
Com déficit de professores após 10 anos praticamente sem reposição de profissionais, a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) enfrenta uma realidade de oferta irregular de disciplinas, demora na conclusão dos cursos e evasão estudantil.
Com quase 25 anos de história, a Uergs tem cerca de 4,3 mil estudantes distribuídos em 23 municípios gaúchos. Apesar de a universidade ter aumentado a oferta de cursos ao longo dos anos, o número de docentes e de técnico-administrativos não acompanhou o crescimento.
O plano de carreira prevê que a instituição tivesse 600 professores e 390 funcionários. Conforme o reitor, Leonardo Beroldt, o quadro atual é de 252 professores e 166 empregados do quadro técnico e apoio administrativo, o que representa em torno de 42% do plano previsto nos dois casos. Somando quatro professores substitutos e cinco cargos em comissão, a universidade tem 427 servidores.
O déficit de docentes vem causando oferta irregular de disciplinas obrigatórias. No curso de Administração Pública, por exemplo, falta professor da área do Direito, conforme a aluna Julia Morais Ferreira, 22 anos.
— Não sei dizer ao certo em que semestre estou. Era para estar no quinto, mas tenho várias cadeiras atrasadas do segundo semestre, por falta de professor. Os professores precisam dar conta de um número muito grande de disciplinas, vemos muitos se afastando por adoecimento. E muitas vezes acabamos tendo aula remota, isso prejudica o ensino — conta a estudante de Porto Alegre.
Também é o caso do aluno Gabriel Vicente Ala Gottschalk, 22 anos, do curso de Engenharia de Energia. Ele diz que a falta de perspectiva vem atrapalhando os planos para o futuro.
— Eu tenho umas cinco cadeiras, praticamente o semestre inteiro de cadeiras atrasadas, que não ofertam por falta de professor. Desde a escola a gente tem o sonho de entrar na faculdade, de se formar e finalmente entrar no mercado de trabalho, e isso complica muito a vida — relata.
O reitor Leonardo Beroldt reconhece que o quadro afeta graduação e pós-graduação.
— Se eu não tenho os professores, eu tenho componentes curriculares que terão de ser absorvidos por outros docentes, ou deixam de ser ofertados. Isso gera retenção de estudantes na universidade, e gera evasão. E afeta a pós-graduação, porque hoje nós temos potencial de ter muito mais programas de pós, até por uma demanda regional. Mas nossos professores estão sobrecarregados.
Concurso autorizado há três anos
Em 2022, a Uergs recebeu autorização do governo estadual para realização de concurso para repor 52 vagas, sendo 27 para técnico-administrativos e 25 para professores. Três anos após a autorização, o certame para docentes ainda está em andamento, sem nenhuma seleção de vaga concluída até a publicação desta reportagem.
Já a seleção para as novas vagas de técnico-administrativos foi realizada em 2024, mas a contratação dos aprovados foi negada pela administração estadual. Conforme a Uergs, não há previsão para conclusão do concurso de professores e para contratação dos aprovados no ano passado.
Bertold justifica a demora na realização da seleção para professores pelo envolvimento de integrantes das bancas que são de fora da universidade:
— Ajustar as agendas não é simples. O edital foi bastante concorrido, tivemos áreas com mais de 150 inscritos. Mas isso também gera um trabalho mais complexo, porque são seleções que envolvem prova teórica, prova didática, análise de currículo.
A Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do RS (Sict), responsável pela Uergs, informou que acompanha as demandas apresentadas pela universidade em relação aos concursos e faz os encaminhamentos juntamente aos órgãos internos, visando uma definição.
— Os órgãos internos nos deram um retorno no sentido de que precisavam de maiores informações, sempre olhando a questão da relação de número de alunos com número de professores e servidores. E deram uma sugestão de que se fizesse um cronograma de contratações. Isso chegou para a Sict e agora, então, é minha responsabilidade fazer o encaminhamento novamente com esses esclarecimentos para o núcleo decisório do governo — explica a secretária Simone Stülp, titular da Sict.
Conforme essas solicitações forem encaminhadas, será possível convocar os servidores aprovados nos certames, ou até mesmo autorizar a realização de novo concurso, mas isso só deve ocorrer a partir do primeiro semestre de 2026. A secretária afirma que a Uergs tem uma média de 17 ou 18 alunos por professor, considerada boa em sua avaliação.
O último grande concurso da instituição havia sido realizado em 2014, com exceção de uma seleção em 2018 para repor uma vaga de professor de Libras no campus de Alegrete.
Formatura atrasada no Interior
Aluna do bacharelado em Gestão Ambiental na Uergs em Erechim, Rafaela Lima Kurtz Vilanova está quase concluindo o curso, mas terá que atrasar a formatura por mais um ano, pelo menos, para conseguir vencer as disciplinas que faltam.
