
Alguns meses atrás, representantes de um município da Serra entraram em contato com a Secretaria Estadual da Educação (Seduc) para defender a abertura de um curso profissional, de nível médio, na área do turismo em uma de suas escolas. Parecia a escolha óbvia, dada a vocação regional para receber visitantes.
Os servidores da pasta, porém, analisaram dezenas de informações em uma tela de computador e chegaram à conclusão de que o mercado local já estava saturado por esse tipo de profissional, com pouca perspectiva de novas contratações. A conclusão foi de que o setor de logística era mais promissor. Para chegar a essa constatação, o corpo técnico da secretaria utilizou uma ferramenta digital que vem ganhando destaque na expansão da rede de Educação Profissional e Tecnológica (EPT) em escolas públicas estaduais prevista para ocorrer neste ano.
A chamada "ferramenta de definição da oferta de cursos" é uma espécie de grande banco de dados que combina informações sobre mercado de trabalho, censo e infraestrutura escolar e indicadores socioeconômicos subdivididos por município. Permite, por exemplo, cruzar o indicador de quais categorias profissionais estão com aumento ou queda de contratações em um determinado local, com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e na Relação Anual de Informações Sociais (Rais), com o tamanho da população, a quantidade de matrículas e com os cursos já oferecidos na região pelos colégios estaduais. É possível, ainda, verificar quais opções existem em outras redes, do setor público ou privado, para evitar a sobreposição de oferta.
— O curso técnico tem como um de seus grandes pilares a empregabilidade, a inserção produtiva desse jovem. Então, ela (a ferramenta) nos ajuda também a tomar decisões embasadas em dados e não só em percepções ou achismos que podem permear, às vezes, o senso comum — afirma o superintendente de Educação Profissional da Seduc, Tomás Collier.
Se o aplicativo indica que uma determinada ocupação profissional está com alta demanda em uma região com boa infraestrutura escolar e corpo docente disponível, com números razoáveis de população e matrículas, sem opções de formação semelhantes em outras redes, há fortes razões para a abertura de um curso nessa área, por exemplo. Mas, se o computador indica viés de queda em contratações no setor, falta de laboratórios adequados nos colégios próximos ou oferecimento de cursos equivalentes por outras redes, a possibilidade de abrir novas vagas perde força.
Além de prospectar os melhores setores para abertura de novas formações, o instrumento serve para avaliar a sustentabilidade de cursos já oferecidos. São analisados a adequação de cada formação ao cenário econômico, as condições pedagógicas e o volume de matrículas. A combinação desses fatores resulta na atribuição de uma entre três diferentes cores a cada itinerário educacional:
- verde indica cenário favorável à manutenção ou à expansão;
- amarelo sugere uma análise mais criteriosa de cada caso; e
- vermelho recomenda que aquela opção seja revista — cancelada ou substituída por outra.
Muitos cursos de técnico em contabilidade, por exemplo, vêm recebendo classificação vermelha porque uma recente mudança na legislação passou a exigir formação superior para certas tarefas. Com isso, o interesse pela formação técnica vem caindo, segundo a Seduc.

Setor produtivo ajuda a definir prioridades
O superintendente de Educação Profissional da Seduc, Tomás Collier, afirma que o banco de dados digital, atualizado periodicamente, não é o único elemento levado em consideração para planejar a expansão da educação profissional na rede estadual. Uma das razões para isso é que a ferramenta não consegue antecipar tendências. Se há uma perspectiva de abertura de um grande número de vagas em um determinado setor graças a investimentos iminentes, essa informação só pode ser obtida por meio do contato direto com as comunidades — incluídas prefeituras, entidades civis e representantes do setor privado.
Na Região Metropolitana, esse contato ganhou uma organização formal. Pelo menos uma vez a cada semestre, a 12ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) se reúne com a Agência de Desenvolvimento Econômico e Social de Guaíba para discutir o cenário da educação voltada ao mercado de trabalho.
