
Quando os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) são divulgados, surge a pergunta: o que fazem de diferente as escolas que aparecem no topo do ranking? Levantamento feito por Zero Hora com base nos microdados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) ajuda a responder essa questão.
Considerando as escolas gaúchas com pelo menos 10 estudantes que realizaram todas as provas do exame em 2025, a liderança no Rio Grande do Sul ficou com o Colégio Politécnico da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A instituição foi a única do Estado entre as 50 melhores do país.
Entre os estabelecimentos de ensino de Porto Alegre, o melhor desempenho foi do Colégio João Paulo I. Entre as escolas com os três melhores resultados, apenas a Bertoni Med não foi entrevistada porque encerrou as atividades na capital gaúcha.
Embora cada instituição tenha projeto pedagógico próprio, as respostas revelam características que se repetem. Em nenhuma delas a preparação para o Enem começa no Ensino Médio. Ao contrário: leitura, escrita, resolução de problemas, autonomia e repertório são pilares construídos desde os primeiros anos da vida escolar.
Não há uma fórmula única. Algumas apostam em acompanhamento individualizado, outras ampliam a carga horária, investem em laboratórios, clubes de estudo, iniciação científica ou monitoria. Em comum, rejeitam a ideia de preparar alunos apenas para uma prova.
Proximidade com o Ensino Superior
No Colégio Politécnico da UFSM, que alcançou a melhor média geral do Estado e também liderou na prova de matemática, o coordenador do Ensino Médio, Rodrigo Rozado Leal, diz que o resultado é consequência de um trabalho em equipe, e não de um treinamento específico para o exame:
— A gente fica muito feliz, mas ao mesmo tempo não fica tão surpreso assim, porque esses resultados que são fruto de um trabalho coletivo.
Segundo Leal, a escola reúne estudantes motivados, selecionados por processo seletivo. Em vez de seguir uma metodologia única, cada professor da escola tem autonomia para trabalhar da forma que considerar mais adequada. Essa diversidade ganha força pelo fato de a instituição estar inserida na universidade.
Os alunos convivem com laboratórios, grupos de pesquisa, eventos acadêmicos e docentes que também atuam na graduação e na pós-graduação. Para Leal, isso faz diferença justamente porque o Enem exige mais do que memorização:
— Quando você fala em Enem, é um tipo de prova e um modelo de questão que é muito diferente de vários concursos tradicionais, porque os alunos têm que fazer relações. Eles têm que, principalmente na redação, ter um repertório muito grande.
O coordenador substituto do Ensino Médio, Fabrício Fernando Halberstadt, acrescenta outro aspecto: o tempo disponível para acompanhar a aprendizagem. Além de lecionar matemática para o Ensino Médio, ele atende estudantes fora do horário das aulas e conta com a monitoria de aluno para apoiar colegas com dificuldades.
— Não basta o professor estar ali para dar as suas aulas. É preciso pensar o processo de aprendizagem de uma forma um pouco mais ampla — observa Halberstadt.
Na avaliação dos coordenadores, o foco da escola continua sendo o processo de aprendizado dos estudantes.
— O objetivo é da construção do conhecimento, e não simplesmente da performance na prova — sintetiza Leal.

Aprender a estudar
A preocupação em criar uma rotina de estudos antes do Ensino Médio também aparece no Colégio João Paulo I (JPSul), a escola da Capital com a maior média geral no Enem 2025. Para o diretor Eduardo Castro, a principal missão da instituição é fazer com que estudar deixe de ser apenas obrigação:
— O foco principal da escola tem sido criar hábitos de estudos nos nossos alunos.
Segundo o gestor, esse processo começa ainda no Ensino Fundamental, quando os estudantes são convidados a participar de olimpíadas do conhecimento, projetos de iniciação científica e atividades que valorizam a curiosidade e o aprofundamento em temas de interesse. A preparação específica para o Enem vem depois.
— Quando ele chega lá no Ensino Médio, aí a gente começa a trazer a pauta de Enem para ele. Mas é só mais tarde — explica Castro.
O diretor explica que a escola procura equilibrar uma base curricular sólida com percursos personalizados. No contraturno, cada estudante pode aprofundar áreas pelas quais demonstra maior interesse, seja em clubes de matemática, jornalismo, escrita criativa, xadrez, iniciação científica ou linguagem computacional.
— Existe, sim, uma base robusta, que é uma base de matemática e linguagens, e depois toda essa personalização vai se criar os hábitos de estudos dos alunos — pontua o gestor.
Ao mesmo tempo, o colégio mantém um treinamento técnico para a redação do Enem, respeitando as características próprias da prova.
— A partir do momento em que o exame nacional exige um determinado formato de escrita, tem uma proposta em edital, a gente sempre vai trabalhar com essa matriz curricular de forma intencional — descreve.

