
A previsão de que as escolas de Educação Infantil poderão retomar as atividades presenciais em 1º de julho, conforme anúncio feito pelo governador Eduardo Leite, trouxe alívio para a rede particular, ameaçada pela queda brusca de receitas, mas acarretou muitas dúvidas sobre a saúde dos pequenos, dos professores e dos funcionários em tempos de pandemia.
Para alunos com idade entre zero e cinco anos, ainda em fase de amadurecimento e sem a completa noção dos riscos, emergem receios sobre como será a rotina na escolinha com o compartilhamento de brinquedos, o típico gesto infantil de levar a mão à boca, a ocasional troca de chupetas e as demonstrações de afeto tão comuns à faixa etária, como os abraços e o colo das professoras e auxiliares.
Para responder a essas preocupações, as instituições iniciaram adaptações antes mesmo do anúncio do governador.
Na Escola de Educação Infantil Cativar, na zona norte de Porto Alegre, espaços de uso comum antes utilizados para atividades lúdicas estão passando por pequenas reformas. Novas salas de aulas serão instaladas ali, o que permitirá aumentar o número de turmas e reduzir a quantidade de alunos por metro quadrado, contribuindo com o distanciamento. As crianças terão de deixar seus brinquedos pessoais em casa, farão medição de temperatura ao chegar, e uma muda completa de roupa deverá ser enviada pelos pais para uso exclusivo dentro da escola.
— É uma mudança completa de paradigma — diz Inajara Atkinson, uma das proprietárias da Cativar.

Diretora de Relações do Trabalho do Sindicato Intermunicipal dos Estabelecimentos de Educação Infantil do Rio Grande do Sul (Sindicreches), Rejane Selistre diz que a entidade é favorável ao retorno das atividades presenciais. Ela avalia que as escolas privadas conseguem se adaptar mais rapidamente às exigências por não terem as obrigações burocráticas do setor público para compras. Além disso, afirma que as instituições enviaram à Secretaria da Educação uma sugestão de protocolo de saúde com cuidados extras, além dos básicos como máscaras faciais, protetores acrílicos, tapetes sanitizantes e álcool em gel.
— Educação infantil é interação. A ideia é que possam seguir interagindo, mas de forma mais restritiva. Se antes sentavam em cadeirinhas uma ao lado da outra, agora a roda de conversa terá mais espaço. Estávamos muito angustiados sem previsão de volta, com cancelamentos de matrículas e pais sem ter onde deixar os filhos para trabalhar — destaca Rejane.
No processo de readaptação, ela diz que no próximo sábado (30) haverá um drive thru solidário em sete instituições de Educação Infantil de Canoas. A ideia é que pais levem os filhos de carro até a frente da escola e, sem desembarcar, voltem a ter contato presencial com as professoras, as quais serão vistas de máscaras pelos pequenos. Para exercitar a afetividade, a sugestão é que as famílias façam alguma doação de roupas e alimentos para a caridade, enquanto os alunos receberão sementes de girassol de surpresa.
Professora da rede municipal da Educação Infantil de Montenegro, Riviane Bühler da Rosa destaca preocupação com a aquisição dos EPIs e sanitização das salas no setor público, o que dependerá da realidade econômica de cada município. Seu maior receio, contudo, é com a característica dos alunos.
— Sabemos da importância da educação infantil, mas é uma idade complicada no sentido dos protocolos de distanciamento. É a fase dos encontros e das vivências — diz Riviane.
Todos os ouvidos pela reportagem foram unânimes ao destacar que, além do anúncio da data pelo governador, é necessário aguardar a portaria estadual que trará as regras específicas para o retorno. É o documento que dará maior clareza sobre a dimensão das providências.
O secretário da Educação de Porto Alegre, Adriano Naves de Brito, é cauteloso ao comentar a previsão de retomada da Educação Infantil em 1º de julho. Como em outras ramificações da sociedade, o governo estadual, no curso da pandemia, costuma emitir diretrizes, mas os prefeitos podem ser mais restritivos, levando em conta as realidades locais. Para Brito, nenhuma medida será mais eficaz do que o controle do coronavírus, o que deverá ser observado nas próximas semanas.
— Muito mais do que protocolos, precisamos de segurança sanitária para que as crianças possam ir à escola, podendo se comportar como crianças. Não é razoável pensar que elas não irão interagir. Isso não vai acontecer. Tudo depende do andamento da pandemia — pondera Brito.
Protocolos de saúde
O protocolo que será emitido pelo governo estadual para definir os requisitos de retorno da Educação Infantil é importante para refinar o detalhe das medidas. Um exemplo: os alunos precisão usar máscaras faciais? Não é recomendável que menores de três anos utilizem. E quanto aos demais, deverão manter o uso em sala de aula de forma permanente, mesmo com a probabilidade de toque e retirada? São questões a serem respondidas pelos protocolos.
Em documento enviado à Secretaria Estadual da Educação, o Sindicato Intermunicipal dos Estabelecimentos de Educação Infantil do Rio Grande do Sul (Sindicreches), entidade que reúne cerca de 1,5 mil escolas, sugeriu uma série de medidas protetivas, como:
1 - EPIs em quantidade suficiente
2 - Higienização de brinquedos a cada troca de grupos e intercalar horários de uso do pátio para evitar aglomerações
3 - Limitar o número de crianças por metro quadrado
4 - Capacitação das equipes escolares
5 - Recepção com aferição de temperatura com termômetro infravermelho
6 - Substituir tapetes comuns pelos sanitizantes




