
Parte flexível do currículo de cursos de Ensino Superior, as disciplinas eletivas podem variar em número de créditos e em finalidade, conforme a graduação e a instituições que as oferecem. Sua importância, no entanto, é consenso entre docentes e estudantes, que valorizam a chance de aprofundar e diversificar a formação universitária.
Gabriela Gomes, 21 anos, está no quarto semestre de Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A carga horária prevista para as eletivas compreende quatro disciplinas, que ela se prepara para fazer a partir do próximo semestre. Sua ideia é focar em economia e desenvolvimento, áreas com mercados potenciais.
— Esse é um ramo que tem muito espaço nas Relações Internacionais e se aplica muito dentro do que eu aprendo. Então, acredito que o que eu for aprender dentro dessas cadeiras mais específicas vai se aplicar muito tanto ao que eu já aprendo, a visão que eu já tenho, quanto a usar elas para a minha profissão — avalia a estudante.
No quinto semestre de Direito na UFRGS, Rosiane Silveira Pontes concilia os estudos com o trabalho e a função de presidente do centro acadêmico da faculdade. Foi pensando nos desafios dos estudantes que trabalham durante o dia e não têm horários disponíveis em outros turnos, que ela e outros representantes discentes propuseram à direção da unidade acadêmica que a reformulação curricular previsse espaços na grade para acomodar essas disciplinas.
— Aqui no Direito, as eletivas são ofertadas, mas não no turno em que a maioria está matriculada, que é o noturno. No novo currículo que começou a viger neste ano, que já estava em discussão há mais de 10 anos, a gente conseguiu deixar uma noite livre a partir de um determinado semestre, e as disciplinas obrigatórias foram melhor distribuídas — destaca.
Funcionando em um prédio histórico e dividindo o espaço com turmas de especializações, mestrados e doutorados, a graduação em Direito é oferecida não apenas no chamado “Castelinho”, mas também em outras salas no Campus Centro. Por isso, a nova demanda do centro acadêmico é que um novo prédio seja erguido para comportar as necessidades ampliadas, como a maior oferta de eletivas.

Customização
A decisão de Gabriela de cursar as disciplinas eletivas mais para o final da graduação é comum, segundo Letícia Prezzi Fernandes, diretora do Departamento de Cursos e Políticas da Graduação da UFRGS. O motivo é que, normalmente, atividades complementares como as eletivas precisam ser cumpridas, mas não têm uma etapa específica para realização.
— As eletivas são um elenco de atividades que os estudantes podem escolher, de forma a customizar um pouco a sua formação de acordo com a área de interesse. Normalmente, os estudantes começam a olhar para isso quando as disciplinas obrigatórias vão começando a diminuir em quantidade e eles têm mais tempo para colocar as eletivas dentro do currículo, quando eles já têm mais noção de que profissional eles querem ser — pontua.
As eletivas a serem oferecidas são definidas pelas unidades acadêmicas, por meio de um órgão colegiado que analisa as possibilidades de áreas de atuação profissional que o estudante poderá ter depois de formado. Essas matérias também podem ter relação com pesquisas desenvolvidas pelos docentes vinculados àquela graduação.
— Temos, inclusive, disciplinas que são tópicos especiais, o que permite uma customização da atividade de ensino a cada semestre. Aí, conseguimos atualizar o que vai ser oferecido de forma mais ágil do que através de uma alteração curricular, que exige um tempo grande de processo administrativo para que aconteça — explica a diretora.
Letícia reconhece que as eletivas costumam ter horários mais flexíveis em relação ao turno em que o curso é oferecido, sendo ministradas em horários diferentes. Com isso, alunos que não têm essa flexibilidade acabam, muitas vezes, atrasando a formatura.
— Costumeiramente, estudantes que trabalham já precisam atrasar um pouquinho a sua formatura, porque a demanda de trabalho, especialmente se não for estágio, é muito grande. Mas, de qualquer modo, os cursos noturnos costumam, mais para o final da graduação, diminuir a carga horária obrigatória, e aí o aluno vai ter espaços para encaixar eletivas — afirma.
