
O processo de mudança de escola pode ser desafiador e trazer uma série de dúvidas – tanto para crianças e adolescentes, quanto para os pais e responsáveis. Como escolher uma nova instituição? O que levar em conta nessa decisão? E depois, como será a adaptação dos filhos ao novo ambiente?
Essas questões sempre aparecem, e mudanças podem gerar angústia, sobretudo nos pequenos, até os sete anos de idade. Por isso, é importante saber escolher uma escola que dê um bom “match”, ou seja, com valores e abordagens alinhados às expectativas da família, além de promover o devido acolhimento aos novos alunos.
Conforme a psicopedagoga Esther Cristina Pereira, diretora da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), na hora da decisão, além de considerar aspectos práticos, como proximidade da escola em relação à residência, mensalidade, qualidade da infraestrutura e das instalações, é preciso avaliar os seguintes fatores:
- Condutas da escola
- Filosofia
- Metodologia de ensino
- Abordagem pedagógica
Ela argumenta que uma ótima maneira de conhecer escolas é dialogando com outros pais e responsáveis para pedir indicações, trocar experiências e ouvir opiniões de pessoas de determinada comunidade escolar. Outra dica é buscar os canais de comunicação da instituição de ensino e agendar uma visita presencial para conhecer os espaços, a equipe e tirar dúvidas diretamente junto à gestão do colégio.
Não adianta nada matricular os filhos em uma escola que é linda, com uma grande estrutura, mas que não bate com as suas referências de vida, com os valores e conceitos que você deseja transmitir para a criança.
ESTHER CRISTINA PEREIRA
Diretora da Federação Nacional das Escolas Particulares
— Não adianta nada matricular os filhos em uma escola que é linda, com uma grande estrutura, mas que não bate com as suas referências de vida, com os valores e conceitos que você deseja transmitir para a criança. Como essa escola lida com a inclusão? Quais atitudes toma se uma criança bate na outra? Como lida com a religião? São questões importantes para verificar se existe essa identificação — explica.
A especialista ressalta que também é importante compreender as condutas da escola diante de situações cotidianas. É interessante entender, por exemplo, como age a instituição diante de situações de agressão, quais são as regras em relação ao uso do celular na sala de aula, e quais normas e políticas de convivência adota.
— Como essa escola lida com a inclusão? Quais atitudes toma se uma criança bate na outra? Como lida com a religião? São questões importantes para verificar se existe essa identificação com os valores da família — diz.
Para pessoas que prezam por uma educação que envolva o ensino religioso, por exemplo, o ideal é buscar escolas confessionais, que se orientam por uma fé específica – como católica ou adventista. Os pais e responsáveis também devem ficar atentos à abordagem pedagógica. Há instituições que seguem modelos específicos, como as humanistas, que têm como pilar o protagonismo do aluno no processo de aprendizagem.
Outro exemplo são as escolas construtivistas, que pressupõem a participação ativa do aluno na construção do conhecimento. Há ainda modelos mais focados na formação profissional e tecnológica, entre outros.
Esther ressalta que é fundamental pesquisar previamente sobre cada escola para tomar decisões assertivas e, no caso dos adolescentes e pré-adolescentes, que eles participem dessa decisão junto da família.
— Até os 10 anos, a criança não tem maturidade para escolher onde vai estudar. São os pais que precisam tomar essa decisão. A partir dessa faixa etária, nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, o adolescente é capaz de formar opiniões mais consistentes e conversar com os pais sobre isso, ele vai criando sua própria visão de mundo. E é importante que ele seja ouvido — diz.
Segundo a coordenadora do Serviço de Orientação Educacional (SOE) do Colégio Anchieta, Isabel Tremarin, trata-se de uma decisão que pode influenciar anos da trajetória escolar do estudante. Por isso, é necessário que seja tomada com cuidado:
— A primeira questão que a família precisa levar em consideração é a proposta pedagógica da instituição para a qual ela está se dirigindo, para ver se essa proposta realmente conversa com o que a família espera e com as expectativas que a família tem em relação à educação dos seus filhos.
Ela destaca que é fundamental que haja uma relação de parceria entre a família e a escola em torno de objetivos comuns. Por isso, antes de tomar a decisão, é importante dialogar com a escola, sempre que possível de maneira presencial, para sanar dúvidas e conhecer mais a fundo a instituição. Uma boa dica é conhecer o projeto político-pedagógico de cada colégio.
— Só a escola que vai poder dirimir algumas dúvidas, trazer para a família a sua proposta e documentos que norteiam todo o trabalho da escola. É importante para entender o que a instituição tem a oferecer — explica Isabel.
