
Um ônibus avança pelas ruas de uma cidade chinesa, ladeado por uma multidão nas calçadas, que vibra entusiasmada com bandeirinhas do país nas mãos. Poderia ser uma seleção olímpica ou alguma celebridade do entretenimento, mas era um grupo de estudantes indo prestar o Gaokao, o "Enem da China".
A imagem dá uma ideia do que representa o sistema centralizado de acesso ao ensino superior para a sociedade chinesa: uma competição de proporções gigantescas (são, em média, 13 milhões de inscritos, quase três vezes mais do que o Enem) e extremamente acirrada, para a qual os jovens são preparados desde o início da vida escolar. Mais do que isso, o processo é apontado como um fator decisivo para as transformações vividas pelo país nas últimas décadas em termos de mobilidade social.
É justamente o impacto do Gaokao sobre o milagre econômico chinês que interessa ao economista Hongbin Li, professor da prestigiosa Universidade Stanford, na Califórnia (EUA), que participou na semana passada, em Porto Alegre, do Caldeira Recebe, promovido pelo Instituto Caldeira em parceria com a Fundação Estudar.
O livro The Highest Exam: How the Gaokao shapes China (O Exame Supremo: Como o Gaokao molda a China, em tradução livre), do qual Li é um dos autores, foi incluído na lista de melhores de 2025 pela revista britânica The Economist.
Em entrevista a Zero Hora, o pesquisador falou sobre a importância e os problemas do sistema e os desafios da economia chinesa nos próximos anos.
Confira a entrevista com Hongbin Li
Por que o Gaokao é tão central na sociedade chinesa?
É um exame que tem muitas consequências na vida das pessoas, mais do que qualquer outro no mundo. Se você tirar uma nota alta, vai entrar em uma faculdade. Se tirar uma nota mais alta, vai entrar em uma faculdade de elite. Todo ano algo em torno de 13 milhões de estudantes na China vão para a faculdade, mas apenas cerca de 5% vão para uma faculdade de elite. Portanto, a concorrência é realmente acirrada.
O exame dura dois dias. Os pais normalmente tiram folga para acompanhar os filhos e as cidades normalmente fecham, porque não se permite que carros passem perto dos locais de teste, para deixar o ambiente silencioso.
Isso acontece no país inteiro?
Sim. E existem duas vertentes. Para a vertente de Ciências, você tem seis disciplinas: Chinês, Matemática, Inglês e depois Física, Biologia e Química. Para Ciências Sociais, você tem Matemática, Chinês, Inglês e também Geografia, História e Política. Assim que a nota é divulgada, todo mundo na província é classificado. Depois do ranking, as faculdades também são classificadas. Então, é um sistema altamente meritocrático. Tudo é classificado pela nota, nada mais. É por isso que é tão importante.
E não existem outras formas de acessar as universidades?
Existem, mas elas se aplicam apenas a uma proporção realmente muito pequena de estudantes. Por exemplo, se você for campeão olímpico, você pode entrar na faculdade sem fazer o teste. Mas são pouquíssimas pessoas.
E em que aspectos o Gaokao é diferente de outros sistemas de acesso ao ensino superior ao redor do mundo?
Vários países têm sistemas semelhantes, como Coreia, Hong Kong, Taiwan, Singapura, Japão, Índia. O Brasil também. Mas a China realmente leva isso ao extremo, porque é um país muito grande. Todas as pessoas fazem o exame nos mesmos dias, com as admissões baseadas nesse único teste.
E o que há de único é que não é só esse teste que importa. Mais tarde, há muitas competições semelhantes que acontecem na sociedade, no local de trabalho, no governo, em cada setor da sociedade. É por isso que eu chamo o Gaokao de um torneio hierárquico centralizado.
HONGBIN LI
Economista e professor da Universidade Stanford.
É verdade que algumas famílias começam a preparar seus filhos para o Gaokao desde muito cedo?
Sim, porque é necessário. Digamos que você queira se tornar um jogador de futebol. Você não pode começar a treinar quando tiver 15 anos, você precisa começar talvez aos cinco, certo? Então, para entrar em uma faculdade de elite, primeiro você precisa entrar em um colégio de elite no ensino médio. E para isso, você precisa fazer uma prova. Muitas crianças precisam fazer uma prova para entrar em uma escola primária de elite. É por isso que as crianças precisam começar a se preparar aos quatro ou cinco anos.

