
O resultado da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), realizada em 2025, enquadrou 107 cursos de Medicina, ou 30,7% das graduação no Brasil, nos conceitos 1 e 2, desempenho considerado insuficiente. Agora, esses estabelecimentos passarão por uma supervisão do Ministério da Educação (MEC), que prevê sanções como a suspensão de bolsas e de ingresso de alunos.
O Enamed é a modalidade do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) para os cursos de Medicina e permite o aproveitamento de seus resultados nas seleções de programas de residência. Os dados da primeira edição foram anunciados pelo MEC nesta segunda-feira (19).
No Rio Grande do Sul, nenhuma instituição teve conceito 1, mas três figuram na faixa de conceito 2: a Atitus Educação, de Passo Fundo, a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), de Canoas, e a Universidade do Vale do Taquari (Univates), de Lajeado.
Obtiveram o conceito 1 as instituições com até 39,9% de estudantes considerados proficientes após fazer a prova. O conceito 2 foi atribuído aos cursos que apresentaram entre 40% e 59,9% de alunos proficientes.
A partir de agora, o MEC instalará um procedimento de supervisão para todos os cursos considerados insatisfatórios. A pasta publicará, em breve, uma portaria com a instalação desses procedimentos, na qual serão detalhadas as etapas e procedimentos a serem adotados. De modo geral, as medidas previstas são:
- Menos de 30% de alunos proficientes: proibição de aumento de vagas, suspensão do Fies, avaliação de outros programas federais e suspensão de ingresso de alunos
- De 30% a 39,9% de alunos proficientes: proibição de aumento de vagas, suspensão do Fies, avaliação de outros programas federais e redução de 50% das vagas
- De 40% a 49,9% de alunos proficientes: proibição de aumento de vagas, suspensão do Fies, avaliação de outros programas federais e redução de 25% das vagas
- De 50% a 59,9% de alunos proficientes: proibição de aumento de vagas
As instituições poderão apresentar defensa e requerer a concessão de prazo para saneamento. Segundo o MEC, as medidas cautelares serão aplicadas conforme a faixa de classificação do curso, levando em consideração o percentual de concluintes proficientes em cada faixa, e “quanto maior o risco ou ameaça ao interesse público, mais graves serão as medidas adotada”.
“Não surpreende”
O resultado do Enamed não surpreendeu o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers).
— Já acreditávamos que o resultado seria realmente ruim. A tendência é que cursos que não tenham um hospital escola, ou que esse hospital tenha uma infraestrutura ruim, não ofereçam um bom ensino. Entre as universidades privadas, vemos que o melhor desempenho foi o da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), que tem o São Lucas e atingiu o conceito 5 — destaca Eduardo Trindade, vice-presidente da entidade.
No RS, Trindade entende que tem havido sucesso na busca por conter a criação de cursos de Medicina em instituições “puramente parasitas e caça-níquel”, por haver uma presença forte das universidades comunitárias.
No entendimento do porta-voz do Cremers, para além da infraestrutura oferecida pelos hospitais escolas, os estágios nesses espaços permitem uma vivência junto a professores e residentes, em procedimentos e cirurgias, que é importante para a formação de um médico.
— A prova do Enamed é composta por 100 questões nas mais diversas áreas e é muito voltada para a realidade médica. Não é só rodapé de livro: é sobre o que se vê no dia a dia. Dados de infraestrutura da instituição, às vezes, são mascarados, mas o Enamed vale muito para o aluno que atendeu em posto de saúde, que esteve em equipe de estratégia de saúde da família — analisa Trindade.
Apesar de elogiar o exame, o vice-presidente da entidade considera as medidas cautelares previstas como insuficientes. Na opinião dele, estudantes de instituições com conceitos muito baixos deveriam ser transferidos para outros estabelecimentos, sob pena de acabarem a graduação com as mesmas deficiências apontadas no Enamed.
— Eu já sei que aquela “fábrica” produz um mau “produto”, que vai sair com deficiências. Eu vou deixá-la continuar trabalhando? — questiona.
Trindade ressalta que praticamente 100% daqueles que concluem o curso de Medicina trabalham na área, o que significa que um mau profissional que se forma estará, em breve, atendendo a população.