— A partir desses contatos, estamos organizando um curso de energias renováveis de nível pós-médio. Recebemos as demandas e, quando verificamos que são necessidades reais, passamos a estudar que escola teria melhores condições para atender. Isso também é feito com auxílio da ferramenta (de definição de cursos) — afirma o coordenador da 12ª CRE, José Filipe de Quadros Nunes.
Essa interlocução garantiu a abertura de outros cursos de nível médio em cidades abrangidas pela 12ª CRE, como Logística em Guaíba e Camaquã, e de Agronegócio em Tapes, por exemplo.
Essa conexão vem funcionando muito bem, por colocar poder público e iniciativa privada sob o mesmo foco
CLEBER QUADROS
Diretor de Desenvolvimento, Tecnologia e Inovação da Agência de Desenvolvimento de Guaíba
Expansão da rede estadual em 2026
Desenvolvida gradualmente pela Seduc nos últimos anos, em parceria com a organização Itaú Educação e Trabalho, a ferramenta de avaliação de cursos é uma das referências para o atual programa de expansão da rede de cursos técnicos no sistema público estadual, que tem como meta suprir a falta de mão de obra qualificada apontada por empresários de diversos setores no RS. Uma sondagem realizada em 2025 pela Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) revela que a falta de trabalhadores qualificados afeta 85,5% das empresas associadas — maior percentual já registrado, superando os 75% observados em 2013.
Conforme Tomás Collier, 409 escolas de turno integral passarão a contar com formações de EPT a partir de 2026 — que se somarão a outras 58 que contam hoje com EPT integrada ao Ensino Médio (isso não inclui locais com cursos subsequentes ao nível médio).
A proporção de municípios gaúchos com oferta desse tipo de ensino deverá saltar de 28% para 58%, conforme a Seduc. Para facilitar o planejamento e a implantação das mudanças, os estabelecimentos de turno integral que passarão a contar com formação profissional têm à disposição 17 possibilidades de cursos, incluindo Agronegócio, Eletrônica, Marketing, Programação de Jogos Digitais e Produção de Moda.
— O objetivo final é oferecer um curso de qualidade, que esteja alinhado ao Plano Rio Grande (programa estadual de recuperação do Estado pós-enchente) e que realmente contribua com a comunidade — avalia a superintendente adjunta de Educação Profissional da Seduc, Raquel Padilha.
Como a ferramenta digital é usada
1. Diagnóstico de potencial
Com recorte municipal, o aplicativo usa um amplo banco de dados para avaliar itens como tamanho e tendência de crescimento ou decréscimo da população e do número de matrículas para avaliar se a região tem potencial para sustentar a abertura de um novo curso.
2. Análise de demanda
Por meio da análise de dados recentes de contratações e demissões, verifica-se quais setores da economia têm maior ou menor demanda por mão de obra em cada local, a fim de direcionar a abertura de vagas. Passada a pandemia de covid-19, por exemplo, a ferramenta constatou que já havia saturação no mercado de saúde, em nível técnico, em muitas regiões.
3. Avaliação de infraestrutura e pessoal
A ferramenta tem um sistema de classificação de cada escola com base na infraestrutura (se tem ou não os laboratórios eventualmente necessários para determinado curso) e na disponibilidade de corpo docente. Escolas melhor preparadas têm mais facilidade para receber novas opções de formação.
4. Checagem de sobreposição
O banco de dados informa, ainda, se já existem opções de cursos profissionais naquela região específica, seja pela própria rede estadual, por outros sistemas públicos ou pela iniciativa privada. Se já houver boa cobertura, mesmo que por outras redes, a oferta de novas vagas perde prioridade. Se não houver, aumenta a viabilidade da criação de um novo itinerário.
5. Refinamento humano
As informações objetivas da ferramenta digital são complementadas por análises mais subjetivas feitas em parceria com representantes das comunidades locais. Isso serve principalmente para antecipar tendências econômicas, como a perspectiva de abertura de novas empresas de um determinado setor.
Em fevereiro, por exemplo, a Agência de Desenvolvimento de Guaíba deve indicar à Seduc a perspectiva de novos empregos na área de eletrônica e eletromecânica em razão de investimentos privados prestes a ocorrer no município.
