
Nos últimos 10 anos, saltou o número de cursos de Medicina Veterinária no Rio Grande do Sul (RS). A partir de 2015, 17 novas graduações iniciaram atividades no Estado, boa parte delas em faculdades e centros universitários, e seis em universidades. Os dados são do Ministério da Educação (MEC).
O curso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) foi o primeiro no Estado, fundado em 1923. Em 1962, surgiu o da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A partir da década de 1990, outros foram implementados, somando total de 32 cursos no RS.
Apenas nos últimos cinco anos, foram abertos cinco novos cursos, sendo quatro deles em Porto Alegre ou na Região Metropolitana. Dados do Censo da Educação Superior, do MEC mostram que as matrículas em cursos de Medicina Veterinária no RS subiram de 6,1 mil para 8,7 mil entre 2014 e 2023, último ano do levantamento. O aumento foi de 43% no período.
Conforme o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do RS, Mauro Moreira, trata-se de movimento que busca atender às demandas do mercado do trabalho:
— O Brasil é um dos maiores produtores de proteína animal do mundo. Temos o segundo maior mercado pet do mundo. Muito disso se deve ao trabalho dos médicos veterinários. Esse mercado atrai muitas pessoas para o curso, porque forma profissionais para atuarem em diversas áreas, com pets, animais silvestres, pessoas, produção, meio ambiente. É um leque muito grande de opções.
Para Moreira, as atividades práticas são fundamentais para a formação de bons veterinários. Esse é um dos pontos de atenção em relação à abertura de novas graduações. Exceto pela UFRGS, que tem 11 semestres, os cursos no RS contam com atividades presenciais, seja com estruturas próprias ou em instalações de instituições parceiras, e têm 10 semestres de duração.
— Hoje, a presencialidade é uma característica forte dos cursos no RS, temos graduações que são referência. Como em toda área da saúde, na Veterinária é indispensável a prática para garantir uma formação de qualidade. Caso contrário, o ensino fica limitado — afirma.
Atualmente, a legislação permite que os cursos tenham até 30% da grade curricular a distância. O novo marco regulatório da Educação a Distância (EAD) divulgado recentemente pelo MEC proíbe a modalidade para áreas como Medicina, Odontologia e Psicologia. No entanto, não consta na lista o curso de Veterinária, o que vem gerando preocupação por parte de entidades, como o Conselho Federal de Medicina Veterinária.
Tecnologia e ensino
Com a primeira turma no início de 2024, o curso de Veterinária da Universidade La Salle (Unilasalle) está em expansão. O projeto prevê um centro clínico, novos laboratórios, como de anatomia, microbiologia e microscopia e uma Fazenda Escola no município de Nova Santa Rita.
— A instituição já conta com diversos laboratórios, por conta de outros cursos. A ideia é potencializar as práticas. A primeira etapa das obras deve ser entregue no próximo semestre. No início do ano que vem, a previsão é que já haja uma entrega parcial do centro clínico veterinário, quando eles começarão a ter aulas envolvendo animais vivos — conta o coordenador do curso, Igor Miranda.
Até então, as disciplinas que estão sendo ministradas não exigem a presença de animais vivos para a aprendizagem. No momento, todas as atividades ocorrem no campus em Canoas. Conforme o professor, a graduação teve alta procura e os alunos estão muito engajados no curso.
Um dos diferenciais na instituição é o uso de tecnologias educacionais inovadoras, como uma mesa holográfica 3D. O equipamento é interativo, e permite que os estudantes aprendam por meio de uma visão tridimensional de diferentes espécies.
Com o recurso, é possível manusear diferentes modelos e compartimentos anatômicos dos animais, como ossos, músculos e articulações. Óculos de realidade virtual também são empregados nas aulas, tornando a aprendizagem mais dinâmica.

A Faculdade Estácio, no Centro Histórico de Porto Alegre, também conta com um curso recente. Na metade de 2022, foi implementado o curso semipresencial da instituição, respeitando a carga horária autorizada pelo MEC. Segundo a coordenadora, Cristiane Moraes, algumas atividades teóricas são ministradas a distância.
— Somos o único curso semipresencial na região central de Porto Alegre. Nossos alunos são trabalhadores, e vêm de longe, muitas vezes, conciliando os estudos com a jornada de trabalho. Disciplinas como Sociologia e Deontologia são online — explica.
Desde o início de 2025, a instituição tem parceria com o hospital veterinário Nexum Vet, na Zona Norte da Capital, que serve como clínica-escola. No espaço, os alunos têm acesso a aulas de cirurgia, atendimentos clínicos e estágios obrigatórios. Com isso, foi implementado também o curso presencial, com a primeira turma no começo do ano. Agora, a Estácio oferta essas duas modalidades.
Novas instalações
Na UniRitter, em Porto Alegre, foi inaugurado recentemente o Centro Cirúrgico de Grandes Animais. Com as atividades práticas centralizadas no campus FAPA, na Zona Norte, a universidade tem instalações específicas do curso de Veterinária.

As novas estruturas se somam ao Complexo Médico Veterinário e ao pavilhão voltado ao atendimento ambulatorial de grandes animais. O hospital oferece consultas e bloco cirúrgico de ponta, tornando-se referência na Capital.
— É um diferencial importante para o curso, essa estrutura cirúrgica para grandes animais. Alguns procedimentos são feitos a campo, mas cirurgias de maior complexidade não podem ser feitas dessa forma. O grande diferencial é permitir que se faça procedimentos rotineiros com segurança, com o controle de um ambiente hospitalar. Do ponto de vista pedagógico, tem a questão da observação dos alunos, que podem ter essa vivência — explica a professora Daniela Flores Fernandes.

O espaço é voltado a equinos, principalmente. Para a estudante Mariana Ferreira Feyh, 21 anos, que está no 7º semestre e pretende atuar na área cirúrgica, a parte prática tem sido muito importante para o aprendizado:
— Eu gosto muito de cirurgia e de neurologia, de pequenos animais, mas também tenho uma paixão por animais silvestres. Por isso também a importância da parte prática, ter vivências que são parte da rotina profissional. E aqui a gente tem uma estrutura muito boa para conseguir colocar em prática todos os nossos conhecimentos teóricos.
Conforme a coordenadora do curso de Medicina Veterinária da UniRitter, professora Silvia Lentz, nos últimos anos, as atividades práticas foram ampliadas no currículo.
— Desde o primeiro semestre de 2022 adotamos uma abordagem mais prática e ativa, com foco em competências, interdisciplinaridade e conexão com o mercado, cujo objetivo está numa compreensão global do conhecimento.
Recentemente, a instituição obteve autorização do MEC para implantação do curso de Veterinária também no campus Canoas. A primeira turma será aberta no segundo semestre de 2025.




