Cuidar dos filhos, deixar a casa em ordem, comprar mantimentos e ainda trabalhar para dar conta da estrutura. Com tanta coisa para fazer, que tempo sobra para estudar e buscar uma vida melhor para si e para a família?
É a briga contra o relógio que torna a realização de um curso Superior ou uma pós-graduação um sonho distante para muitas mulheres. Segundo pesquisa do Ministério da Educação (MEC), mais da metade (54,4%) de mães e pais estudantes já precisou desistir ou trancar a graduação por questões ligadas à parentalidade.
Foi o caso da jornalista Paula Peixoto, 37, que levou 17 anos para concluir a faculdade, parte disso em função dos cuidados com o filho, Júlio, hoje com 11 anos. Quando ele era mais novo, a solução para não desistir foi intercalar um semestre cursando com dois anos afastada do curso, período máximo de trancamento previsto:
— Os principais momentos (de trancamento) foram os de maternidade, de enxergar o quanto era necessário eu ficar com o meu filho durante o crescimento dele. Com a maternidade, já tem muita culpa de várias coisas que a gente carrega. Então, ali, enxerguei que precisava estar ao lado dele.

Até Júlio nascer, a jornalista estava convicta de que ficaria distante da graduação por apenas um semestre. Em teoria, parecia simples: cursaria a faculdade de manhã, enquanto ele estivesse na creche, o buscaria no início da tarde e daria conta dos estudos e atividades domésticas à tarde e à noite. Quando chegou a hora de voltar, contudo, a realidade se impôs.
— Eu queria voltar para a faculdade porque realmente enxergava que aquilo iria me ajudar, mas, depois de ser mãe, tu começa a ver o mundo de outra forma: eu não estava mais sozinha no mundo, outra pessoa dependia de mim. A gente demora, depois da maternidade, a voltar pra vida, a se enxergar também como mulher, dona de casa, estudante. Aí, voltei para a faculdade em agosto e, em setembro, tranquei de novo — relata a mãe.
Relatório inédito
A história da jornalista está longe de ser exceção. O primeiro levantamento nacional sobre permanência materna no Ensino Superior, divulgado neste ano pelo MEC, mostra que dificuldades semelhantes são compartilhadas por milhares de estudantes brasileiras.
O estudo, que ouviu 7,6 mil mães e pais estudantes de graduação e pós-graduação – 86,5% delas mulheres –, apontou que, além dos 54,4% que já interromperam ou abandonaram a graduação por motivos relacionados à parentalidade, mais de um terço dos respondentes da pós-graduação (36,4%) também precisaram trancar ou desistir do curso pelo mesmo motivo.
Para Fernanda Staniscuaski, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), idealizadora do movimento Parent in Science e integrante do grupo responsável pelo relatório, a novidade não foi descobrir que a maternidade dificulta a permanência na universidade, mas conseguir, pela primeira vez, medir o tamanho desse problema.
— Nada do que a gente viu é novidade. É tudo que já se sabia, mas se colocou números. A novidade é saber o percentual de estudantes com filhos tiveram que trancar seus cursos, abandonar seus cursos. A gente discute muito a questão da evasão, mas a maternidade e a parentalidade nunca apareciam — destaca Fernanda.

Segundo a pesquisadora, não existiam dados oficiais sobre quantos estudantes do Ensino Superior eram mães ou pais. Para preencher essa lacuna, o grupo de trabalho realizou fóruns em diferentes regiões do país, ouviu coletivos e aplicou um questionário nacional. A região Sul foi a mais presente, com 2.236 participantes.
Os números revelam diferentes formas de interrupção da trajetória acadêmica. Enquanto algumas precisam trancar o curso universitário para cuidar dos filhos, outras adiam o sonho de ingressar no Ensino Superior.
Plano adiado
Foi o caso de Luciana Klain, 38 anos, estudante de Geografia da UFRGS e mãe de três filhos. A vontade de cursar uma graduação existia havia muito tempo, mas só encontrou espaço quando a caçula cresceu um pouco e a rotina da família permitiu dividir melhor os cuidados.
— Enfim, a vida foi, aconteceu. Eu tive filhos antes de vir para a universidade, fiz minha vida antes. Chegou uma hora que eu pensei: "Poxa, vamos lá, pelo amor de Deus".
A decisão só foi possível porque encontrou apoio dentro de casa.
— Meu marido está sempre apoiando. Ele acaba tendo que trabalhar dobrado fora para ter mais grana para casa, para me apoiar. Ele não reclama de nada, mas eu sei que está fazendo isso porque sabe que, nesses 17 anos juntos, eu tinha vontade de estar aqui (na universidade).

A convivência diária com outras estudantes fez Luciana perceber que sua história está longe de ser única. Hoje, atua como bolsista na Sala Conceição Evaristo, um espaço de acolhimento para estudantes com filhos criado no ano passado dentro do Instituto de Letras da UFRGS.
O local é administrado por Luciana, Brunno Bernardes, 19 anos, e Tatiana de Barros, 41 – outra mãe que, ao se defrontar com a surdez do filho, resolveu ingressar na graduação em Libras, seguida por um mestrado na mesma área.
Equilibrando pratinhos
Na Faculdade de Educação da UFRGS, outro desses espaços recebe diariamente mães que tentam conciliar os estudos com o cuidado dos filhos: a Facedinha. Lá, outra mãe, Gabriela Duarte de Assis, encontra um lugar para respirar entre uma aula e outra.
A pedagoga de 33 anos descobriu que estava grávida da filha Aurora, hoje com seis anos, logo no primeiro semestre da graduação. Ela conciliava as aulas pela manhã com o trabalho em uma escola durante a tarde. Depois do nascimento da menina, vieram a licença-maternidade e, quase imediatamente, a pandemia.

