais, mas deixam de ser a única resposta. Izabele diferencia dois conceitos frequentemente confundidos:
- cidade resistente: tenta impedir que o impacto aconteça
- cidade resiliente: além de investir em infraestrutura, procura antecipar riscos, absorver os efeitos quando eles ocorrem e aprender com desastres para se transformar
Em Porto Alegre, por exemplo, a professora da Unisinos cita desde problemas cotidianos, como drenagem insuficiente e baixa cobertura da rede de esgoto, até questões estruturais relacionadas à ocupação de áreas vulneráveis:
— Tudo isso depende desse preparo que vem antes da questão do próprio desastre. As obras de infraestrutura não podem ser pensadas quando está chovendo: a gente tem que pensar quando o dia tá lindo, tem um sol maravilhoso, porque é ali que ela vai poder acontecer e que poderemos, de fato, nos prepararmos para esses dias, semanas e meses de chuva que temos pela frente — projeta Izabele.
Longo processo
A experiência de Cruzeiro do Sul também mostra que o maior desafio não é apenas financeiro. Tanara afirma que boa parte do esforço da administração foi dedicada ao planejamento dos novos projetos, à revisão das regras urbanísticas e à negociação com moradores que precisaram ser realocados.
A criação de um novo bairro exigiu pensar mobilidade, serviços públicos, áreas verdes e qualidade de vida antes da construção das moradias. Para Izabele, está é uma das maiores dificuldades da adaptação climática: planejar antes da ocupação é muito mais simples – e barato – do que corrigir problemas já consolidados:
— Isso se chama “preparação para riscos de desastres”. Pode parecer caro fazer túneis por baixo das cidades para termos bacias de contenção, como existe na China, mas, se olharmos para tudo o que gastamos depois do desastre e tudo o que foi impedido de operar, como aeroportos e rodovias totalmente colapsados, entendemos que a preparação custa muito mais barato do que a mitigação posterior.
A docente lembra que obras como diques, elevados e contenções geralmente surgem para proteger áreas que nunca deveriam ter sido ocupadas. Quando isso ocorre, o custo econômico e social aumenta significativamente.
Nos casos em que bairros inteiros já estão instalados em áreas vulneráveis, as soluções passam por diferentes estratégias, desde novas tipologias de moradia até processos de realocação assistida, sempre levando em conta os vínculos econômicos e sociais da população com aquele território.
Embora referências internacionais, como as cidades-esponja da China, bairros flutuantes em Seattle e projetos da Holanda ajudem a inspirar soluções, Izabele ressalta que não existem modelos prontos para serem copiados: cada cidade precisa compreender suas características ambientais, sociais e econômicas para desenvolver respostas próprias.


