
A falta de recursos é a principal barreira de acesso ao Ensino Superior no país, revelou levantamento do Instituto Semesp. Com isso, muitos estudantes vêm recorrendo ao crédito estudantil para ter acesso a cursos de graduação de instituições privadas.
Trata-se de um financiamento para pagar os estudos. Em vez de arcar com as mensalidades durante o curso, o estudante pega um empréstimo com um banco ou instituição financeira e quita depois – geralmente com juros menores e prazos mais longos do que em um empréstimo comum.
Essa estratégia tem vantagens. Mas, quando mal contratado, o crédito pode virar dor de cabeça.
— O problema surge quando o crédito é utilizado sem planejamento, apenas para adiar uma dificuldade financeira ou para sustentar um padrão que não será viável no início da carreira profissional — destaca o economista Rafael Disconzi, professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Planejamento em primeiro lugar
Os especialistas lembram que, antes de contratar, é fundamental ter um planejamento cuidadoso. É preciso fazer as seguintes perguntas:
- A dívida cabe no meu futuro financeiro?
- Qual o custo efetivo total?
- Quais são os riscos envolvidos?
— É claro que, com a perspectiva de formação, novas oportunidades de trabalho surgem e a renda aumenta. Mas, provavelmente, será necessário abrir mão de outras despesas, dar uma enxugada em outras categorias de gastos para poder encaixar o financiamento. Por isso é preciso ter um planejamento — explica o educador financeiro Diego Angelos.
O crédito funciona como um empréstimo: a instituição financeira paga pelo curso e, ao final da graduação, o estudante começa a pagar em parcelas o valor emprestado, normalmente com juros.
Nesse caso, o pagamento leva em conta os valores das mensalidades da época em que o aluno ingressou no curso, mas tudo depende do contrato. Há casos em que o valor financiado acompanha o valor da mensalidade, ou seja, no final, o saldo devedor aumenta.
Outra possibilidade é pagar um valor reduzido ao longo da formação e, depois da formatura, quitar a dívida em parcelas maiores. Em ambos os casos, é recomendado contar com ajuda profissional para analisar o contrato e avaliar as possibilidades, como um contador ou advogado especialista em finanças, para não correr riscos.
— Muitos estudantes subestimam o custo total da dívida, aceitam parcelas aparentemente pequenas que acabam acumulando outros tipos de crédito, como cartão de crédito, cheque especial. Isso cria um efeito cumulativo que pode levar a um desligamento precoce do estudante logo no início da vida profissional, o que não é aconselhável — afirma Disconzi.
Uma boa dica é financiar apenas o necessário. E, sempre que possível, buscar formas de complementar a renda durante a graduação, como estágios e trabalhos compatíveis com a formação, para não correr risco de se endividar no momento de devolver o dinheiro emprestado.
Atenção ao contrato
Uma armadilha comum é a falta de atenção ao contrato, que pode gerar prejuízos. Contrato mal lido, prazos extensos demais e taxas pouco transparentes podem gerar problemas para o estudante.
— É preciso verificar as taxas de juros, quais são as consequências em caso de um tempo maior de carência ou em caso de inadimplência. Se não, o estudante pode se atrapalhar no futuro. Tudo isso tem que estar discriminado no contrato — explica Angelos.
Caso o estudante se sinta lesado de alguma forma, ou identificar cobrança abusiva, deve acionar o Procon. Vale lembrar que, quanto maior o prazo de financiamento, maior a multiplicação dos juros compostos. Além disso, é preciso levar em conta possíveis taxas extras, como tarifas e encargos, e a correção pela inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é o mais utilizado.
Normalmente, as instituições financeiras exigem comprovação de renda ou até fiador, com o intuito de reduzir os riscos de inadimplência. Também é importante ficar atento ao prazo de carência, que geralmente é de três a seis meses. Quando muito extensa, a carência dá a impressão de que o problema ficou para depois, mas é bom ter em mente as consequências.
— Embora pareça atraente, a carência costuma aumentar o valor final da dívida. Pode criar uma falsa sensação de alívio no curto prazo e virar uma bola de neve. Os juros podem se acumular, a depender do tipo de contrato. É um dos principais pontos de atenção — ressalta Disconzi.
Cabe ressaltar que sempre é possível fazer uma negociação com a instituição financeira, chegando a um acordo adequado para as duas partes. Caso o contrato exija pagamento imediato após a conclusão do curso, é possível solicitar um período de carência, ou até mesmo antecipar o pagamento e reduzir taxas administrativas.