— A gente estava recém aprendendo como é que se lida, como é que faz as coisas. E eu tinha um monte de atividades para fazer, então foi bem complicado. Logo em seguida começou a pandemia. Eu tinha um bebê de três meses em casa. Era terrível.
Sem vaga em creche, a rotina passou a depender de um revezamento diário entre ela e o companheiro.
— Eu estava em casa de manhã, meu companheiro trabalhava de manhã. Eu saía para trabalhar de tarde, ele ficava de tarde com ela. A gente tinha que se organizar de alguma forma para continuar fazendo as coisas.
Por diversas vezes, precisou cancelar disciplinas e reorganizar o cronograma da graduação.
— Eu me matriculava, não conseguia fazer as coisas e desistia, trancava. Cancelava disciplina, fazia de novo. Parecia que não tinha mais perspectiva de acabar. Virava sempre uma bola de neve — lembra.
Mesmo diante das dificuldades, Gabriela concluiu a graduação em cinco anos e meio e, hoje, cursa o mestrado em Educação na própria UFRGS – trajetória que não imaginava ser possível. Em alguns dias, Aurora acompanha a mãe até a universidade.
— Eu tinha uma certa vergonha. Nunca ocorreu um constrangimento, ninguém falou nada, mas eu sempre avisava a professora antes. Não existe nada que proíba, mas eu tinha medo de acontecer alguma coisa.
Pressão por produtividade
Se na graduação o principal desafio costuma ser encontrar tempo para estudar e ir à aula, na pós-graduação soma-se outra pressão: a necessidade de manter produtividade científica.
Pensando em oferecer um futuro melhor para a filha de quatro anos, uma doutoranda da área da saúde da UFRGS decidiu seguir até a última etapa da pós-graduação.
— A partir do momento em que tu tem um filho, tu quer prover um futuro um pouco mais confortável. Quero ter um título maior, quero ganhar melhor, quero uma vida ok para minha filha — resume a mulher, que prefere não ser identificada.
Com o tempo, porém, percebeu que a maternidade era pouco considerada no ambiente acadêmico na hora da cobrança.
— É a própria universidade que produz os estudos que falam da privação de sono, da sobrecarga materna. Mas quando entra uma pessoa nessa situação, a universidade fecha os olhos para isso. Nós sabemos que as mães têm privação de sono, mas o horário é esse, apareça no horário e entregue tudo no mesmo prazo. É ignorar o conhecimento que o próprio meio acadêmico produz — critica.
Efeito tesoura
Para tentar reduzir as desigualdades, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) regulamentou novas medidas neste ano. Entre elas estão a prorrogação do prazo de bolsas e da conclusão dos cursos para estudantes que se tornam mães e a criação do Programa Aurora, que oferece bolsas de pós-doutorado para apoiar pesquisadoras durante a gestação e os primeiros anos dos filhos.
Segundo a presidente da Capes, Denise Pires de Carvalho, as iniciativas respondem a um fenômeno conhecido como "efeito tesoura": embora as mulheres sejam maioria na graduação e pós-graduação, elas perdem espaço conforme avançam na carreira científica.

— O diagnóstico baseia-se na assimetria observada na trajetória acadêmica de homens e mulheres. As mulheres constituem 55% dos bolsistas de iniciação científica e, em média, 54% dos estudantes de pós-graduação. Contudo, essa proporção diminui nos níveis mais elevados da carreira, como no corpo de professores e orientadores da pós-graduação, onde há maior concentração de homens — descreve.
Denise cita pesquisas recentes que mostram que o nascimento dos filhos reduz significativamente a participação das mulheres em atividades de pesquisa, enquanto o impacto sobre os homens é muito menor.
— O afastamento temporário decorrente dos cuidados iniciais com os filhos gera reflexos na permanência das pesquisadoras na pós-graduação. Como o desenho da carreira científica considera a regularidade da produção literária e a constância na orientação de projetos, esse período acaba tendo consequências para a trajetória dessas mulheres.
Denise observa que ampliar prazos e bolsas é apenas parte da resposta:
— A Capes reconhece que a bolsa e a prorrogação de prazos são fundamentais, mas não resolvem sozinhas a complexidade do trabalho de cuidado, que na nossa sociedade patriarcal ainda recai desproporcionalmente sobre a mulher. O papel da instituição deve ser o de criar mecanismos de indução e proteção que mitiguem esse viés.

Para Fernanda, as iniciativas ainda são insuficientes, mas representam uma mudança importante.
— Quando a gente começou, não existia nenhuma universidade com uma política institucional de parentalidade. Hoje já existem várias. É uma evolução importante.
Para a pesquisadora, a permanência de mães na universidade depende também de uma mudança cultural, capaz de reconhecer que o cuidado com os filhos não é responsabilidade exclusivamente materna.



