Em uma realidade de uso constante de telas pela maior parte da população, atrair a atenção das crianças para práticas como a escrita à mão e a leitura de livros — tão fundamentais no processo de alfabetização — vem se tornando um desafio para os professores.
Entre projetos, gincanas e a busca por incluir nas atividades assuntos que interessem os alunos, a forma como o letramento acontece sofreu mudanças significativas nos últimos anos.
Apesar dos desafios, estudantes como Davi, Virgínia, Flávia e Vicente mostram como é possível, sim, superar obstáculos desperta nas crianças o hábito — e o prazer — da leitura.
Matriculados em escolas de redes e até mesmo de cidades diferentes, os pequenos têm em comum a busca por leituras analógicas mesmo quando não há nenhum trabalho pedido sobre aqueles livros pela escola. O apreço pela coleção Diário de um Banana é unanimidade. Além deste, obras como O Homem-Cão, Manual do Mundo, O Pequeno Príncipe e Isadora Moon também caíram no gosto da gurizada.

— Eu comecei a ler com sete anos, mas a minha mãe já lia comigo desde os três. Aí, fui aprendendo e lendo cada vez mais. Hoje, leio bastante — conta Davi Ortiz Ribeiro, 11 anos, estudante da Escola Crescer, localizada no bairro Vila Jardim, em Porto Alegre.
Apesar do hábito, Davi admite que prefere escrever no celular do que à mão, porque acha mais fácil e por ter o corretor automático, que o ajuda a escrever corretamente. Sua colega Virgínia Schneider Moreira, 10 anos, também — mesmo sabendo que é importante também aprender a usar lápis e borracha.
— O mais difícil foi aprender a escrever em letra cursiva, porque eu não decorava as letras. Mas fui praticando, lendo e escrevendo, e aprendi — lembra a menina.

A dupla entende que essa prática leva à aprendizagem. Mesmo gostando de escrever no celular, avaliam que fixam a grafia correta quando os professores corrigem seus erros em ditados e redações.
A mais de 100 quilômetros dali, na Escola Municipal Santa Cruz, localizada no distrito de Nova Milano, em Farroupilha, na Serra, Flávia Magagnim Macedo dos Santos, 12 anos, cita a importância desse conhecimento também para o seu futuro.

— A gente vai ter que usar aquilo em tudo, né? Não é só digitar. Em entrevistas de emprego ou outros lugares, a gente sempre vai ter que ler alguma coisa, escrever alguma coisa — comenta a aluna.
Com a melhor nota do Rio Grande do Sul entre os Anos Iniciais — etapa do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental —, a Santa Cruz obteve em 2025 média 9,2 de 10 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que avalia a qualidade do ensino oferecido em todas as escolas públicas do Brasil. Foi a turma de Flávia e do colega Vicente José Venturella, 11 anos, que realizou a avaliação.

— A nossa preparação foi bem grande e também foi legal, eu gostei. Nós nos preparamos fazendo gincana, nós também fizemos bastante atividade, fizemos atividade no Chrome, bastante coisa — lembra o garoto.
Para além da preparação para o Ideb, os projetos na Santa Cruz consistem em atividades que desafiam os alunos. Uma delas é o projeto Super Autor, no qual, por meio de uma plataforma terceirizada, estudantes do 2º, do 3º e do 4º ano escrevem e ilustram suas próprias histórias. Vicente canalizou sua paixão: os três livros foram sobre futebol sobre o Grêmio, seu time do coração. Já Flávia escolheu um tema diferente para cada ano: uma floresta encantada, a escola e a sua gata de estimação.
— Foi legal. Eu chegava em casa e já pensava em fazer as atividades, as coisas. Às vezes, eu fazia um esboço bem fraquinho, daí depois eu só passava caneta, pra não ficar marcado — relata a pequena.