Então, na verdade, o rigor começa muito cedo.
Quando minha filha estava na escola, um dia ela trouxe para casa o resultado de um teste. Ela havia tirado 69 de 100 em Matemática e me pediu para assinar, porque na China os pais precisam assinar todos os resultados de testes. Alguns dias depois, a professora me ligou perguntando por que eu não tinha ligado para ela. Eu disse: "Por que eu deveria ligar?". Ela disse: "Você sabe que sua filha tirou 69 de 100 no teste de matemática?". Eu disse que sim.
Ela pensava que minha filha havia falsificado a assinatura, porque nenhum pai deixaria de ligar para ela ao ver um resultado tão ruim (risos). A maioria das crianças havia tirado nota máxima. A professora, então, disse: "Por que sua criança está tão atrasada?". Eu disse: "É o primeiro ano dela na escola. O que ela deveria saber?".
Mas a professora disse que, na média, as crianças do primeiro ano conseguem fazer adição, subtração, multiplicação e divisão, todos os cálculos básicos. Isso antes de entrar na escola, imagine. E elas conseguem reconhecer cerca de 2,5 mil, 3 mil caracteres chineses, o que significa que conseguem ler um livro. Quer dizer, elas já estavam bem educadas antes mesmo de entrar na escola. Basicamente, esse é o nível.
Mas isso não configura uma pressão excessiva sobre os jovens e suas famílias?
Sim, há muito estresse. É um exame com tantas consequências que as famílias colocam muito dinheiro e tempo nele. É por isso que a saúde mental é um grande problema na China também. Mas, de certa forma, quando os estudantes chegam ao ensino médio, eles estão acostumados, porque já fizeram centenas ou até milhares de testes antes de prestar o Gaokao. Outra consequência é que, mais tarde, depois que saem da escola, aqueles que sobrevivem ao teste são mentalmente muito fortes. Então eles conseguem competir no mundo real, porque foram treinados para competir.
O quanto o Gaokao contribuiu para o crescimento econômico da China nas últimas décadas?
Na verdade, não é o Gaokao em si que contribuiu, mas por causa dele as crianças trabalham duro antes de fazer o exame. É por isso que o nível educacional básico para crianças de até 12 anos na China é muito alto. A segunda coisa é que o governo chinês realmente expandiu a educação nas últimas quatro décadas. Durante a Revolução Cultural, entre 1966 e 1976, todas as escolas foram fechadas. Depois, o Gaokao foi reinstaurado em 1977.
Eu tive sorte, nasci em 1972, então quando cheguei à idade escolar, a China tinha escolas. Eu prestei o Gaokao em 1989. Na minha época, cerca de 1% das crianças iam para a faculdade. Hoje são 70%. No ano passado, a China colocou 13 milhões de estudantes na faculdade. Mesmo para as crianças pobres do campo, cerca de metade delas vai para a faculdade hoje.
A experiência de qualquer país mostra que, para haver crescimento econômico, investir na educação das crianças é a coisa mais importante. Foi o que a China fez no último meio século e isso contribuiu para o sucesso econômico.
HONGBIN LI
Economista e professor da Universidade Stanford.
Estudantes de famílias mais ricas não têm melhores chances no Gaokao?
Com certeza. Embora seja o mesmo teste, as crianças são preparadas de maneiras diferentes. As crianças de famílias mais ricas têm melhores tutores. E os tutores são muito caros. Elas também vão para escolas melhores. Mas a principal desigualdade é entre áreas urbanas e rurais. O meio urbano é mais desenvolvido, enquanto o rural é mais atrasado. Nas últimas décadas, o governo chinês tem investido fortemente na educação rural. O problema é que é difícil reter os professores jovens e educados, que não querem ficar nas áreas rurais.
O que precisa mudar para tornar o sistema mais igualitário?
