A enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024 passou a fazer parte das discussões dentro e fora das salas de aula. Em escolas públicas, iniciativas lideradas por estudantes e professores têm aproximado temas como água, energia e uso do território no cotidiano das comunidades.
No Instituto Estadual Seno Frederico Ludwig, em Novo Hamburgo, um coletivo ambiental formado por alunos parte dessa experiência para mobilizar colegas e discutir soluções locais.
O estudante Artur Nunes, 17 anos, líder do grupo, relata que o engajamento surgiu a partir de uma mudança de percepção sobre o próprio papel dentro da escola e da sociedade.
— Eu pude perceber que, realmente, quando pensava que eu não tinha nada para contribuir com a sociedade, eu estava errado: cada pessoa tem muita coisa para contribuir, cada pessoa é muito importante, a gente é um universo e temos muito a ajudar. Podemos fazer diferença na vida das pessoas — reflete Artur.
A proposta do coletivo é trabalhar de forma integrada temas ambientais e sociais, incluindo água, energia e organização urbana. A ideia é que os alunos construam conhecimento a partir do diálogo e da experiência.
Pra Cima, Rio Grande
Entre os estudantes, a percepção é de que problemas cotidianos, como o descarte de resíduos, têm relação direta com os desastres recentes.
— Um projeto como este me motiva a ir à escola, porque a enchente que aconteceu em Novo Hamburgo e em outros lugares tem a ver com o meio ambiente. Um papelzinho de bala jogado na rua vai poluindo, isso vai se acumulando e pode ocorrer a enchente, descer para o mar, para o rio, afetar quem vai pescar. Isso causa doença, infecta a água — descreve Miguel Jung, 15 anos.
A motivação também está ligada à vontade de disseminar o conhecimento.
— Quero aprender mais e levar para fora. Eu quero contar o que aprendi para a família, que conta para os amigos e tudo mais, para também saberem o certo a fazer e cuidar do nosso meio ambiente, para algum dia alcançar muita gente e todo mundo saber cuidar para preservar o nosso futuro — projeta Emilly da Fontoura Pereira, 15 anos.

A venezuelana Nicole Aristimuno Alvarez, 16 anos, conta que cresceu em ambientes onde a natureza estava próxima, e isso despertou nela o desejo de aprender mais.
— Percebi que o meio ambiente afeta a sociedade e a comunidade, e, muitas vezes, as pessoas podem não estar cientes do quanto a natureza e os animais são importantes para a nossa sobrevivência na Terra. Gostaria muito de inspirar outros jovens a cuidar do futuro, para que as coisas melhorem — expressa a adolescente.
Artur foi um dos estudantes selecionados para representar a rede estadual gaúcha na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30). Essa participação também influenciou o direcionamento das ações.
A proposta é transformar o conteúdo em atividades acessíveis aos colegas, evitando uma abordagem distante da realidade dos estudantes. Além da discussão, o coletivo busca atuar na prática, incentivando projetos dentro da escola, como hortas e iniciativas relacionadas a energia.

Rio como sala de aula
A aproximação entre teoria e prática também é o eixo do Projeto Rio Limpo, desenvolvido na região do Rio Gravataí. A iniciativa utiliza há 10 anos passeios de barco como ferramenta de educação ambiental, levando estudantes para dentro do ambiente que é objeto de estudo.
Segundo a secretária-executiva do projeto, Jéssica Nucci, o objetivo é tornar o rio visível para a população:
— Muitos não conhecem o Rio Gravataí, muitos que inclusive moram perto. A gente diz que as cidades se constroem de costas para o rio, então o barco-escola é uma ferramenta para que a população comece a olhar para o rio, compreenda esse rio, conheça esse rio e aprenda a gostar desse rio, para também aprender a preservar — relata.
Durante as atividades, os participantes percorrem trechos preservados e discutem temas como qualidade da água, abastecimento e gestão de recursos hídricos.
— A gente está acostumado a ver notícias de acúmulo de lixo, esgoto, tudo envolvendo o Rio Gravataí, e aí parece que é um rio praticamente morto. Então, percorremos uma parte preservada do rio, que tem uma paisagem muito bonita, com mata ciliar preservada, espécies nativas ainda protegidas. Passamos, inclusive, por uma estação de captação de água da Corsan, para trazer o debate sobre a qualidade da água que recebemos e as disputas que envolvem o uso da água — descreve a secretária-executiva.
