
Levantamento conduzido pelo governo do Rio Grande do Sul sobre a restrição do uso de celular nas escolas da rede pública estadual revela que as regras estão sendo seguidas, na maioria das instituições, mas ainda há desafios para se chegar no cenário esperado.
Dos 2.381 professores que responderam à pesquisa, sete em cada 10 (76%) acreditam que a implementação da lei deu certo. Outros 23% afirmaram que muitos estudantes ou a maioria não respeitam a restrição.
Entre os 2.217 gestores consultados, 85% responderam que a proibição está sendo efetiva, e 15% observam desafios na implementação.
Entre os estudantes, a percepção é um pouco diferente. Dos 5.601 que participaram do estudo, 69% acreditam que a restrição está funcionando, e outros 26% observam que muitos colegas (ou a maioria) não respeitam a restrição.
Em relação ao impacto na aprendizagem, 90% dos gestores e 84% dos professores percebem benefícios em termos de participação dos alunos na aula e maior concentração. Já entre os alunos, 59% observam efeitos positivos nas aulas.
— O celular estava sendo usado sem orientação, quase que só para entretenimento, para TikTok e bets. É claro que o uso pedagógico do celular ainda é importante em algumas circunstâncias, e alguns professores, poucos, têm usado. Eu digo poucos porque hoje nós temos um chromebook para cada três estudantes. O que poderia ser feito no celular pode ser feito no chromebook — avalia a secretária da Educação do RS, Raquel Teixeira.
Embora a regra seja respeitada na maioria das escolas consultadas, o levantamento, conduzido entre 2025 e 2026, indica que a resistência de famílias e alunos ainda é preocupante. Conforme 13% dos gestores e 18% dos professores, muitas vezes há atritos com estudantes, pais e responsáveis em relação à restrição do aparelho.
No total, a pesquisa do governo do RS contou com 10.389 entrevistados, entre alunos e equipe escolar. Em vigor desde o ano passado, a Lei 15.100/2025 já é implementada em 92% das escolas brasileiras, segundo o Ministério da Educação. A medida vale para as três etapas da Educação Básica.
A legislação autoriza que os estudantes levem celulares para as escolas, mas o uso fica restrito a situações excepcionais, como emergências, necessidade de saúde ou força maior. A lei permite ainda o uso dos dispositivos para fins pedagógicos ou didáticos, mediante orientação dos professores.
Desafio do armazenamento
Quanto ao espaço para armazenar os dispositivos, as práticas variam entre as escolas da rede. Boa parte dos gestores informou que a orientação é manter os aparelhos com os próprios estudantes, com a recomendação de que permaneçam desligados e guardados na mochila. Em seguida, aparece a opção de manter o aparelho em lugar apropriado, como armários ou caixas, sob a supervisão da equipe diretiva.
A maior parte dos alunos leva o aparelho para a escola – os casos em que o aparelho é deixado em casa são minoria. Abaixo, confira as respostas de cada grupo sobre o método de armazenamento dos smartphones:
- Na mochila: 40% – diretores; 39% – professores; 32% – alunos
- Em armário/caixa com a direção: 24% – diretores; 22% – professores; 30% – alunos
- Em armário/caixa na sala de aula: 21% – diretores; 26% – professores; 21% – alunos
- Em casa: 12% – diretores; 9% – professores; 11% – alunos
Conforme diretoras e professoras ouvidas pela reportagem, em muitos casos, faltam recursos para adquirir um armário ou locker para guardar os aparelhos com a devida segurança, o que acaba dificultando o controle da restrição. As gestoras lamentam que nem sempre há verba o suficiente para adquirir a infraestrutura necessária, como nas escolas particulares.
Segundo a titular da Seduc, a principal recomendação da pasta é que sejam adquiridos armários específicos para guardar os aparelhos de forma adequada:
— A orientação não é deixar o celular na mochila. Essa é uma possibilidade em último caso, mas a primeira recomendação é que cada diretor, com o recurso do Agiliza, providencie um armário em cada sala de aula. O aluno chega, põe o celular no armário, fecha o armário. No final da aula, abre e pega. O celular é pequeno, um armário serve para toda a turma — diz Raquel.
Outra opção recomendada é ter um armário sob supervisão da direção. Assim, cada aluno entrega o dispositivo ao chegar na escola e retira na hora da saída. Essa é a segunda estratégia mais comum na rede apontada na pesquisa, depois do método da mochila.
Hora do recreio
Conforme Raquel, mudou a dinâmica dos recreios por conta da restrição ao uso dos smartphones, e cada vez mais os alunos interagem entre si:
— Eu visitei várias escolas em que o recreio é uma alegria. Tem aluno que até reclama, diz que está barulhento demais, porque eles estão acostumados a ficar quietinhos no celular, aí tem uma certa intolerância ao barulho, o que mostra que eles já estavam desaprendendo a convivência. Recreio de escola sempre foi barulhento, e faz parte.
Sobre relatos de escolas em que ainda é permitido o uso do dispositivo no intervalo das aulas, a secretária afirma que não tem conhecimento e que essa não é a orientação da Seduc. Para 85% dos professores e 89% dos gestores, o impacto no recreio foi positivo, com maior socialização entre os estudantes.
Para as crianças e adolescentes a percepção é outra – 25% afirmam que o impacto foi neutro, e 23% acreditam que o impacto foi negativo, com os alunos muito agitados no recreio.


