
A edição de 2025 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não será cancelada. A informação foi trazida, na sexta-feira (21), pelo ministro da Educação, Camilo Santana, em vídeo publicado nas redes sociais, seguido de centenas de comentários críticos de estudantes.
O comunicado foi feito após a anulação de três questões do Enem, devido a uma suspeita de vazamento. A Polícia Federal (PF) deve investigar o caso. A decisão de manter a prova levantou debate e críticas nas redes sociais.
Entre estudantes ouvidos por Zero Hora, a polêmica que envolve a edição traz preocupação e receio. No vídeo publicado (veja abaixo), o ministro da Educação falou sobre a suspeita de vazamento.
— Queria aqui tranquilizar cada um de vocês que fizeram a prova, cada um dos seus familiares, que o Enem não será cancelado. O ruído que aconteceu nas redes sociais de uma live de um aluno, de um jovem, que divulgou questões que poderiam ser similares às que caíram no Enem… a comissão do Inep que é responsável pelo Enem tomou a decisão técnica de cancelar, de anular três itens do Enem por um único objetivo: de prevenção e de isonomia para não prejudicar nenhum aluno que fez o Enem esse ano — pontuou.
Ele afirmou também que, pela primeira vez, foram utilizados detectores de metal nas salas de aulas onde houve aplicação das provas.
Repercussão nas redes

Nos comentários, houve repercussão negativa. Um usuário disse: "Eu fiz 156 acertos no Enem. Com as anulações, caio para 153. Estudo o ano inteiro para tentar Medicina na UFMG. Três acertos mudam completamente o meu destino".
Outro destacou: "Já entramos prejudicados a partir do momento em que estudamos o ano inteiro, abdicando de momentos de lazer pra ir atrás dos nossos sonhos, enquanto muitos já entraram com o gabarito na mão". Em alguns comentários, usuários começaram a levantar a tag #anulaenem.
"Não é o suficiente"
Essa foi a terceira vez que a estudante Carolina Costa Poti, 23 anos, moradora de Porto Alegre, fez o Enem. Neste ano, porque quer mudar de curso: sair da faculdade de Música e ir para o Direito.
Ela conta que, em 2025, decidiu tentar equilibrar estágio, faculdade e os estudos para se atualizar para vestibulares e Enem. Carolina diz ter notado que o exame está cada vez mais seletivo, exigindo que os estudantes façam cursos preparatórios. Diante disso, ela levanta uma preocupação:
— Daqui a pouco, está todo mundo sabendo as questões. E quem paga bem ou quem sabe com quem falar se dá melhor.
No caso de Betina Balbinot Brandão, 16 anos, moradora de Nova Santa Rita e estudante do segundo ano do Ensino Médio, a situação mudou um pouco as prioridades. O possível vazamento gerou preocupação na jovem, que estará no último ano da escola em 2026. Em 2025 e em 2024, ela fez o Enem como teste.
— Me preocupa para o ano que vem, muito, porque vamos para a prova com a cabeça de que tem pessoas que estão na nossa frente, que têm o gabarito e vão acertar mais, com mais coerência e ficar com a nota maior. Pelo menos a minha posição para o ano que vem mudou muito depois disso, porque eu nunca tinha nem pensado que poderia acontecer. Eu, pelo menos, confiava muito no Enem. Mas, para o ano que vem, penso em focar bem mais no vestibular da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)— destaca Betina, que quer cursar Ciências Econômicas.
Para a jovem, a decisão de anular três questões e manter o exame não parece suficiente, embora ela pense que não exista outro caminho:
— É uma situação que não tem o que fazer. Anular todo o Enem? Mas como é que fica depois? Como vai reaplicar esse segundo dia ou o primeiro dia? Será que isso estava acontecendo já no primeiro dia, em Linguagens e Humanas? Então é uma situação que foi o que eles (órgãos responsáveis pelo Enem) fizeram, mas parece que não é o suficiente.
O que poderia ser feito?

A estudante Luísa Toscani Hilbert, 22 anos, moradora de Gravataí, avalia que a anulação de três questões serviu apenas como "tapa-buraco", já que as redes sociais mostram que haveria mais itens supostamente vazados.
— Me senti bem injustiçada de saber que estudo o ano inteiro e tem pessoas que têm acesso de outras maneiras. Mas eu acredito que a única maneira de garantir que tudo esteja correto seria punir quem vazou as questões e, de alguma maneira, anular a prova de quem teve acesso a essas questões. Ou anular a prova de quem pagou a mentoria ou, de alguma maneira, rastrear quem estava assistindo a live — opina.
Essa foi a quarta vez que Luísa fez o Enem, sem contar as vezes em que foi "treineira" (quando o estudante faz o exame apenas para se preparar). A jovem está atrás do sonho de cursar Medicina na UFRGS.
— Caso eu não consiga dessa vez, no ano que vem, praticamente todo o meu foco vai ser no vestibular da UFRGS porque eu não sinto mais que o Enem é seguro — destaca.
Na avaliação de Derek Davi Suarez Pereira, 18 anos, estudante do terceiro ano do Ensino Médio e morador de Santana do Livramento, a prova com suspeita de vazamento deveria ser anulada e, então, ser feita uma nova. Ele traz o exemplo das cidades de Belém, Ananindeua e Marituba, no Pará, onde o exame será aplicado nos dias 30 de novembro e 7 de dezembro, em razão da realização da COP30.
— Quem faz esses cursos preparatórios para Enem e acabou tendo isso (sabendo as questões antes da prova), eu acho que, não vou dizer injustiça, mas saiu à frente de outras pessoas que não tiveram acesso a isso — argumenta.
Derek tenta entrar em um curso de Direito. Essa foi a segunda vez que fez a prova, mas, no ano passado, o exame serviu apenas como preparação. O adolescente afirma que seguirá participando das edições do Enem.
Suspeita de vazamento
Na terça-feira (18), o Ministério da Educação decidiu anular três questões do Enem 2025 após identificar similaridades com questões divulgadas nas redes sociais.
Os rumores de vazamento começaram após uma live no YouTube de Edcley Teixeira, que se descreve como estudante de Medicina e presta consultoria para vestibulandos.
De acordo com o portal g1, em 11 de novembro, cinco dias antes da aplicação das provas de Matemática e Ciências da Natureza, a live mostrou ao menos cinco questões quase iguais às que caíram no Enem. Teixeira afirmou que adivinhou as questões dentro de parâmetros legais, sem vazamento de material. Segundo ele, perguntas do Prêmio Capes Talento Universitário serviriam como "pré-teste" para integrarem futuras edições do Enem — essa informação não foi confirmada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável por coordenar o Enem.
Em nota, o Inep explicou que o exame utiliza a Teoria da Resposta ao Item (TRI) para apuração de resultados e que essa metodologia demanda que os itens sejam pré-testados. "Os estudantes que participam de pré-testes têm contato com itens que podem vir a compor o Enem em alguma edição", afirmou.
O órgão disse também que "nenhuma questão foi apresentada tal qual na edição de 2025 do exame. Na divulgação observada nas redes sociais, foram identificadas similaridades pontuais entre os itens". O Inep reforçou ainda que promove diversas estratégias para calibrar as questões que compõem o Banco Nacional de Itens e que podem ser usadas na elaboração das provas. "Os processos envolvem rigorosos protocolos de segurança, que foram cumpridos em todas as etapas do exame", finalizou.




