
A conexão maior com o mercado de trabalho tem levado muita gente a se interessar por uma modalidade relativamente nova no Brasil: os mestrados e doutorados profissionais. Se em 2013 havia 487 programas desse tipo no país, até 2023 o aumento na oferta foi de 78%, chegando a 867. No mesmo período, o crescimento dos cursos acadêmicos foi menor: 23,1%.
As formações profissionais garantem os mesmos títulos das acadêmicas – ambas as modalidades são stricto sensu, termo em latim que significa “sentido estrito”, quando o estudo é direcionado ao aprofundamento em uma área específica. O modelo é diferente do lato sensu, que significa “sentido amplo”, que se refere a cursos como MBAs e especializações, que visam um conhecimento mais geral sobre determinado assunto.
A principal diferença de um programa de pós-graduação (PPG) profissional é que, em vez do foco na formação de pesquisadores, o objetivo é o aperfeiçoamento de pessoas que atuam em empresas ou instituições. Com isso, o trabalho final não necessariamente é uma dissertação ou tese – pode ser a criação de um produto, manual, site, entre outros.
Características dos mestrados e doutorados profissionais:
- Visam formar profissionais de alto nível
- Têm como público-alvo pessoas que atuam no mercado de trabalho
- Exigem a apresentação de um trabalho final que possui aplicação prática, como o desenvolvimento de um produto
- O trabalho é guiado por um orientador
- A conclusão do curso garante o título de mestre ou doutor
Características dos mestrados e doutorados acadêmicos:
- Visam formar professores e pesquisadores
- Têm como público-alvo pessoas que concluíram a graduação, no caso do mestrado, e o mestrado, no caso do doutorado, e que se interessem por uma abordagem mais teórica
- Exigem a apresentação de uma dissertação, no caso do mestrado, e de uma tese, no caso do doutorado, que são trabalhos finais teóricos
- O trabalho é guiado por um orientador
- A conclusão do curso garante o título de mestre ou doutor
No Rio Grande do Sul, em 2023, ano do último levantamento feito pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), havia 78 PPGs profissionais, com 84 cursos. No total, 4.052 pós-graduandos estavam vinculados a esses programas.
Em 2013, eram 49 PPGs e 49 cursos, pois todos os programas ofereciam apenas mestrado. O número de alunos era menos da metade do dado atual, com 1.994. Entre 2013 e 2023 houve acréscimo de 59,1% na quantidade de PPGs profissionais, contra aumento de 23,5% dos acadêmicos.
Investimento no profissional
Na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), dos cinco PPGs, quatro são na modalidade profissional. Um deles – o PPG em Educação – teve suas atividades iniciadas em 2017, apenas com mestrado. Deu tão certo que, em 2024, foi aberta a primeira turma de doutorado. Simone Pereira dos Santos, 39 anos, está nesse grupo, depois de fazer mestrado no mesmo programa, cujas aulas são ministradas em Osório, no Litoral Norte.
— A gente desenvolve toda a pesquisa e precisa elaborar um produto. Não é só terminar a pesquisa, a gente tem que deixar um produto para a comunidade. É algo muito bacana, porque a gente contribui para o local que a gente está fazendo a pesquisa — destaca.

Durante o mestrado, Simone, que é professora de Educação Especial, criou uma página no Instagram para divulgar cursos, palestras e outras informações sobre Educação Especial. No doutorado, o projeto ainda está em elaboração, mas terá foco em estudantes com altas habilidades.
— Como eu trabalho com Educação Especial, eu pesquiso e trabalho na minha área. Não é desvinculado do meu campo de atuação — observa.
Uma diferença que ela percebe, na comparação com cursos acadêmicos, é que, na modalidade profissional, os professores e orientadores têm mais sensibilidade com relação ao tempo dedicado ao curso, já que a maioria dos estudantes trabalha 40 horas por semana e só consegue estudar à noite e aos finais de semana.
Formado em Engenharia Mecânica, Luiz Fernando Silva da Silva, 49 anos, acabou enveredando a sua carreira para a docência. Para qualificar o seu trabalho no Campus Ibirubá do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), ingressou no início de 2025 no Mestrado Profissional em Formação Docente para Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemática da Uergs.
— Na minha visão, o mestrado acadêmico vai muito mais para a pesquisa, enquanto o profissional é muito mais para a prática docente. Tenho aprendido muito sobre metodologias ativas, que acho que ajudam a tornar a aula o mais atrativa possível para o aluno — comenta Silva.