Parte de um plano
Se, para os alunos, a leitura e a escrita aparecem em forma de gincanas, livros produzidos por eles mesmos e temas de seu interesse, por trás dessas atividades há um planejamento pedagógico pensado justamente para disputar a atenção das crianças com o universo digital.
Nas duas escolas visitadas pela reportagem, o desafio não é afastar os estudantes da tecnologia, mas fazer com que ela não substitua habilidades consideradas essenciais para a alfabetização e para o domínio da língua portuguesa.
Escola Crescer
Na Escola Crescer, em Porto Alegre, o trabalho começa antes mesmo da alfabetização formal. Segundo a professora Priscila Fraga, desde a Educação Infantil as crianças desenvolvem atividades voltadas à coordenação motora, como rasgar, colar e amassar materiais, para preparar os movimentos necessários à escrita manual. Ao longo desse percurso, também têm contato com diferentes tipos de letras, ainda que a cursiva só passe a ser ensinada sistematicamente no 2º ano.
Para a diretora da instituição, Eneida Becker, o desafio não é disputar espaço com a tecnologia, mas garantir que ela caminhe ao lado de habilidades fundamentais para o desenvolvimento da linguagem.
A tecnologia não pode ser vista como a nossa inimiga. O que a gente tem que fazer é equilibrar esse avanço digital com as habilidades essenciais da criança. Ela precisa ler, interpretar, argumentar, ampliar o vocabulário, organizar as ideias e produzir textos coerentes.
ENEIDA BECKER
Diretora da Escola Crescer, de Porto Alegre
Em uma das atividades desenvolvidas com alunos do 5º ano, depois da leitura de um livro, os estudantes utilizaram a plataforma Padlet para compartilhar reflexões e gravar pequenos vídeos. Em outro projeto, entrevistaram os próprios familiares sobre segurança na internet e, a partir dessas conversas, produziram textos. A ideia, segundo a professora Vanessa Grasel Libio, é fazer com que a tecnologia desperte a reflexão, e não substitua a escrita.
Escola Santa Cruz
A lógica é semelhante na Escola Municipal Santa Cruz, em Farroupilha. Embora utilize Chromebooks nas salas de aula e incentive o uso de recursos digitais, a instituição mantém a leitura, a reescrita e a produção textual como pilares do trabalho desenvolvido desde a Educação Infantil.
Segundo a diretora Fernanda Aguiar, os estudantes são estimulados a escrever sobre temas com os quais se identificam, revisando e reescrevendo os próprios textos.
— Eles produzem, reescrevem, refazem. É através disso que o conhecimento se consolida — resume.
Para a vice-diretora Veridiana Brustolin, a motivação aumenta quando os alunos percebem que escrevem para alguém além do professor.
O aluno daqui é o mesmo de qualquer outro lugar, com os mesmos anseios e dificuldades, uns com família presente, outros nem tanto. Quando participamos de olimpíadas, de concursos, damos intencionalidade para o que eles aprendem. Para de ser 'escrever por escrever'
VERIDIANA BRUSTOLIN
Vice-diretora da Escola Municipal Santa Cruz, de Farroupilha
Desafios antes da escrita
A professora da Faculdade de Educação da UFRGS Luciana Piccoli afirma que as dificuldades enfrentadas hoje pelas escolas vão além da concorrência entre livros e celulares.
Segundo a pesquisadora, que é vice-líder do Grupo Aula: Alfabetização, Linguagem e Ensino, as crianças de hoje cresceram em uma infância muito diferente daquela vivida pelas gerações anteriores, marcada por mais tempo diante das telas, menos brincadeiras ao ar livre e menos experiências que exigem concentração, persistência e interação presencial. Essas mudanças afetam justamente habilidades que servem de base para a alfabetização.
A vida analógica tem feito muita falta para as crianças. O livro físico, a escrita à mão, as brincadeiras, o contato com a natureza... Tudo isso ajuda a desenvolver funções cognitivas fundamentais para a aprendizagem, como atenção sustentada, memória, persistência e flexibilidade para resolver problemas
LUCIANA PICCOLI
Professora da Faculdade de Educação da UFRGS
Conforme a docente, aprender a escrever em letra cursiva é um exemplo de atividade que exige esse conjunto de capacidades. Diferentemente da digitação, o traçado contínuo das letras demanda coordenação motora, processamento visual, linguagem e persistência para que o cérebro consolide novas conexões neurais. Por isso, defende que a escrita manual continue presente na alfabetização.
Para Luciana, a discussão não passa por abandonar a tecnologia. Ela cita a Suécia, que voltou a investir em livros impressos e na escrita em papel após identificar prejuízos na leitura profunda e na produção textual. A principal lição, diz, é equilibrar os dois suportes.
— Não é abandonar o digital. É garantir que as crianças também desenvolvam habilidades que dependem da escrita manual e dos materiais físicos. Os estudos mostram que esses processos são diferentes e complementares — afirma a professora.
Na prática, diz a pesquisadora, o desafio também não pode ser atribuído apenas às famílias. Ela lembra que o excesso de telas é um fenômeno social que atinge adultos e crianças, e defende que escolas e poder público orientem os responsáveis sobre a importância de reservar momentos sem celulares para conversar, ler e compartilhar experiências.
— As crianças estão chegando à escola com déficits linguísticos preocupantes porque a interação face a face ficou muito empobrecida. Elas recebem comandos, mas muitas vezes têm poucas oportunidades de conversar. A oralidade também faz parte do processo de alfabetização — destaca a docente.
De acordo com Luciana, pesquisas conduzidas por seu grupo mostram que muitas dificuldades de alfabetização estão ligadas também a fragilidades em funções executivas, como memória de trabalho, atenção e flexibilidade cognitiva. Por isso, brincadeiras, jogos e outras atividades que desenvolvam essas capacidades também contribuem para o letramento.


