
Para Jefferson Cardia Simões, um dos principais glaciólogos da América Latina, a união dos pesquisadores do Sul Global é o caminho para ampliar o protagonismo brasileiro. O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é um dos oito representantes brasileiros eleitos para a nova composição da Academia Mundial de Ciências (TWAS, da sigla em inglês) neste mês, sendo o único vinculado a uma instituição gaúcha.
Simões é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera e uma das lideranças científicas no Programa Antártico Brasileiro (Proantar).
— Acredito que essa cooperação do Sul Global é o caminho para o Brasil seguir daqui para a frente, ampliando esses vínculos, principalmente com a Índia e com a China, e se tornando cada vez mais importante, tanto na cooperação de troca de ideias quanto financeira. Isso é muito importante na Antártica, porque assim trabalhamos em conjunto e dividimos os custos. É muito caro — pontua.
No caminho certo
Ao todo, 63 novos nomes foram reconhecidos internacionalmente pela Academia Mundial de Ciências. A escolha ocorre por meio de indicação e é baseada em contribuições científicas de destaque.
Com a conquista, Simões torna-se um dos poucos glaciólogos (estudiosos da cobertura de gelo e neve do planeta, incluindo geleiras) a integrar a entidade. A eleição representa um reconhecimento da produtividade científica e da liderança de Simões em pesquisa polar latino-americana. Além disso, como observa o professor do Instituto de Geociências, destaca o protagonismo da UFRGS nas pesquisas e no Proantar:
— Evidentemente, para mim, é um grande orgulho. Isso mostra que estamos indo no caminho certo e crescendo a participação do Programa Antártico Brasileiro.
Conhecimento fundamental
Do ponto de vista científico, o reconhecimento também enfatiza a importância da especialidade, que engloba o estudo das relações do clima da Antártica com o Sul do Brasil.
O Rio Grande do Sul está geograficamente mais perto da massa de gelo do que do Estado de Roraima e do que muitos países do Hemisfério Norte, lembra o professor. Há uma influência sobre o sistema climático, a circulação atmosférica e oceânica.
O conhecimento é fundamental para entender a variabilidade do clima da Região Sul, reconstruir a história climática, projetar cenários futuros para as próximas centenas de anos e auxiliar esforços atuais de recuperação após a enchente de maio de 2024, enfatiza Simões.
A Antártica e as mudanças do clima
De acordo com a Academia Mundial de Ciências, Simões foi eleito por seu trabalho pioneiro de destaque na ciência dos testemunhos de gelo, que fornecem registros valiosos e ajudam a reconstruir as mudanças do clima e da química da atmosfera ao longo dos últimos milhares de anos. A pesquisa inclui, por exemplo, a detecção de poluição no passado, como urânio e arsênio na Antártica.
Seu trabalho foca o impacto do aquecimento global no gelo do planeta e suas implicações para o aumento do nível médio dos mares.
— A Antártica é tão importante quanto a Amazônia nas mudanças do clima e na circulação geral da atmosfera — frisa, lembrando que a enchente no Rio Grande do Sul foi resultado de um fenômeno associado a embates de massas de ar vindas da Amazônia e da Antártica.
Envolvido com a área desde 1984, Simões foi um dos responsáveis por introduzir a ciência glaciológica no Brasil, fundando o Centro Polar e Climático da UFRGS — o primeiro centro nacional de pesquisa polar, do qual é diretor — e liderando diversas expedições científicas à Antártica e aos Andes. O cientista já foi agraciado com a Ordem Nacional do Mérito Científico pela Presidência da República.
Além disso, formou mais de 50 cientistas na área — o que, em sua avaliação, é "o mais importante".
O cientista como um líder

A participação em entidades como a Academia Mundial de Ciências facilita intercâmbios e auxilia na busca de recursos e financiamentos internacionais. Também permite a participação em fóruns de discussão sobre o avanço científico global, novas áreas de conhecimento e melhorias na qualidade de vida e no desenvolvimento.
O cientista gaúcho relata que tem buscado estar cada vez mais envolvido na diplomacia da ciência, utilizando o conhecimento científico e tecnológico para resolver problemas internacionais em comum e para fomentar a cooperação em meio a um momento de polarização mundial.
— Ainda temos um mito do século 19 do cientista individual, gênio. Não, ele tem de ser hoje um cientista moderno. OK, ele faz a pesquisa, tem de ter ideias criativas, avançar o conhecimento, mas tem outras atividades. Ele tem de ser um líder de grupo, ser empreendedor para buscar e administrar recursos, gerenciar pessoas, constantemente tendo novos alunos, novos pesquisadores. Formação também é essencial. Além de ser professor — acrescenta.
Passando o bastão
Tendo nascido distante das massas de gelo às quais se dedica, Simões se interessou pela ciência glaciológica aos 24 anos, prestes a se formar em Geologia na UFRGS, coincidindo com o surgimento do Proantar.
A escolha foi motivada por interesses em disciplinas associadas à glaciologia, uma nova área de conhecimento que se solidificava, e, principalmente, pela questão ambiental e pelas relações internacionais — reconhecendo o papel fundamental da massa de gelo (que representa 10% do globo), o que exige uma visão global do sistema em termos de ciências físicas, químicas, biológicas e clima.
— Ainda é pouco. Nós somos poucos para um continente enorme — pondera.
As expedições do cientista, entretanto, chegaram ao fim no ano passado. Ele tem planos de passar o bastão para os colegas mais jovens nos próximos sete a oito anos que antecedem a aposentadoria. Sua equipe mantém pesquisas ativas, com novas expedições para a Antártica já programadas para o próximo ano, focadas na criosfera.
As pesquisas atuais, das quais Simões participa, concentram-se na análise de testemunhos de gelo dos Andes para reconstruir a história das queimadas no oeste da Amazônia. Além disso, o grupo está iniciando estudos para determinar como o aumento do nível do mar afetará a costa gaúcha.
Ele (o cientista moderno) tem de ser um líder de grupo, ser empreendedor para buscar e administrar recursos, gerenciar pessoas.
JEFFERSON CARDIA SIMÕES
Professor do Instituto de Geociências da UFRGS e membro da Academia Mundial de Ciências
O desafio da fuga de cérebros
A pesquisa brasileira demonstrou crescimento notável na produtividade intelectual nas últimas duas décadas. Entretanto, ainda enfrenta o grande desafio da irregularidade do financiamento — que está aquém do que era há 15 anos, na avaliação do professor. Embora seja uma carreira financeiramente desafiadora, ser pesquisador é satisfatório e proporciona retorno intelectual, segundo ele.
O professor vê perspectivas positivas em termos de desenvolvimento da ciência e tecnologia, questões de interesse do Brasil. Por outro lado, critica a falta de investimentos, como incentivos e salários, principalmente para manter a nova geração no Brasil — à medida que surgem outras oportunidades no caminho, os jovens tendem a evadir. O cenário é desafiador, mas manter a esperança é um dos únicos caminhos possíveis.
— Este é o grande desafio da humanidade: ou seguimos um caminho pela ciência, pelo racional, ou vamos nos danar.




