
As quatro universidades do Rio Grande do Sul que formam a Aliança para Inovação fizeram um pedido aos quatro pré-candidatos ao governo do Palácio Piratini mais bem colocados nas pesquisas eleitorais: que o próximo governador ou governadora consulte permanentemente essas instituições de ensino antes de definir políticas públicas e de desenvolvimento.
Para isso, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) pedem que a pessoa que estiver à frente do Palácio Piratini a partir de janeiro de 2027 crie, no início do governo, um Comitê de Assessoria em Projetos Estratégicos do Estado (Cape-RS).
O grupo tem objetivo de garantir que as decisões de governo sejam tomadas a partir de evidências científicas. Na prática, a ideia é transformar em rotina algo que, segundo as universidades, hoje acontece apenas em momentos de crise, como durante a pandemia de covid-19 e após as enchentes de 2024.
— Estamos com uma emergência climática ambiental. Como a gente prepara a agricultura, o setor de negócios, o setor de serviços, para essa situação? Esse não é um diálogo esporádico: tem que ser contínuo. Por essa razão, pensamos que um comitê para estabelecer esse diálogo, estabelecer propostas — afirma a reitora da UFRGS, Márcia Barbosa.
A proposta
O Cape-RS não teria poder para tomar decisões nem substituir secretarias de governo. Seu papel seria consultivo.
A proposta prevê um grupo formado por representantes das universidades públicas federais, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) e das instituições comunitárias, podendo ainda contar com integrantes do governo, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do RS (Fapergs), do setor produtivo e da sociedade civil.
Caberia ao comitê identificar desafios estratégicos do Estado, elaborar pareceres técnicos, acompanhar projetos públicos e produzir estudos para subsidiar decisões do Executivo.
Também está prevista a publicação anual de um relatório com os projetos acompanhados, os resultados alcançados e os impactos gerados para o Estado. Marcia enfatiza que a métrica desse relatório será a "resolutividade": diferentemente da tradição acadêmica de medir sucesso por meio de artigos e teses, os indicadores deste comitê serão obras realizadas, aumento do PIB e melhoria econômica para o Estado.
Na prática
Embora o documento fale em "políticas públicas baseadas em evidências", a expressão pode soar abstrata. Para a reitora da UFRGS, a ideia é simples: antes de tomar decisões complexas, o governo consultaria especialistas que já pesquisam os temas nas universidades.
Márcia cita como exemplo questões que hoje desafiam o Estado, como a adaptação da agricultura às mudanças climáticas, a recuperação dos solos após as enchentes, os impactos ambientais de grandes empreendimentos industriais, a instalação de data centers ou mesmo programas para a Educação Básica.
Em vez de buscar respostas caso a caso, o governo teria um canal permanente de consulta.
— O Estado vai continuar dizendo: eu quero ir nessa direção, eu quero privilegiar a indústria, eu quero privilegiar a agricultura, eu quero resolver esse problema. Quem vai definir o problema é o Estado. Quem vai trazer o que tem de melhor de inteligência para aquele problema somos nós — resume a gestora da UFRGS.
Por que agora?
Na avaliação das universidades, o RS enfrenta desafios estruturais que exigem planejamento de longo prazo. A carta traz a perda de competitividade econômica, o crescimento abaixo da média nacional, as dificuldades da Educação Básica, a queda do interesse pelo Ensino Superior e os efeitos das mudanças climáticas.
— Sentimos a necessidade de formalização por meio de uma carta porque, embora o RS tenha histórico comprovado de inovação colaborativa, a ausência de políticas de Estado consistentes prejudicou o desenvolvimento recente — destaca o Ir. Manuir Mentges, reitor da PUCRS.
Para o reitor, o Cape-RS pode ser uma resposta institucional a um contexto de transformações geopolíticas, evolução tecnológica e mudanças climáticas que exigem "maior capacidade de planejamento e antecipação estratégica".
O documento sustenta que o Estado possui um patrimônio científico pouco aproveitado na formulação de políticas públicas. Por isso, defende que as universidades deixem de ser vistas apenas como instituições de ensino e passem a ocupar um papel permanente na estratégia de desenvolvimento do Estado.
— As próprias universidades estão também vivenciando momentos de revisão curricular, pesquisa mais próxima dos problemas reais, nos tornando próximas dos desafios da sociedade — afirma Mentges.
As quatro instituições sugerem que o próximo governo concentre esforços em áreas consideradas estratégicas:
- saúde
- agrotecnologia e bioeconomia
- inteligência artificial
- transição energética
- indústria avançada
Consultorias externas
Segundo Márcia, a proposta não é impedir que o Estado contrate empresas especializadas quando necessário, mas ampliar o uso do conhecimento já produzido. Ela argumenta que muitas questões exigem uma visão multidisciplinar que as instituições conseguem oferecer por reunirem diferentes especialistas:
— Hoje a gente pode fazer uma série de assessorias e consultorias bem profundas, de uma maneira importante, porque nós somos transdisciplinares, a gente tem todas as competências num só lugar.
Evitar que o comitê tenha conotação política é uma das preocupações levantadas durante as conversas com os pré-candidatos. Para a reitora, a legitimidade do grupo dependeria de seu caráter permanente e técnico:
— Os projetos dos governos mudam. As perguntas mudam. Mas a capacidade de produzir respostas permanece sendo das universidades.
E os pré-candidatos?
A carta e o anexo foram entregues pelos reitores das universidades aos quatro pré-candidatos mais bem colocados nas pesquisas: Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB).
A reportagem procurou os quatro pré-candidatos. Todos se comprometeram, de forma objetiva, a criar, caso eleitos, o comitê e a implementá-lo no início do governo, tornando permanente a escuta das universidades para formulação de políticas públicas.
Foram duas rodadas de encontros entre os reitores e os pré-candidatos. Em 27 de junho, Edegar Pretto (PT) – vice de Juliana Brizola (PDT) – e Marcelo Maranata (PSDB) receberam o documento. Em 11 de julho, foi a vez de os reitores se encontrarem com Gabriel e Zucco.



