Priscila Cruz, presidente-executiva da Todos Pela Educação, está no centro do debate sobre os rumos do ensino público no país. À frente de uma organização que, neste ano, completa duas décadas, acompanha de perto a formulação de políticas educacionais e os avanços — ainda desiguais — da área.
Em entrevista ao Conversas Cruzadas, ela avalia que o Brasil avançou no acesso e em parte dos resultados, mas segue enfrentando entraves estruturais. Entre eles, a formação de professores, os efeitos persistentes da pandemia e os impactos do uso de telas no processo de aprendizagem.
A seguir, os principais trechos da conversa.

Avanços na educação brasileira
"Nos últimos 20 anos, a gente saiu de uma situação em que se tinha algumas ilhas pequenas de excelência — em poucas cidades pequenas com educação para todo mundo — para todo o território (brasileiro). O que a gente tem hoje é muito mais uma situação de universalizar a excelência, não é ter excelência. É fazer com que, em vez de ter alguns territórios, a gente tenha todos os Estados, todos os municípios brasileiros.
A gente tinha 27% das crianças com aprendizagem adequada ao final do quinto ano, hoje a gente está em 62%. Então, em 20 anos, a gente mais do que dobrou. É um aumento importante, o Brasil tem conseguido uma velocidade de avanço superior à média mundial.
Como a gente ficou muitos séculos sem investir na educação, sem colocar nenhum tipo de prioridade para a educação, a gente está atrás, porque são séculos de desvantagem que se acumularam ao longo da nossa história. Nos últimos 20 anos, é como se começasse a corrida. A gente começou a correr agora.”
Impactos da pandemia
“A gente teve um primeiro Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) que foi feito no meio da pandemia, então não era um retrato bom ainda. Ele foi feito em uma situação de exceção. No último Saeb, que é de 2025, a gente consegue enxergar claramente o impacto da pandemia: as curvas têm uma queda muito grande (de aprendizagem).
Hoje, em uma sala de 9º ano, você tem estudantes que estão no nível de aprendizagem de 9º ano, de 8º, de 7º etc. A gente está carregando essas defasagens todas desde o fim da pandemia. O Estado que não fez uma política de recomposição das aprendizagens está com resultados muito ruins e está patinando. Já os Estados que foram sérios na política de recomposição da aprendizagem são justamente os que estão com os melhores resultados. Não dá para patinar na educação, tudo vira uma bola de neve.”
Formação dos professores
“Como foi preciso usar o digital durante a pandemia, especialmente no Ensino Superior, houve um aumento muito grande de matrículas nas licenciaturas na modalidade de educação a distância. Ficou banalizado. O Ensino Superior é muito importante para a Educação Básica, porque é lá que se formam professores. Há muitas políticas que precisam ser conduzidas no país para garantir uma mudança de patamar na qualidade. As políticas relativas à carreira docente são as mais importantes. Se há um fator que é o mais importante para a qualidade da educação, é a qualidade dos professores.
É muito mais difícil conseguir resultado se não atacar a questão na origem, que é atrair melhores professores: aqueles alunos que tiveram notas maiores no Enem irem para a carreira docente, em licenciaturas presenciais, de alta qualidade. Tem de colocar recurso. Depois o estágio probatório, a própria carreira do professor, condições de trabalho.”
A Educação Básica é a base de um país desenvolvido, que distribui renda e dá oportunidades. Isso só faz a gente concluir que o professor é a profissão mais importante do país. Se é a profissão mais importante do país, como que se tolera uma formação completamente precarizada, que é o que está acontecendo hoje no Brasil?
Educação a distância
“Existem os argumentos de que isso está democratizando o acesso a essa formação (licenciatura). Tudo bem, pode democratizar o acesso, é muito importante democratizar o acesso. Mas tem que estar subordinada à qualidade, e não ao contrário, não a qualidade subordinada à democratização do acesso. Se tem um investimento para se fazer neste país, é nas licenciaturas. É garantir que os futuros professores tenham uma formação com rigor, com a qualidade necessária. Duvido que tenha uma profissão mais difícil, mais complexa, mais desafiadora do que a de professor das escolas públicas brasileiras.
Tem que haver uma formação que olhe para a sala de aula, que olhe para aquilo que esse professor vai enfrentar como desafio, e não são poucos. Saber fazer uma boa gestão de sala de aula, ter as didáticas específicas bem consolidadas. O diálogo entre prática e teoria é fundamental para um profissional, que é o mais importante e que tem uma carreira desafiadora à frente. Tudo o que ele não pode ter é uma formação insuficiente, que não vai prepará-lo para uma realidade que é muito desafiadora.”
Desafios para a educação
“Estamos vivendo um momento de muitas reformas educacionais. Daqui algumas décadas, vamos olhar para trás e enxergar este momento da história como um momento de muita efervescência de reformas educacionais para realmente puxar o Brasil para cima. O Brasil consegue subir posições (no PISA — Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) porque outros países, que não estão vivendo esse momento de muita efervescência educacional, estão com a sua qualidade caindo. Não é que o Brasil está voando, mas é que a gente está subindo um pouquinho, só que esse pouquinho já tem sido suficiente para reduzir a nossa diferença dos países mais ricos. Porque esses países mais ricos também estão vivendo uma situação que está afetando todo mundo que é o aumento das telas e do tempo que os alunos ficam nas redes sociais. É o que eu chamo de sequestro cognitivo. É a dificuldade de concentração, ler, se concentrar, entender, analisar um enunciado mais longo, ler um texto mais longo.
Há vetores negativos por conta do excesso de telas. A proibição de celular nas escolas foi muito importante, mas não é tudo. Tem o celular e tem as redes sociais fora da escola, que roubam muito tempo, principalmente dos adolescentes. Os ensinos Fundamental e Médio são muito afetados pelo uso excessivo das telas e das redes sociais. Esse é um vetor negativo.
Tem a questão da saúde mental, muito por conta da IA, falta de perspectiva, mudanças climáticas. Vai ter mundo, não vai ter mundo, com a IA vai ter emprego, não vai ter emprego. Tem aí uma crise muito grande, uma ansiedade muito forte entre os estudantes. A questão de saúde mental é infinitamente maior do que era 10 anos atrás. A violência também afeta, porque tem fechamento de escolas, porque tem o medo, porque afeta a saúde mental.
Acho que a notícia é: o fato de ter vetores negativos para avançar na educação não significa que a gente não avance. A questão é que a gente tem que ter mais vetores positivos. Então, precisamos compensar com mais gestão, mais financiamento, mais prioridade para a educação. O fato de ter fatores que jogam contra a educação não deveria nos desanimar, muito pelo contrário."