Escrita desde a infância
O Colégio Regina Coeli, de Veranópolis, alcançou a maior média de redação do país. Para a coordenadora do Ensino Médio, Eliana Vuelma Festa, o resultado começa bem antes de os estudantes conhecerem a estrutura da redação do Enem:
Esse é um trabalho que nasce lá na Educação Infantil com os projetos de leitura.
Ao longo da Educação Básica, a produção textual ganha espaço próprio no currículo. Ainda nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, os estudantes produzem textos com uma professora específica de língua portuguesa, diferente daquela responsável pelas demais atividades da turma.
No Ensino Médio, todos têm dois períodos semanais de redação. Além disso, alunos da 2ª e da 3ª série participam de atendimentos individualizados e trabalham suas dificuldades. Antes de escrever, também pesquisam, debatem e ampliam repertório sobre temas que podem aparecer na prova.
Para a diretora Alinne Boito, a redação é apenas a parte mais visível de um trabalho que envolve toda a escola.
— É um trabalho contínuo que a escola faz desde os pequenos. Tem uma colherinha de chá de cada momento, de cada ano que o professor trabalha com os nossos alunos — resume.
Além das leituras obrigatórias, professores indicam livros, filmes, séries e autores capazes de ampliar o contexto cultural dos estudantes – justamente uma das competências mais valorizadas pelo Enem.
Outro ponto destacado pela coordenadora é que a preparação não se restringe ao exame nacional. Na 3ª série, os alunos também passam a treinar formatos de redação exigidos por diferentes vestibulares, como os da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e da Universidade de Passo Fundo (UPF).

Reescrita como método
A mesma ideia de que escrever é um processo aparece em outra escola da lista. No Colégio Sinodal São Leopoldo, primeiro colocado entre as unidades da rede e o terceiro em média geral do RS, a redação faz parte da rotina semanal dos estudantes.
Mas há uma diferença em relação ao modelo tradicional. Em vez de ser corrigido pelo próprio professor da turma, cada texto passa por uma banca formada por professores de português. Depois da correção, o estudante precisa reescrever a redação incorporando as observações recebidas.
Segundo o diretor Ivan Renner, é justamente essa etapa que transforma a atividade em aprendizagem.
— O estudante não recebe simplesmente “ah, foi bom”, “foi muito bom” e põe de lado, ou “não foi bom”. Não, ele tem que reescrever para corrigir os erros. Então, ele aprende a escrever sanando dúvidas e sanando erros — explica Renner.
A escrita, porém, é vista como consequência de outro hábito cultivado desde cedo.
Só consegue escrever bem quem lê bem.
IVAN RENNER
Por isso, todas as semanas há um momento reservado para a leitura em sala de aula, prática que, segundo Renner, começa ainda na Educação Infantil e acompanha os estudantes durante toda a vida escolar.

Formação integral
Com a terceira melhor média geral de Porto Alegre e participação de 177 estudantes no Enem, o Colégio Farroupilha é destaque especialmente em matemática. A instituição aposta em um currículo que combina componentes obrigatórios com trilhas de aprofundamento em áreas como programação, bioética, empreendedorismo e inovação.
Para a diretora-geral, Marícia Ferri, os resultados não podem ser explicados por uma única iniciativa. Ela atribui o desempenho ao conjunto do projeto pedagógico e à preocupação em desenvolver competências que atravessam todas as disciplinas, como argumentação, criatividade, resolução de problemas e capacidade de relacionar conhecimentos.
Não por acaso, a escola ampliou neste ano a carga horária dedicada a dois aspectos considerados essenciais para o Enem: atualidades e redação. As atividades são opcionais e ocorrem no contraturno.
— Primeiro eles discutem o tema e, na sequência, eles vão fazer uma redação, então eles fazem essa redação com mais conhecimento sobre o tema — descreve Marícia.
A escrita também recebe tratamento individualizado. Em vez de priorizar quantidade, a escola aposta em poucas redações, mas acompanhadas de correções detalhadas e reescritas.
— Existe uma devolutiva para o aluno e ele vai fazer uma reescrita, ele vai aprender a partir dos erros. É melhor do que simplesmente ficar entregando uma redação por semana — avalia a diretora.

Resultado é consequência
Outra instituição que aparece entre as melhores colocadas da Capital, o Colégio Leonardo da Vinci Alfa também vê o resultado como consequência de um trabalho amplo. A diretora-geral da rede, Márcia Andréa Schmidt da Silva, afirma que a escola procura desenvolver habilidades ao longo da trajetória escolar, sem perder de vista o que o exame representa.
— O Enem não é só um ingresso nas universidades federais. Ele é mais do que isso — opina Márcia.
O reconhecimento internacional da prova fez aumentar a responsabilidade da escola na preparação dos estudantes, especialmente daqueles que pretendem disputar vagas em instituições estrangeiras.
Ao lado dos conteúdos acadêmicos, a escola investe em organização dos estudos, planejamento da rotina e acompanhamento psicológico para que os alunos aprendam a estudar sem transformar o processo em fonte permanente de ansiedade.
Márcia ainda destaca a importância da parceria entre escola e famílias para consolidar hábitos de estudo:
— Nós desenvolvemos, inicialmente, hábitos de estudo com eles através da ludicidade quando eles são crianças. E depois, quando eles vão amadurecendo, a gente vai amadurecendo as metodologias junto.



