
Natural de Uruguaiana, na Fronteira Oeste, Renata Rojas Guerra, 35 anos trilhou um caminho ainda pouco conhecido por muitas mulheres: sem referências familiares no Ensino Superior, aos 17 se mudou para Santa Maria para cursar Economia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Seguiu com o mestrado em Engenharia de Produção. O doutorado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) rendeu a ela o título de pesquisadora na área de estatística e sacramentou sua trajetória marcada pela interdisciplinaridade.
Em 2025, foi uma das oito vencedoras do Prêmio Para Mulheres na Ciência, iniciativa do Grupo L’Oréal no Brasil em parceria com a Unesco (braço da Organização das Nações Unidas para educação, ciência e cultura) e a Academia Brasileira de Ciências, na categoria Ciências Matemáticas. A premiação, que concedeu bolsas de R$ 50 mil às vitoriosas, ainda laureou outras duas gaúchas egressas da UFSM: Vanessa Nascimento e Luana Rossato.
Em entrevista para Zero Hora, Renata reflete sobre os desafios e discriminações que as mulheres ainda enfrentam em ciências exatas e os potenciais que existem quando se investe na interdisciplinaridade, somada a uma consciência cidadã.
Confira a entrevista:
Como você descobriu que queria se tornar uma cientista?
Morei em Uruguaiana até os 17 anos, quando terminei o Ensino Médio e ingressei na UFSM, onde eu trabalho hoje. Eu estudei no Instituto Estadual Elisa Ferrari Valls, em Uruguaiana, e lá a gente tinha várias atividades que divulgavam as universidades federais gaúchas e quais eram as formas de ingresso no Ensino Superior.
Eu gosto de destacar esse ponto, sobre a importância do trabalho de divulgação da universidade nas escolas, porque as pessoas que não têm uma referência na família de alguém que estudou numa universidade federal, como eu, especialmente no Interior, nem sempre sabem o quanto esse acesso pode abrir portas e realmente mudar a vida. Cheguei em Santa Maria em 2008 e acabei escolhendo o curso de Economia, porque, apesar de envolver exatas, é uma ciência social aplicada, e isso me interessou. Foi nesse curso que eu conheci estatística e comecei a ir mais para a parte das ciências exatas mesmo, da matemática.
Fiquei muito interessada e muito curiosa por construir novos modelos, e não apenas entender e utilizar os modelos que já existiam. Quando eu estava no final da graduação, comecei a fazer algumas disciplinas do curso de estatística. Lá, percebi que, sim, aquela era a minha linha de pesquisa. Fiz a graduação em Economia, o mestrado em Engenharia de Produção e o doutorado em Estatística, que foi onde eu me achei. Então, eu gosto de dizer que eu sou uma pessoa interdisciplinar.
De que forma tu foste tendo clareza sobre aonde querias chegar nessa caminhada interdisciplinar?
Eu acho que foi a partir das experiências que eu tive. Eu sempre fui uma pessoa curiosa. Isso é uma coisa boa, porque é uma qualidade necessária para ser uma cientista. Depois que eu entrei na universidade, procurei aproveitar as experiências que ela me permitia. A universidade tem não só o papel de formar como uma pessoa que vai seguir uma carreira: ela também está formando um cidadão.
Eu participei de projetos de extensão em economia rural e também trabalhei em projetos de iniciação científica. A estratégia que eu usei foi, em vez de fazer as disciplinas complementares que o curso de economia oferecia, procurar na estatística as disciplinas que eram mais básicas, como probabilidade, inferência. Assim, comecei a direcionar a minha linha de pesquisa dentro da economia para a parte mais específica de estatística.
A universidade tem não só o papel de formar como uma pessoa que vai seguir uma carreira: ela também está formando um cidadão.
As novas gerações têm se interessado por formações interdisciplinares. Ao mesmo tempo, muitos editais exigem formações inteiras na mesma área. Como conciliar essas duas realidades?
É algo que demanda mudança e diálogo. Na economia, é exatamente assim: os concursos exigem graduação e doutorado na área. Na estatística não é tanto, porque é um curso mais recente. Em editais de instituições de fomento à pesquisa, vemos um avanço na questão da interdisciplinaridade e interregionalidade. Mas, nos processos seletivos, é uma conversa que precisa ser aprofundada.
Como surgiu a ideia de unir estatística e questões ambientais, na pesquisa proposta no Prêmio Para Mulheres na Ciência?
A pesquisa que originou essa proposta começou bem antes. Eu terminei o doutorado em 2017 e, no mesmo ano, ingressei na UFSM como professora adjunta. Fiquei até 2022 trabalhando, tentando achar a minha linha de pesquisa. No mestrado, eu trabalhei com modelos para situações em que o objeto de interesse tem um valor mínimo e um valor máximo, como taxas e proporções.
No doutorado, trabalhei com distribuições de probabilidade e com a ideia de torná-las mais flexíveis. Depois, comecei a estudar quais eram as variáveis que tinham essas características e cheguei aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), da Agenda 2030 da ONU.
Existe uma lista com mais de 200 indicadores utilizados para monitorar as metas dentro de cada objetivo, e a maioria usa taxa e proporção restrita ao intervalo unitário. Foi aí que veio a minha ideia: usar os modelos com que eu trabalho em indicadores hidrológicos, ligados ao acesso à água de qualidade e às mudanças climáticas.
Esse projeto foi aprovado em 2023 pelo Instituto Serrapilheira e também foi cofinanciado pela Fapergs (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul). Para o Prêmio L’Oréal, fizemos um recorte dessa ideia geral para o caso mais específico das imagens de satélite, que permitem monitorar desmatamento, queimadas e a vegetação ao longo do tempo.
Quais são os entraves ainda existentes na carreira de mulheres em áreas como pesquisa e docência?
Vejo muitos avanços, como essa questão desse item do edital Para Mulheres na Ciência. Temos também algumas iniciativas do Parent In Science para colocar a maternidade no Lattes. Vejo que temos avançado. Tem um termo técnico que eu aprendi que é o “efeito tesoura”. À medida que a gente vai avançando na carreira, a proporção de mulheres vai diminuindo.
Isso acontece muito na academia, nas ciências exatas. Então, sempre que vamos organizar um evento, uma das nossas preocupações é que tenham mulheres como plenaristas. Porque se a gente deixar cada país ou entidade escolher livremente, a probabilidade de não virem mulheres como representantes é bastante grande.
Conversando e ouvindo os relatos, percebemos que situações que pareciam corriqueiras são, na verdade, discriminação ou assédio que homens não passam.
Tu participas de diversos grupos sobre gênero e diversidade no meio acadêmico. O que é debatido nesses espaços?
As colegas trazem seus relatos e a gente começa a perceber que coisas que pareciam corriqueiras acontecem mais com as mulheres. Não ter um par para ter um certo tipo de apoio ou não ter uma referência em quem se inspirar já é um problema. Conversando e ouvindo os relatos, percebemos que situações que pareciam corriqueiras são, na verdade, discriminação ou assédio que homens não passam.
Às vezes, a pessoa diz que nunca sofreu discriminação, mas relata que era a única mulher do departamento. Está aí o primeiro sintoma. É em iniciativas como o GuriasTec, que vai às escolas falar sobre as possibilidades na área de ciências exatas nas universidades federais, focando especialmente nas meninas, e participando desses grupos e contando essas histórias, que a gente começa a abrir os olhos para isso.



