Um ano após a entrada em vigor da lei que restringe o uso de celulares no ambiente escolar, o balanço é positivo, mas ainda há barreiras na implementação das regras. Para os educadores ouvidos por Zero Hora, já são percebidas mudanças na rotina, mas há um longo caminho pela frente para se chegar a um cenário ideal, principalmente nas escolas públicas.
Os relatos se relacionam com dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC). Conforme levantamento sobre a implementação da Lei nº 15.100/2025, 92% das escolas brasileiras já aderiram à legislação. No entanto, 39% dos gestores apontam alta dificuldade para conquistar a adesão dos estudantes às restrições.
No Colégio Estadual Protásio Alves, no bairro Azenha, em Porto Alegre, os alunos seguem em adaptação à nova realidade.
— A gente deixa ele guardado na mochila. Aí, caso tenha alguma atividade didática que o professor peça para usar celular, a gente utiliza. No recreio a gente sempre fica com o celular, para ter aquela segurança de sair da sala, mas em aula a gente deixa na mochila — conta a aluna Ellen Brasileiro, do 1º ano do Ensino Médio.
Um dos principais desafios é justamente de segurança e infraestrutura: 39% dos gestores consultados pelo MEC relatam dificuldade para garantir equipamentos adequados para guardar os aparelhos. No Protásio, a partir da lei, foram compradas caixas onde os alunos deixam o celular em dias de prova.
Nos outros momentos, o dispositivo deve ficar dentro da mochila – em 62% das escolas essa é a orientação, segundo a pesquisa do MEC. Mas nem todos aderem às normas, principalmente os mais velhos.
— Os alunos do 1º ano (do Ensino Médio) têm menos resistência do que os segundos e terceiros anos. Porque os mais velhos já têm essa cultura de usar muito o celular, então, é mais difícil — diz a professora e vice-diretora do Protásio Alves, Kátia Martini.
Mais atenção nas aulas
A gestão também observa ganhos importantes, como maior atenção em sala de aula, mais interação durante as atividades e um aumento na procura por livros e pela biblioteca. E a tecnologia segue presente, com o uso recorrente de chromebooks.
— A partir da lei, os alunos tiveram que fazer pesquisas, foi uma grande campanha de conscientização aqui no colégio, e já temos consequências positivas. Os alunos estão mais atentos à sala de aula. A partir do momento que é proibido esse uso ele fica, interage mais com a aula, isso é visível — destaca Kátia.

Para Ellen, de 15 anos, no começo foi mais difícil, mas está se acostumando à rotina com menos tempo de tela:
— Antes a gente usava mais o celular para Instagram, TikTok, coisas que fugiam do uso consciente do celular no ambiente escolar. É um hábito, a gente fica o dia todo com o celular na mão, parece que faz parte do corpo. Hoje em dia, a gente usa também, mas com outros fins, para aprender, mesmo.

Já Leonardo de Carvalho, 15 anos, do 1º ano do Ensino Médio, sempre foi mais apegado ao papel e caneta nos estudos.
— Nunca fui viciado no celular, sempre usei para jogos, mas não aquilo de jogar 10 horas por dia. Sempre fui uma pessoa regrada com o celular e com internet em geral — diz.
Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Victor Issler, no bairro Mário Quintana, os alunos também estão se adaptando, especialmente os do 9º ano do Ensino Fundamental.
— A todo momento a gente tem que ficar lembrando que não pode usar o telefone, para não deixar a lei cair no desuso. Se a gente não ficar toda hora fiscalizando, eles usam, temos que fazer essa conscientização — afirma a diretora, Adriana Martins Presenti.

Mais brincadeiras e convivência
O sinal toca para o recreio e, pela primeira vez em muitos anos, parte dos alunos olha menos para as telas e mais uns para os outros. Essa é a percepção em diferentes escolas consultadas pela reportagem – com a proibição também no intervalo em algumas, professores observam maior diversidade de brincadeiras e melhor convivência.
— Logo que houve a proibição, nós estimulamos outras atividades no pátio da escola, e incentivamos os estudantes a trazerem jogos de casa, para usarem no recreio. Eles começaram a trazer cartas e outros meios para passarem o tempo de um modo diferente. E temos visto muito eles sentados conversando, interagindo — relata a coordenadora pedagógica do Colégio Pastor Dohms, no bairro Higienópolis, na Capital, Rosângela Markmann Messa.
Desde o final de 2024 a escola conta com lockers nas salas de aula, onde os estudantes deixam os telefones durante todo o período no colégio, inclusive no recreio. Cada vez mais, escolas e alunos estão reinventando suas práticas para garantir que a restrição seja efetiva.
Segundo o professor de língua portuguesa e redação Lucas Neves, do Colégio Leonardo da Vinci (unidade Alfa), no bairro Rio Branco, os estudantes estão até escrevendo mais e usando mais caderno, canetinhas e adesivos, retomando o encantamento com o material didático:
— Os alunos estão muito mais presentes na aula, com mais determinação, porque, eles estão mais participativos, interagindo mais. Eu sinto que eles se envolvem mais nas discussões. No caso de português e redação isso faz muita diferença, porque boa parte do trabalho nasce dessa troca de ideias, dessa construção de argumento.
A restrição do uso de smartphones já era uma prática no Leonardo da Vinci antes da legislação.
— Os alunos já conheciam essa diretriz e a lei facilitou muito esse processo. Ela veio para reforçar e dar respaldo a uma prática que nós já adotávamos. A restrição contribui para um ambiente mais favorável, de concentração, aprendizagem e até dentro das relações sociais. Os alunos ocupam mais os espaços físicos da escola, para brincar, rodas de conversa, atividades físicas — diz a diretora, Roberta Fontoura.
Proibição por si só não funciona
Conforme a diretora pedagógica do Sistema Positivo de Ensino, Milena Fiuza, apenas proibir não resolve o problema – a restrição aos aparelhos deve ser acompanhada por outras medidas, como a retomada de práticas tradicionais de convivência, brincadeiras no recreio e estratégias para estimular a interação entre os estudantes.
— O primeiro passo é a proibição, mas precisa de uma constelação de estratégias para que a gente consiga manter isso continuamente, como foi esse primeiro ano, que foi muito bom. Se não, o que vai acontecer é que talvez daqui a um tempo isso vá caindo em desuso e o celular volte para dentro da escola com uma força ainda maior — explica.
Entre as possíveis estratégias para manter a regra firme, ela destaca formação dos professores, para que eles saibam como fazer uso consciente do dispositivo, uma vez que os adultos também têm essa dificuldade. Outra dica é investir na infraestrutura da escola, para que a educação digital ocorra sem depender de smartphones, bem como a intencionalidade pedagógica no processo.
A especialista diz que, ao tirar algo que faz parte da rotina do aluno, é preciso dar alternativas para não gerar um sentimento de vazio.
— Muitas vezes, a escola não tem uma boa estrutura, não tem quadra esportiva em boas condições, não tem espaço verde para as crianças. Então, quando eu tiro aquela coisa que ela gostava, como o celular, eu tenho que dar um espaço bom para ela querer ficar — afirma.
Outro ponto importante é a parceria com as famílias. Milena ressalta que muitos pais e responsáveis ainda não compreendem a importância da restrição e acabam criando empecilhos:
— A família continua ligando para as crianças no horário da escola, mandando mensagem, muitas vezes quando ficam preocupados. E não tem necessidade, porque sempre existe a possibilidade de ligar para a escola.