Na China existe o sistema Hukou. Cada pessoa nasce com um hukou, um registro residencial. Se você nasce em áreas rurais, só pode ir para a escola rural, não pode ir para as áreas urbanas estudar. Com essa restrição, é muito difícil mudar qualquer coisa, porque você está preso à sua terra. Acho que isso precisa ser mudado ou relaxado para que as escolas sejam acessíveis a todas as crianças desde cedo. Algumas crianças perdem a competição antes mesmo de o jogo começar, e isso não é justo.

A China está crescendo de forma mais lenta agora. Que papel a educação desempenha nesse contexto?
Independentemente de um país crescer rápido ou devagar, a educação é sempre a coisa mais importante. Na minha pesquisa, descobrimos que, no período de crescimento rápido da China, basicamente 10% ao ano durante 30 anos, a educação contribuiu com cerca de um terço do crescimento, ou seja, cerca de 3% ao ano dos 10%. Os outros 7% vieram da reforma da economia, com a China mudando de uma sociedade agrícola para uma sociedade industrializada, de uma economia planejada para uma economia de mercado.
Indo para o futuro, como a China já está industrializada e muito privatizada, o potencial daqueles 7% desapareceu. O único potencial remanescente é continuar educando a força de trabalho para fazer os 3% acontecerem.
HONGBIN LI
Economista e professor da Universidade Stanford.
Outra fonte de crescimento é a inovação. Com as mesmas pessoas e o mesmo capital, se você tiver mais inovação, terá um crescimento maior. Mas o modelo atual da China é baseado em testes, o que pode não ser muito propício à inovação.
E em que medida entrar em uma universidade na China pode transformar a vida de uma pessoa?
O retorno da educação é alto. Ir para a faculdade pode aumentar sua renda em 40%. Ir para uma faculdade de elite pode aumentar em outros 40%. Mas essa é apenas a renda observável. Por exemplo, ao ir para uma faculdade de elite, você pode ficar em Pequim e conseguir o registro residencial local, o hukou local. Isso significa que seus filhos vão poder ir para a escola em Pequim. Esse é um benefício enorme, tornar-se um cidadão local. Você também pode entrar no setor governamental, que está associado a muitos benefícios. A escolarização traz benefícios que não podem ser vistos apenas pela renda.
Qual o senhor considera que é o maior desafio econômico da China hoje?
O primeiro é que, devido ao modelo econômico único, a China tem muito excesso de capacidade em várias áreas, como veículos elétricos, baterias, painéis solares. Quando você produz tantas coisas que outros países não conseguem competir com você, eles tendem a proteger suas próprias indústrias, impondo barreiras comerciais. A China deveria tentar consumir mais dos produtos que produz, em vez de tentar exportá-los. Impulsionar o consumo doméstico é muito importante. Um país desse porte não pode focar principalmente na exportação, ele tem que ser voltado para dentro. E o mundo não pode tolerar tanto volume de exportação da China.
O segundo desafio é a população em declínio. Os jovens não querem se casar nem ter filhos, porque a sociedade é extremamente competitiva. Eles eles querem focar no trabalho e não gastar tempo formando família.
O cenário geopolítico é muito complexo, com as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e a ofensiva tarifária dos EUA. Qual o papel da China nesse contexto?
A China não está mais interessada em lutar guerras, está interessada apenas em fazer negócios com todos os países. Porém, as guerras machucam a economia de todos os países e prejudicam o comércio — por exemplo, com o bloqueio de rotas, o que faz com que o petróleo não possa sair. Mas a China não pode ajudar tanto nisso, eu acho. A China é uma grande potência econômica, mas não a principal potência política do mundo.
E qual papel você acha que países como China e Brasil desempenharão na economia global nos próximos anos?
Estou no Brasil há apenas dois dias e consigo ver muito dinamismo e otimismo na sociedade. Esses grandes países, além dos EUA e da Europa, podem começar a trocar, aprender uns com os outros. No entanto, é preciso descobrir estratégias e políticas inteligentes para fazer isso. No passado, as políticas da maioria dos países eram de curto prazo. No longo prazo, o comércio é sempre bom para todos os países, mas no curto prazo pode não parecer devido às agendas políticas.
Acho que os países deveriam começar pelos jovens: eles deveriam ir para os outros países para estudar, aprender e fazer amigos. Isso é muito importante para todos, incluindo Brasil e China.
HONGBIN LI
Economista e professor da Universidade Stanford.



