Os olhos do mundo se voltaram para o cinema brasileiro nos últimos dois anos, com o Oscar inédito e os reconhecimentos no Globo de Ouro. Em paralelo, a inteligência artificial (IA) generativa vem correndo solta. Se a ficção científica imaginou que as máquinas seriam responsáveis pelo trabalho braçal enquanto os seres humanos se ocupariam com as artes, o futuro se mostrou diferente.
A IA vem produzindo músicas, quadros e até filmes — tudo isso a partir de um simples prompt. Uma transformação rápida demais. Como os alunos de cursos voltados para o audiovisual estão entendendo esta mudança, aparentemente, inevitável?
— Com a chegada da IA, fiquei meio apavorado, mas depois passou. A criatividade do ser humano nunca vai ser substituída. E fazer o curso, tem a questão técnica, mas, além disso, tem os contatos. Estou tendo oportunidades que nunca teria e ainda tendo contato com os equipamentos — conta Pedro Emanuel da Silva, 22 anos, estudante do quinto semestre de Produção Audiovisual da Universidade Feevale.
Dentro da questão das oportunidades, o jovem detalha que escolheu a graduação da Feevale por ser um tecnólogo — mais voltado para o mercado, com foco na prática e um ano a menos que o bacharelado. Assim, desde o segundo semestre, estagiou na área. Hoje, está se encaminhando para atuar em pós-produção, em especial na captação e no tratamento de som.
Para o coordenador do curso, Francisco Machado Pereira, não tem como brigar com a tecnologia e inserir a IA nas aulas é parte do processo. Ele salienta, no entanto, que a base principal é a ética na utilização da ferramenta, que começa a ser explorada como um complemento para melhorar o fluxo de trabalho.
— Se não pode com o inimigo, junte-se a ele. Testamos a IA em exercícios de roteiro e encontramos vários furos, com sugestões que não estão de acordo com as técnicas de narrativa. Isso dá otimismo e autoestima para o criativo, mostrando que o talento dele não vai ser substituído. Sou completamente contra utilizar IA para criação pura e, para isso, não incentivamos os alunos — detalha Pereira.
Novos formatos
O curso da Feevale foi inaugurado em 2018, uma década e meia depois da primeira graduação do Estado ter sido implementada — na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). O movimento se deu por uma demanda da região, recebendo muitos alunos de outras áreas do Estado.
Esta procura por mão de obra qualificada mostra que os cursos da área não ficam restritos apenas ao cinema. O Rio Grande do Sul é um polo importante de publicidade, sendo mais barato para gravações do que o eixo Rio-São Paulo, mercado que Pereira acredita já estar saturado. Filmes produzidos fora do Estado, como A Própria Carne, estão vindo filmar por estes pagos.
— A nossa ideia quando da criação do curso era abordar a linguagem, mas também entregar a técnica do audiovisual para fazer, por exemplo, novos formatos. Temos toda a base cinematográfica, mas abrimos mais o leque para que o aluno entenda que pode trabalhar com qualquer formato, seja internet, cinema, televisão — avalia Pereira.
Precursores
Era 2003 quando a Unisinos inaugurou o primeiro bacharelado de Realização Audiovisual do RS — desde 2022, a universidade também conta com um tecnólogo de Produção Audiovisual. A procura, segundo Milton do Prado, 54, que divide a coordenação dos cursos com Vicente Nunes Moreno, vem aumentando. O cinema segue sendo um pilar forte no objetivo dos alunos, mas a formação vem se transformando para abraçar todos os interesses.
— Hoje, o aluno vem com muita informação. E temos uma concorrente muito forte que é a tela do celular, que detém a atenção dos alunos, que estão com menos hábito de leitura e consomem uma infinidade de conteúdos no YouTube. Então, são muitos interesses e tentamos mostrar que quase tudo que eles gostam veio do cinema. Entre os que procuram pelos cursos, alguns são cinéfilos, outros já miram a publicidade — salienta Prado.
Para Prado, a ideia de inserir as novas ferramentas no cotidiano de quem atua na área é um processo natural:
— Tenho a impressão de que o impacto da IA vai ser muito grande no início, inclusive para testar, mas depois as coisas vão se acomodar. E, daqui a pouco, vão ter os especialistas em mexer nessa ferramenta. Lembro dos anos 1990, quando o Photoshop chegou, todo mundo achou que os artistas gráficos iam perder os empregos. Depois, a gente viu que o artista gráfico tinha outras qualidades.
Assim, alinhando a tecnologia e a noção de audiovisual será possível entregar um conteúdo de qualidade. Esta é a ideia de Tarsis Silveira, 24, aluno do quinto semestre do curso de Produção Audiovisual da Unisinos. O jovem planeja contar histórias, a partir do RS, alinhando o olhar do autor com as ferramentas disponíveis.
— O mercado está crescendo e o cinema de arte tem o seu espaço, está sendo mais valorizado. Entrei no curso para poder dar voz às pessoas que não são ouvidas. Levar para o mundo as questões do Brasil, do Rio Grande do Sul, de Porto Alegre, do bairro em que eu moro. Acho que estou criando uma base muito boa para isso — pontua o estudante.
Mais opções
Além de Feevale e Unisinos, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre, tem um dos cursos pioneiros do Estado. O tecnólogo de Produção Audiovisual foi criado em 2004. Nos próximos anos, a Capital terá outra formação na área, dessa vez, pública
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) planeja lançar, entre 2027 e 2028, uma graduação voltada ao audiovisual, ainda sem nome específico. Conforme Thiago Henrique Bragato Barros, vice-diretor da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Ufrgs (Fabico), é um bacharelado que a universidade já almejava havia cerca de 30 anos.
Apesar de o curso ter sido aprovado pelo Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão da universidade, a implementação depende de sinal verde do Conselho Universitário (Consun) e da criação de vagas docentes pelo Ministério da Educação (MEC). Para a nova graduação, também será necessária a reforma de espaços e a implementação de laboratórios.
— No atual estágio das universidades federais, qualquer expansão ou implantação é um grande desafio, por causa da restrição orçamentária que a gente vive. Então, temos equacionado a questão de uma forma que a gente consiga atender o curso sem prejudicar os já existentes. Para uma implantação de um curso novo, dependemos muito de emendas parlamentares — explica Barros.
Confira os cursos de Audiovisual do Estado:
- Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos): Realização Audiovisual (Porto Alegre, bacharelado) e Produção Audiovisual (São Leopoldo, tecnólogo)
- Universidade Federal de Pelotas (Ufpel): Cinema e Audiovisual (bacharelado) e cinema de animação (bacharelado)
- Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS): Produção Audiovisual (tecnólogo)
- Universidade Feevale: Produção Audiovisual (Novo Hamburgo, tecnólogo)
- Universidade de Caxias do Sul (UCS): Produção Audiovisual (tecnólogo)
- Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc): Produção em Mídia Audiovisual (bacharelado)

