
Desde a divulgação do resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025, na semana passada, milhares de participantes e professores que acompanham a prova vêm criticando a correção das redações. Com notas abaixo do esperado, muitos candidatos foram surpreendidos com desempenho pior do que em anos anteriores, mesmo estando mais preparados e afiados nos textos.
— Há seis anos tento uma vaga em Medicina, e eu só tenho a possibilidade da universidade federal. A única coisa que baixou minha média foi a redação, sendo que tirei mais de 900 em todos os outros anos que prestei o Enem. (Esse ano) Tirei 754, com essa nota não tem como, sendo que nunca tinha recebido uma nota assim — relata uma estudante de 23 anos de Gravataí (RS), que preferiu não se identificar.
Os estudantes têm até esta sexta-feira (23) para se inscrever no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e concorrer a uma vaga no Ensino Superior. Apesar de ter obtida boa média nas demais áreas, por conta da redação, a candidata da Região Metropolitana não deve conquistar desta vez a tão almejada vaga na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) ou Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).
Falta de padrões e de transparência
Professores de cursos preparatórios para o Enem compartilham das dúvidas e acreditam que houve injustiça nas correções. O professor Filipe Vuaden destaca que vem caindo o número de redações com nota máxima, ano a ano, principalmente após a banca Cebraspe assumir a avaliação, em 2023.
Antes, era a FGV. No Enem 2024 foram somente 12 redações nota mil, contra 60 em 2023. Até o momento, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela aplicação do exame, não divulgou se houve alterações nos critérios avaliativos da prova.
Vuaden explica que a redução não significa necessariamente um rigor maior nas correções, mas sim uma série de fatores que podem influenciar o processo. Apesar de serem mantidas as competências exigidas na redação, independentemente da banca, a interpretação desses critérios avaliativos pode mudar, e isso traz efeitos nos resultados.
O que chamou a atenção, segundo o professor, é a oscilação desproporcional na pontuação nesta última edição do exame no caso de muitos estudantes:
— A maior parte dos alunos está dentro de uma margem aceitável, dentro do que é esperado. Mas nos casos em que houve discrepância em relação a outras edições do exame, foram discrepâncias muito acentuadas. É uma mudança de nota muito difícil de explicar para um aluno que continua se dedicando, evoluindo ao longo do ano. A banca tem liberdade para aumentar o rigor, mas normalmente essas alterações são pontuais — destaca Vuaden.
Outra questão apontada é a falta de transparência, uma vez que normalmente as mudanças nos critérios são devidamente comunicadas com antecedência, quando ocorrem. O professor também argumenta que falta padrão nas avaliações, já que os corretores podem receber orientações contrastantes, muitas vezes.
— Me parece que as diretrizes não estão sendo repassadas de uma maneira muito objetiva para quem faz a avaliação. A formação que é dada aos professores que vão fazer as correções é confusa, ainda não está bem organizada, e isso se reflete nos resultados que vimos na semana passada — completa Vuaden.
A professora de redação Mariane Lazzari vai na mesma linha. Ela afirma que a falta de informações sobre a prova e os critérios de avaliação vem gerando preocupação:
— O problema é que acaba sendo uma concorrência desleal. Parece que nós temos três canais de correção: as correções tradicionais, temos correções incoerentes e temos correções que tiveram uma mão mais pesada, o que não é problema, se isso fosse geral. Não sou contrária a uma cobrança mais intensa da escrita, mas isso precisaria ser uniforme — explica.
Neste ano, o tema foi perspectivas acerca do envelhecimento da sociedade brasileira. Mariane diz que o assunto é pertinente e foi trabalhado ao longo do ano, o que não justificaria a queda nas pontuações.
— É como se a gente perdesse a credibilidade enquanto professor, também. E o aluno perde a segurança na preparação que ele teve — lamenta.
O que diz o Inep
Apesar das incertezas, não é possível saber o que gerou as notas mais baixas, uma vez que a divulgação dos espelhos das redações será somente em março. Diferentemente de anos anteriores, o Inep ainda não apresentou o balanço dos resultados desta edição do Enem.
Assim, ainda não se tem dados sobre médias das provas e o número de redações nota mil em 2025. Questionado, o Inep não respondeu se há previsão para realização do anúncio e se houve qualquer mudanças nos critérios avaliativos da prova.