A experiência, segundo Jéssica, provoca mudanças na percepção dos participantes:
— Quando as crianças entram no barco, elas costumam observar bastante, e algo as impacta. Acho que a própria natureza se faz entender, através dos pássaros que estão ali, que daqui a pouco piam, e é um piado diferente. Famílias de capivara atravessando o rio, bugios que aparecem, o peixe que pula. É um ambiente tão deslumbrante, que desperta nas crianças um interesse diferente do interesse de uma tela, de uma sala de aula ou de um trabalho em grupo.
A iniciativa atende principalmente alunos de escolas públicas e depende de recursos públicos e parcerias para se manter.
— Somos uma entidade sem fins lucrativos e buscamos captar recursos para fazer o nosso trabalho. Já assinamos termos de fomento e recebemos emendas parlamentares importantes. É um desafio. Vamos tateando, encontrando caminhos de menor resistência para sempre poder apresentar para a população o nosso rio — analisa Jéssica.
Para a professora e educadora ambiental Valéria Goulart, que acompanhou turmas da rede municipal de Alvorada em passeios do Projeto Rio Limpo, o contato direto com o rio amplia o entendimento sobre o tema.
— Muitos não imaginavam que estavam navegando naquele rio que eles ouviam falar, que chegava até a casa deles. Então, foi feita uma fala bem forte sobre essa questão de preservar, principalmente as margens dos rios, saber que aquela água que estava ali, que nós estávamos navegando sobre aquela água, aquela água que vai chegar até as nossas casas. Muitos disseram que foi o melhor passeio da vida deles. Foi bem gratificante ver o quanto as crianças valorizam algo que muitos adultos não conseguem perceber, que é a importância da água nas nossas vidas — destaca Valéria.
A docente relata que a enchente de 2024 influenciou a mobilização das escolas:
— A enchente foi um momento que fez com que várias escolas, várias pessoas começassem a perceber da importância de se trabalhar toda essa questão da preservação.
Após as visitas, parte das escolas levou o conteúdo para a sala de aula, aprofundando o estudo sobre o rio e o abastecimento.
— Ali foi uma sala de aula ao ar livre — resume Valéria.
Da escola para o território
Na zona sul de Porto Alegre, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Anísio Teixeira desenvolve, desde o início dos anos 2000, um projeto de educação ambiental que conecta o uso da água, a produção de alimentos e a preservação do território.
A professora Cynthia Bairros Tarragô coordena a iniciativa, que foi um dos cases de educação ambiental da Virada Sustentável de 2026, e explica que o trabalho busca sensibilizar a comunidade a partir do cotidiano.
— O nosso trabalho aqui nesses anos todos tem sido sensibilizar a comunidade escolar para as questões ambientais, dentro de uma visão mais holística (interconectada) — sintetiza Cynthia.
Um dos eixos do projeto é a horta escolar, utilizada como espaço de aprendizagem. A estrutura inclui uma cisterna para captação de água da chuva, instalada com recursos obtidos ao longo dos anos. A proposta envolve práticas como reaproveitamento de água e redução de desperdícios.
— Como a maioria dos nossos alunos mora em casa aqui na Zona Sul, temos a possibilidade de produzir nosso próprio alimento e criar técnicas de reuso da água da chuva. Então, procuro trabalhar essas ferramentas em aula — explica Cynthia.
A docente destaca que a continuidade do trabalho depende de um processo constante de formação e replicação da prática dentro da própria escola.
— É um trabalho de formiguinha, porque os alunos mudam, os funcionários mudam, a equipe muda, os professores mudam, e aí tem que falar o óbvio de novo, como a questão do resíduo no lugar certo, que também interfere na questão da água, porque vai parar no Guaíba, e que isso também interfere em energia, porque se reciclarmos, vai diminuir o gasto de energia fabricando novos produtos — descreve a educadora.
Outro foco é o território do entorno da escola, incluindo áreas de morro sujeitas à ocupação irregular e a impactos de eventos climáticos. A escola desenvolve ações de reflorestamento com espécies nativas, o que inclui saídas de campo e atividades de leitura da paisagem, com o objetivo de aproximar os estudantes das características ambientais da área.