Estratégias de acolhimento
Após ingressar na nova instituição, a adaptação dos estudantes pode ser um período difícil. Tanto a família quanto a escola têm a responsabilidade de auxiliar nesse processo:
— Há um estranhamento, seja por estarem em um ambiente novo, com pessoas novas, seja por ficarem longe da família. Os pais precisam estar junto, dividir os anseios com a escola e ter momentos de escuta. A criança chega em casa reclamando, ou contando várias coisas, e isso é normal. Eles não vão se ambientar se não houver acolhimento — afirma Esther.
Para evitar angústia e frustrações na adaptação, também é importante que a instituição de ensino promova espaços de escuta e trocas com os novos estudantes. Uma boa estratégia é ter estudantes mais antigos que atuem como tutores dos alunos novos.
Eu senti que já era hora de mudar, queria testar coisas novas. E desde o início fui muito bem acolhida, fiz um grupo de amigos, foi tranquilo.
RENATA FRIZZO
16 anos
É o que acontece no Colégio La Salle Dores, em Porto Alegre, que conta com um projeto de apadrinhamento. Conforme o diretor da escola, Jader Henz, os alunos veteranos ficam responsáveis pelo acolhimento aos recém-chegados, mostrando espaços da instituição e sanando dúvidas.
Também há desafios no âmbito pedagógico. Muitas vezes, ao trocar de colégio, a criança ou adolescente precisa se adaptar a uma metodologia de ensino distinta, ou mesmo a uma rotina de estudos mais intensa, no caso de alunos avançando para uma nova etapa. Por isso, também é fundamental o papel da escola nessa transição.
No La Salle Dores, sempre que chega um novo estudante, ele passa por uma avaliação diagnóstica. A partir disso, os professores entendem quais habilidades e competências o aluno desenvolveu, e quais conteúdos e aspectos precisam ser fortalecidos, ou seja, as lacunas de aprendizagem. Quando necessário, a criança é encaminhada para aulas de reforço.
— Acolher esse novo estudante na sua integralidade é o que faz com que ele consiga se adaptar, tanto na parte pedagógica quanto na parte relacional. Temos várias ações nesse sentido, da parte pedagógica. Sobretudo, uma adaptação curricular, entendendo o que ele já aprendeu, o que não aprendeu, o que precisaria de atividades extras — explica o diretor.
Sede por mudanças
A estudante Renata Frizzo, 16 anos, está no 1º ano do Ensino Médio. Ela conta que, ao concluir o Ensino Fundamental, percebeu que queria uma mudança, e sentiu que poderia ser interessante estudar em uma nova escola. Assim, conversou com os pais e decidiram pelo La Salle Dores.
Segundo a mãe, Isabel Cristina Frizzo, professora aposentada, após visitar a escola, foi muito mais fácil tomar a decisão. Ela relata que o vínculo com a escola tem sido muito positivo, e que a equipe é muito acessível.
— Quando a gente chegou aqui ela me disse “mãe, é aqui que eu quero ficar”. Ela entrou na escola e gostou de tudo, da recepção, das instalações. Gostamos muito dos espaços, da sala maker. Em um segundo momento, a gente fez uma entrevista para conhecer a proposta pedagógica da escola — afirma.
Apesar do receio por ser “a aluna nova” e viver uma experiência inédita, ela relata que ficou muito satisfeita:
— Eu senti que já era hora de mudar, queria testar coisas novas. E desde o início fui muito bem acolhida, fiz um grupo de amigos, foi tranquilo. Eu adoro o colégio. Eu queria encontrar um espaço onde eu pudesse fazer o Ensino Médio de uma forma tranquila.

A jovem adora ler e conta que a biblioteca foi um dos diferenciais que chamou a atenção. Para a jornalista Nathalie Dornelles, mãe de Mariana Dornelles Sobrosa da Silva, 11 anos, o acolhimento da filha no Colégio Anchieta foi importante. No começo do ano, a aluna ingressou na escola, no 6º ano do Fundamental. A família decidiu buscar uma proposta pedagógica que fizesse mais sentido.
Os amigos que fiz aqui até parece que conheço há muito tempo. A gente conversa como se nos conhecêssemos desde pequenos.
MARIANA DORNELLES SOBROSA DA SILVA
11 anos
— Passamos três meses visitando outras escolas. No início eu tinha receio, por ela ter estudado no mesmo local por 10 anos, criado um círculo de amizades, e de repente ter essa quebra. Mas ela mesma vinha verbalizando que não estava feliz na escola. Então, decidimos mudar, mas foi tudo muito tranquilo — conta Nathalie.
Ela ressalta que o SOE do Anchieta foi importante no âmbito emocional, facilitando a integração de alunos novos, e com equipes treinadas para resolver quaisquer conflitos. Mariana conta que até começou a gostar de esportes, depois de iniciar as aulas de handebol no novo colégio.
— Os amigos que fiz aqui até parece que conheço há muito tempo. A gente conversa como se nos conhecêssemos desde pequenos. Eles foram muito acolhedores. Me sinto muito melhor aqui, tanto pelas amizades quanto pela escola — diz a aluna.
