
Cada vez mais, pais e responsáveis buscam matricular os filhos em escolas de tempo integral. O modelo vem crescendo tanto na rede pública quanto em instituições privadas no Rio Grande do Sul (RS). Mas ainda há muitas dúvidas sobre os diferenciais desse formato, quais são suas exigências e custos adicionais, no caso das escolas particulares.
Conforme o presidente do Sindicato do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinepe/RS), Oswaldo Dalpiaz, a mensalidade é mais alta nas instituições da rede privada, mas não devem ser cobrados valores à parte.
— A partir do momento em que a escola oferece este serviço ampliado, tem custos a mais. Não dá para uma escola exigir o pagamento de uma mensalidade que antes compreendia cinco, seis horas aula por dia, e que agora serão sete horas. Há um acréscimo de carga horária e de atendimento, assim, o valor da mensalidade também deverá ter um acréscimo — afirma Dalpiaz.
Ele destaca que os horários de entrada e saída são variados, a depender das regras de cada escola, desde que a carga horária obrigatória seja respeitada. A resolução CNE nº 7/2025, aprovada no Conselho Nacional de Educação, estabelece que o ensino integral deve ter no mínimo sete horas diárias ou 35 horas semanais, de forma regular e permanente.
Mas o aumento da carga horária deve ser acompanhado por uma proposta curricular que articule as dimensões cognitivas, físicas, emocionais, sociais, éticas, culturais e ambientais do desenvolvimento dos estudantes.
— Sempre que uma escola ofertar educação em tempo integral, pública ou privada, essa oferta precisa atender aos parâmetros mínimos definidos nacionalmente. Não se trata apenas de cumprir horas, mas de garantir qualidade pedagógica e coerência com a concepção de educação integral prevista em lei — destaca o professor Éder da Silva Silveira, da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).
O que o ensino integral oferece?
Coordenador adjunto do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unisc, Silveira ressalta que o tempo ampliado não pode ser entendido apenas como mais aulas do currículo tradicional. As escolas privadas possuem autonomia pedagógica e organizacional, mas essa autonomia não permite denominar como “tempo integral” uma oferta que seja apenas um turno estendido, sem um projeto pedagógico integrado.
Trata-se de um projeto com diversificação das experiências formativas, sempre respeitando as diretrizes nacionais, como a Base Nacional Comum Curricular, e as orientações estaduais.
— O ponto-chave é que essas atividades não sejam meros preenchimentos de horário, mas tenham intencionalidade pedagógica clara e vínculo com o projeto da escola — explica Silveira.
O tempo integral abre espaço para atividades como:
- Artes e cultura (teatro, música, entre outros)
- Esportes
- Projetos interdisciplinares
- Uso de tecnologias, como robótica
- Educação digital e midiática
- Atividades investigativas
- Práticas de cidadania
- Estudo orientado
- Recomposição de aprendizagem
As escolas não são obrigadas a ofertar todas essas atividades, mas devem apresentar um currículo integrado que rompa com a lógica tradicional de "turno e contraturno". As diretrizes nacionais orientam que a escola integral vá além da lógica de "aulas" e "atividades complementares".
O que muda na rotina do aluno?
A matrícula em uma escola privada de ensino integral representa uma mudança significativa, não somente para o aluno, mas para a família, como um todo. Essa nova rotina envolve logística, organização do dia a dia e expectativas sobre o papel da escola.
Como o modelo prevê uma jornada maior, o estudante pode passar até oito ou nove horas dentro da escola, somando períodos de aula e intervalo. Com isso, pode ser uma rotina mais cansativa para a criança ou adolescente. Isso demanda das famílias um cuidado maior na organização.
— É preciso garantir horários adequados de sono, alimentação equilibrada e momentos reais de descanso. Ao mesmo tempo, para muitos estudantes, torna-se necessário ampliar intencionalmente os momentos de lazer e convivência familiar, já que, no tempo integral, o filho passa grande parte do dia convivendo com colegas e professores, muitas vezes mais tempo do que com a própria família — destaca Silveira.
Por isso, a decisão pelo tempo integral precisa ser pensada não apenas como uma escolha pedagógica, mas como uma reorganização da vida familiar, que exige equilíbrio entre escola, saúde, descanso e vínculos afetivos. Vale lembrar que, com o ensino integral, os alunos passam a almoçar na instituição de ensino, o que também irá acarretar gastos adicionais.
— Nessa mensalidade, normalmente não está inclusa a refeição, nem os lanches. Isso tudo fica por conta da família. Então, o custo também começa a ser elevado. Na escola pública, há verbas para isso. Na escola privada, a verba sai de dentro do bolso do pai ou da mãe. Então, tudo isso tem que ser muito bem pensado — ressalta o presidente do Sinepe/RS.
O que levar em conta ao escolher a escola?
Nem toda oferta de tempo integral garante, necessariamente, mudanças qualitativas no currículo e nas práticas pedagógicas. Pode haver distância entre o discurso institucional e o que efetivamente chega ao estudante, explica Silveira:
— Se a escola continuar operando com concepções tradicionais, excessivamente conteudistas, baseadas na memorização mecânica e pouco conectadas à realidade dos alunos, o tempo integral tende a reproduzir os mesmos limites do ensino parcial, apenas por mais horas.
Assim, ao escolher uma escola para matricular os filhos, é importante que as famílias estejam atentas às seguintes questões:
- O tempo integral é parte de um projeto pedagógico estruturado ou se limita a um turno estendido?
- De que forma a escola articula a BNCC com sua proposta, por meio de projetos, clubes, artes, esportes ou outras experiências formativas?
- Há evidências concretas de integração curricular, como projetos interdisciplinares, avaliações formativas e estratégias de recomposição de aprendizagens?
Outra dica é avaliar se o corpo docente do colégio tem formação adequada para implementar as atividades previstas. Também é importante verificar se a instituição possui a infraestrutura necessária para promover as atividades propostas.
Refeitório adequado, alimentação de qualidade, espaços de convivência, quadras ou áreas esportivas, biblioteca, laboratórios, ambientes para atividades práticas, artísticas e culturais, áreas de descanso e acessibilidade são exigências importantes.
Por fim, é preciso atentar à transparência – verificar se a instituição apresenta grade horária detalhada, com objetivos pedagógicos claros, e se explicita como funcionam as formas de avaliação, bem como custos extras envolvidos no modelo (material escolar, alimentação, transporte, atividades adicionais).