— Os coordenadores tentam adaptar as grades curriculares de forma com que todos consigam ter o máximo de aproveitamento por semestre. Porém, não tem professor para dar todas as matérias, e não tem como fazer milagre — lamenta a jovem de 22 anos.
Neste semestre, ela queria cursar cinco disciplinas, mas só conseguiu se matricular em quatro. Ainda tem outras seis pendentes até a formatura. Provavelmente, ela só conseguirá fazer quatro disciplinas no próximo semestre, e as duas últimas ficarão para o segundo semestre de 2026.
Rafaela lamenta a situação, assim como Victória Oliveira Rosa Martins, 29 anos, que está no sétimo semestre do curso de Ciências Biológicas no campus de Osório. As duas alunas, entretanto, destacam a qualidade do ensino.
— Nossos professores são ótimos e se desdobram para conseguir suprir a demanda de ofertas de disciplinas — diz Victória.
Assunto discutido na Assembleia
A Associação dos Docentes da Uergs (Aduergs) e a Associação dos Servidores Técnicos e de Apoio Administrativo da Uergs (Assuergs) pedem ao governo estadual a ampliação do corpo docente e do quadro de funcionários, para que seja cumprida a Lei 13.968/2012, que regulamenta o plano de carreira.
O presidente da Aduergs, Fabrício Soares afirma que praticamente todos os cursos necessitam de ampliação do corpo docente, tanto para garantir a oferta de disciplinas obrigatórias quanto para evitar a sobrecarga de trabalho para os professores em exercício, que acabam se desdobrando para “tapar buracos”, segundo ele.
Dificuldades orçamentárias
Na avaliação do reitor, a Uergs também enfrenta dificuldades orçamentárias, com reajustes anuais abaixo da inflação.
— Este ano, novamente, fizemos um levantamento de necessidades e o nosso planejamento orçamentário para 2026 chegou em torno de R$ 191 milhões, e o teto do governo, que está no Projeto de Lei Orçamentária Anual, é de R$ 142 milhões, incluindo folha de pessoal — afirma Beroldt.
Por isso, a universidade busca outros meios de obter recursos. Na audiência pública de agosto, foi solicitada a aplicação de 0,5% da Receita Corrente Líquida do Estado na Uergs, conforme previsto no parágrafo 3º do Artigo 201 da Constituição Estadual.
A instituição também pediu suplementação orçamentária no valor de R$ 2,5 milhões para contratação de terceirizados para vigilância e segurança das unidades. Outra reivindicação é o aproveitamento do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), do governo federal, para viabilizar a qualificação da estrutura física por meio do Juros por Educação.
A iniciativa da União permite que os Estados utilizem o valor equivalente aos juros das dívidas refinanciadas para investimentos diretos no próprio território, sendo parte dos recursos obrigatoriamente destinados à educação profissional técnica de nível médio e às universidades estaduais.
A Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do RS (Sict) afirma que a possibilidade de inclusão da demanda no Propag será inserida nas discussões do governo. A pasta divulgou nota a respeito da destinação de recursos para a universidade.
“Cabe ressaltar que, a partir de uma articulação da Sict, a Uergs recebeu recursos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), no valor de R$ 9 milhões, para a reforma e substituição de equipamentos no Campus Central que foram danificados pelas enchentes de 2024.
Outros investimentos têm sido feitos para valorizar e qualificar a Uergs. Em 2021, o governador Eduardo Leite anunciou o programa Avançar na Inovação, que destinou R$ 15 milhões para a consolidação do Campus Central da Uergs, em Porto Alegre, e do projeto Uergs Digital. Além disso, houve a doação à Uergs de duas áreas da extinta Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec) - uma em Porto Alegre para a instalação do Campus Central, atendendo a uma demanda antiga da universidade, e outra em Cachoeirinha.
Dentro do Plano Rio Grande, o programa de reconstrução do Estado, a Universidade está sendo contemplada no programa RS Talentos, da Sict, com o pagamento de 17 bolsas para estudantes de engenharias no valor de R$ 2 mil por mês por 18 meses. Além disso, no âmbito do Centro de Referência Internacional em Estudos Relacionados às Mudanças Climáticas (Criec), coordenado pela Sict, a Uergs será responsável pela estruturação de um núcleo gestor que fará a gestão, articulação, monitoramento e avaliação das iniciativas do programa. A execução das atividades desse núcleo envolverá o pagamento de bolsas aos gestores que atuarão na Uergs.
Como forma de fortalecimento do ensino e da pós-graduação stricto sensu, pesquisadores da Uergs têm recebido recursos via editais da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs) para a realização de projetos relevantes para a Universidade, como no caso do edital Programa de Pesquisa e Desenvolvimento Voltado para Desastres Climáticos e do edital Programa de Unidades do Criec (ainda em resultado preliminar).”