Segundo a pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da Uergs, Lilian Hickert, o perfil do aluno da instituição é o de estudantes que trabalham durante o dia e moram em cidades diferentes daquelas em que a universidade possui campi:
— Pensamos em ter um mestrado em que o aluno conseguisse ter a sua profissão, mas que fosse uma forma de complementar o estudo. O mestrado profissional traz a problemática da escola ou da empresa onde o aluno está inserido para dentro da sala de aula.
Sem cobrança de dedicação exclusiva, os PPGs profissionais da Uergs têm aulas que, normalmente, acontecem às sextas e sábados, ou na segunda durante o dia inteiro. Dessa maneira, os estudantes conseguem negociar uma liberação para o período. O modelo tem sido bem-sucedido, e a expectativa da instituição é de criar doutorados profissionais para os outros três programas que ainda não têm.
— A nossa ideia é que o pessoal que está fazendo o mestrado consiga fazer um doutorado profissional também, porque aí você tem um prazo maior, dá a chance para esse aluno fazer mais de uma linha de pesquisa. Às vezes, o aluno consegue fazer um produto no mestrado, mas tem a ideia de ir para mais três, quatro produtos na mesma pesquisa. No doutorado você teria esse tempo realmente de maturação, para fazer essa entrega melhor ainda para a sociedade — analisa a pró-reitora.
Uma demanda das universidades com PPGs profissionais é que seja aberta a oferta de bolsas para que os estudantes possam se dedicar integralmente aos seus projetos ao longo do curso. Hoje, na Uergs, a única bolsa possível é fruto de uma emenda parlamentar do deputado estadual Miguel Rossetto (PT), que tem sido usada para permitir que, no semestre final, alguns alunos consigam se afastar do trabalho para concluir seus projetos do curso.
Modalidade lato sensu
Outras qualificações possíveis voltadas ao mercado são o MBA (sigla em inglês para Master of Business Administration, que abrange cursos voltados para a gestão de negócios) e as especializações, ambos no modelo lato sensu.
Diferentemente dos cursos stricto sensu, que são regulamentados pela Capes, os lato sensu têm controle direto do Ministério da Educação. A abordagem é mais geral e não há obrigatoriedade de um trabalho de conclusão do curso nos moldes de uma dissertação ou tese.
Morando há 15 anos em Brasília e atuando em boa parte deles na Câmara dos Deputados, o gaúcho Luís Gustavo Hartmann, 47 anos, cursa MBA em Relações Governamentais ofertado pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Mesmo agora, que passou a atuar na Associação Brasileira de Laticínios, o advogado considera que as aulas, todas remotas, têm agregado à sua atividade profissional.
— A gente trata de muitos temas que ficam nas áreas legislativas, tributárias, regulatórias, atos do Executivo. Então, tem muito a ver com a questão das relações governamentais, e esse mercado tem buscado cada vez mais um profissional qualificado, que entenda bem esses processos e encontre soluções para o dia a dia do setor — descreve Hartmann.
Um exemplo do estudante é a taxação praticada pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros, algo no qual muitos profissionais têm se envolvido nas negociações. Para Hartmann, que nunca havia pensado em fazer um mestrado acadêmico, a possibilidade de um MBA voltado para questões que surgem no seu dia a dia veio ao encontro das suas demandas.
— Não são só advogados que atuam nessa área de relações governamentais, então, na nossa turma, tem pessoas de várias outras áreas. É justamente essa troca de experiência que faz parte do nosso trabalho. Então, em um curso como esse, você vai conseguindo buscar novas informações, novos contatos. Isso, nos dias de hoje, é fundamental — opina o advogado.
A expectativa dele é, com o MBA, realizar seu trabalho de forma mais aplicada, por conhecer mais os processos. Coordenador-geral do MBA da Ulbra, Thiago Esteves Barbosa faz uma diferenciação do curso para um mestrado em Ciência Política.
— O MBA em relações governamentais é muito mais interdisciplinar. Temos disciplinas que não são restritas ao estudo mais aprofundado da Ciência Política, como teoria democrática, instituições políticas ou temas ligados a sociologia e antropologia. Em regra, o MBA tem um espectro de disciplinas mais ligado às ciências humanas aplicadas, como direito administrativo, direito constitucional, análise de risco e cenário — relata Barbosa.
O objetivo é trazer a alunos formados em cursos como Relações Internacionais, História, Direito ou Ciências Sociais ferramentas mais executivas que os ajudem em suas atuações profissionais. Mesmo o curso sendo baseado no cotidiano de Brasília – o MBA tem a previsão de duas incursões dos estudantes na capital brasileira –, muitos dos matriculados moram em outras regiões do país.