Além das eletivas específicas de determinada graduação, há disciplinas interdisciplinares nas quais os universitários podem solicitar matrícula extracurricular em cadeiras de outros cursos. A liberação fica sujeita à disponibilidade de vagas após o fim do período de matrícula da graduação à qual a eletiva é destinada.
Há, ainda, matérias muito difundidas, como Empreendedorismo e Inovação, do Instituto de Química, Explorando o Universo: dos Quarks aos Quasares, do Departamento de Astronomia, Práticas Integradas em Saúde, que envolve cursos da saúde.

Rede privada
Em instituições particulares de Ensino Superior, a realidade é outra. Ainda que nem sempre haja um rol de possibilidades de disciplinas eletivas tão numeroso, essas aulas costumam ser ministradas no turno no qual o aluno está matriculado ou com flexibilizações como a oferta de parte das aulas na modalidade remota.
Eduarda de Campos Geraldo, 19 anos, está no quarto semestre do curso de Ciência da Computação da Unilasalle. Neste semestre, a jovem está cursando a disciplina eletiva de Métodos Estatísticos, focada em matemática, que é oferecida especificamente para a sua graduação. Outras cadeiras são abertas para alunos de outros cursos, como a que fez no semestre retrasado, Cálculo: Limites e Derivados.
— Na época da rematrícula aparecem as disciplinas que vão ser ofertadas no próximo semestre. Vamos escolhendo as disciplinas e montando uma organização para cada dia, mas tudo é oferecido no turno em que eu estudo. Como eu trabalho, para mim é muito bom, porque já tenho a minha rotina toda organizada. Se os turnos fossem muito diferentes, eu já não conseguiria conciliar — analisa Eduarda.
Uma eletiva que a universitária deseja fazer é de língua brasileira de sinais (libras), para crescimento pessoal. Outra é mais voltada para cálculo, o que seria benéfico profissionalmente. No semestre que vem, também pretende cursar Ética em Inteligência Artificial, que será em formato híbrido.
— Eu acho muito interessante essa oportunidade de poder escolher, sabe? Porque aí tu não está preso só a coisas do teu curso e pode aprender algo a mais, porque a vida é sobre essas coisas também. Tu tem que ter um conhecimento mais geral — opina.
A experiência em disciplinas para além do próprio curso também significam, para Eduarda, uma possibilidade de conhecer pessoas diferentes, com visões de mundo distintas.
Segundo o professor e assessor pedagógico Douglas Vaz, da Unilasalle, a instituição trabalha também com o modelo de optativas – um conjunto de disciplinas previamente organizado pelos cursos, que o estudante escolhe conforme seu interesse.
— Optativas são disciplinas pré-determinadas. Já as eletivas ele escolhe — resume Vaz.
A diferença, destaca ele, é que nas eletivas o aluno pode cursar componentes de qualquer área da universidade, enquanto nas optativas a seleção é delimitada pelos colegiados.
Conforme o assessor pedagógico, essa flexibilidade atende tanto às exigências legais quanto às expectativas dos alunos. No caso das privadas, a oferta costuma ser mais simples de encaixar na rotina, já que a maior parte das disciplinas ocorre à noite.
A aposta em conteúdos atualizados tem guiado a criação de optativas. Com o novo curso de Inteligência Artificial, por exemplo, outros cursos de tecnologia passaram a incorporar disciplinas que abordam tendências da área. Uma delas é Tópicos emergentes em inteligência artificial, que, de acordo com Vaz, permite atualizar conteúdos de forma dinâmica:
— Ela permite, a cada vez que roda, trazer o que está acontecendo relacionado à inteligência artificial.
O docente reforça que a personalização é uma tendência.
— A gente precisa buscar alternativas para que esse ensino personalizado seja percebido pelo estudante — avalia o educador. Ao escolher o que cursar considera que o aluno “toma as rédeas da sua formação”.
