
O uso da inteligência artificial (IA) generativa no Ensino Superior não é mais novidade. Alunos e professores empregam esses recursos na rotina acadêmica, não somente nos cursos ligados à tecnologia, mas em geral. Nesse contexto, universidades vêm elaborando estratégias para estimular o olhar crítico de estudantes e docentes, trazendo reflexões éticas, sociais e morais relacionadas à IA generativa.
Em maio, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou a primeira regulamentação oficial para o uso da IA no ensino brasileiro. Após passar por consulta pública, que terminou em junho, o texto agora passa por análise técnica e deve ter uma nova votação em plenário do Conselho.
Após a avaliação no CNE, a resolução ainda precisa ser homologada pelo Ministério da Educação (MEC) para se tornar norma nacional. A proposta estabelece parâmetros para garantir o uso ético e responsável da tecnologia em escolas e universidades, abordando formação de professores, processos de aprendizagem e avaliação.
Aspecto humano da formação
A inclusão de ferramentas de IA generativa no Ensino Superior obriga docentes, gestores e estudantes a refletirem sobre os impactos éticos e ambientais implicados na utilização da tecnologia, segundo a Gerente de Desenvolvimento do Ensino da Unisinos, Cristiane Schnack:
— Enquanto universidade, o nosso compromisso é olhar para essas novas tecnologias entendendo o potencial delas, mas sempre com um olhar crítico.
Para a professora, um dos principais pontos de atenção é a questão da autoria. A tendência é que plataformas como ChatGPT, Gemini e Copilot sejam cada vez mais utilizadas em atividades como escrita e revisão acadêmica.
Conforme levantamento da editora Wiley com quase 5 mil pesquisadores de cerca de 70 países, incluindo o Brasil, o uso da IA generativa deve se disseminar entre cientistas nos próximos anos, auxiliando principalmente na redação acadêmica.
— Quando estamos falando de formação de profissionais, tem a produção de conhecimento muito fortemente vinculada à universidade. A discussão de uso de IA passa muito por uma discussão de autoria, de produção de conhecimento que tem ali um ser humano pensando, discutindo, analisando, produzindo esse conhecimento — explica Cristiane.
Pela lei atual, apenas seres humanos podem ser autores de trabalhos artísticos e científicos. Essa é apenas uma das controvérsias acerca da IA. Por isso, na visão da professora da Unisinos, a IA deve entrar somente como ferramenta de apoio, dando suporte à produção científica.
Estabelecendo diretrizes
Desde o ano passado, a Unisinos conta com documentos orientadores pedagógicos para o uso consciente da IA na instituição, tanto para alunos quanto para docentes.
Também são oferecidas disciplinas optativas como “Inteligência Artificial e Sociedade” e “Cultura Digital e Tecnologias Exponenciais”, que integram uma microcertificação. Além disso, diferentes cursos já possuem no currículo matérias que buscam abordar uma perspectiva ética sobre a IA.
A estudante Nicoly Barros, do 2º semestre do curso de Ciência da Computação da Unisinos, conta que reconhece a importância do aspecto humano na formação:
— O ser humano tem criatividade, tem um pensamento crítico que uma máquina não é capaz de reproduzir. O olhar humano é mais seguro porque a gente estuda durante muito tempo para isso. Ainda não tenho experiência suficiente na área para poder identificar se aquela IA está me falando a verdade ou não, por exemplo, então evito usar — diz.
Conforme a aluna, mesmo quando se trata de disciplinas e conteúdos mais técnicos, os professores vêm se preocupando em conscientizar as turmas sobre o uso da IA.
O que evitar
Afinal, quais são os problemas acarretados pelo uso irresponsável da IA, desconsiderando o aspecto humano? Entre os principais riscos estão questões como:
- Violação de propriedade intelectual: a máquina não pode ser dona de direitos autorais
- Vieses inconscientes: é preciso atentar a potenciais formas de discriminação reproduzidas pela máquina
- Desinformação: caso seja feita mera reprodução do conteúdo sem revisão humana
— A IA alucina e pode nos induzir ao erro. A substituição da atividade profissional pelo uso da IA é um dos grandes problemas. Por isso a importância de discutir com os alunos, para que eles entendam que lugar a IA ocupa. Às vezes os próprios alunos se dão conta que é trabalhoso também revisar o que a IA propõe, e em alguns casos nem vale a pena — destaca Cristiane.
Para a professora, o uso da IA generativa precisa ser pensado também sob a ótica das questões ambientais e sociais, de representatividade e de inclusão. Caso contrário, a formação pode ficar comprometida, independentemente da área.


