
A biblioteca da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Saint Hilaire, em Porto Alegre, deixou de ser um lugar de silêncio para se tornar um espaço onde se discutem literatura, violência sexual, saúde menstrual, masculinidades e cidadania.
Mas os debates que se iniciaram na instituição da Lomba do Pinheiro, na zona leste da Capital, já ganharam o mundo. O trabalho chamou a atenção da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), que convidou a professora responsável, Maria Gabriela de Souza, para apresentá-lo neste mês em Madri, na Espanha.
O Coletivo Luísa Marques, grupo criado pela docente com estudantes, também já esteve em outros pagos para falar da experiência desenvolvida na instituição, como Belo Horizonte, Brasília, Belém, Rio de Janeiro e São Paulo, além de Portugal e Colômbia.
Em entrevista para Zero Hora, Maria Gabriela relembra a própria trajetória, fala sobre os desafios de ser professora e explica por que acredita que a leitura pode ajudar crianças e adolescentes a compreender o mundo.
Com a Palavra
Confira a entrevista:
Sua graduação é em Matemática. Como tu te envolveste com a área da leitura?
Eu sempre fui uma criança leitora. Sou filha de uma professora de português e de um professor de matemática. Meus pais tinham cinco filhos e pouco dinheiro, então os livros eram presentes muito especiais. Minha mãe trabalhava na Escola Martim Aranha e fazia contação de histórias e olimpíadas de língua portuguesa.
Eu acompanhava tudo aquilo e vivia nesse universo. No Ensino Médio, fiz o curso normal no Instituto de Educação General Flores da Cunha, e foi ali que a leitura passou a fazer parte da minha formação como professora.
Depois, escolhi cursar Matemática na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), porque era uma área em que eu tinha facilidade. Mas tive a sorte de encontrar professores que relacionavam a matemática com a leitura, com a história da educação.
Foi ali que comecei a entender o livro como um instrumento de aprendizagem. Hoje, olhando para trás, talvez eu tivesse escolhido Letras, mas foi na Matemática que nasceu a professora que trabalha leitura em todas as áreas. Demorei a terminar a graduação porque engravidei aos 22 anos. Conciliar maternidade e faculdade foi muito difícil.
Por quê?
Foi muito desafiador. Pensei em desistir muitas vezes. A universidade não comportava uma estudante que era, ao mesmo tempo, mãe e trabalhadora. Quando a minha filha tinha um ano, descobri que ela tinha epilepsia e precisei pedir licença para cuidar dela. Fui a um setor da UFRGS e ouvi de uma médica: "Antes de vir aqui, os estudantes têm que ler o manual. Tu não tem direito a licença".
Minha filha estava internada na época, e eu perguntei o que faria. Ela respondeu: "Eu vou te dar a licença, mas tu não tem direito". Aquilo me marcou muito.

O que te permitiu continuar?
Eu tive muito apoio do meu pai e da minha mãe. Eu era mãe solo, eu não me casei. E aí o meu pai, que é professor de matemática, dizia: "Não, mas faz uma disciplina, a gente te ajuda". Eu tive essa rede de apoio quando eu estava na universidade, meu pai ou minha mãe cuidavam da minha filha, e isso me permitiu seguir.
Se eu não tivesse eles, acho que talvez não conseguisse, porque não tinha creche, não tinha um acolhimento.
Nesse sentido, apesar de eu ter esse contato com a leitura, faltou esse lado mais humano da universidade, de ter esse olhar integral para o aluno. O que me fez ficar e continuar, eu acho, foi a leitura. Eu comecei a ler como forma de cuidar dessa dor.
Quando tu chegaste à Saint Hilaire?
Vim parar aqui em 2015, como professora do 5º ano. A direção me chamou e disse: "Temos uma turma muito difícil. Eles não conseguem aprender, expulsam todos os professores da sala de aula. Talvez o que eles precisem seja de acolhimento".
Eu respondi: "Posso tentar, mas não vou fazer milagre". No primeiro dia, os alunos disseram: "A gente mandou todos os professores embora. Tu vai ser mais uma". Eu não conseguia dar aula de português nem de matemática, então comecei a contar histórias.
Aos poucos, eles passaram a perguntar qual seria a próxima história. Foi pela leitura que consegui trabalhar matemática, história e outras disciplinas. Quando percebi, eles já estavam envolvidos nas atividades e a turma tinha mudado completamente.
Naquele ano, surgiu uma mostra de ciências na escola. Era uma turma muito estigmatizada, e eles mesmos diziam que nunca ganhavam nada e que todo mundo dizia que não teriam futuro. Eu disse: "Essa é a oportunidade de mostrar para toda a escola que vocês conseguem".
Qual era o projeto?
Fizemos um trabalho sobre alimentação saudável, porque eles consumiam muitos ultraprocessados e refrigerantes. Pesquisaram os próprios hábitos alimentares e apresentaram o projeto na mostra pedagógica.
Eles venceram. Aquilo mudou como a escola via eles. Mudou como eles se viam. Anos depois, uma daquelas alunas me convidou para a formatura da EJA. Quando recebeu o certificado, desceu do palco, me abraçou e disse: "Tu mudou a minha vida. Se eu estou me formando hoje, é graças a ti".
É isso que um professor sonha em ouvir. A gente não quer só que o aluno passe de ano. Quer vê-lo seguir estudando, construir uma profissão e acreditar que pode chegar onde quiser.
Como tu foste parar na biblioteca?
A direção da escola percebeu o trabalho que eu fazia com a leitura em sala de aula e perguntou se eu não queria levá-lo para toda a escola. Confesso que achei impossível, mas aceitei o desafio. Há sete anos, saí da sala de aula e fui para a biblioteca.
Foi ali que nasceu o Coletivo Luísa Marques, em homenagem a uma aluna que adorava contar histórias e faleceu em decorrência de um câncer.
Chama a atenção que vocês escolheram batizar o coletivo com o nome de uma aluna, e não de uma educadora ou de uma personalidade conhecida. Como foi feita essa escolha?
No início, éramos só três estudantes. Quando fomos escolher um nome para o grupo, eu sugeri escritores conhecidos, mas uma das meninas perguntou: "A gente precisa homenagear alguém famoso? Não pode ser alguém daqui?".
Ela lembrou da Luísa, que participava de todos os projetos da escola, gostava de ler e contar histórias. Conversamos com a família, que recebeu a ideia com muita emoção. A mãe sempre conta que, quando estava no hospital, a Luísa dizia que voltaria para a escola para contar histórias.
Ela não conseguiu voltar, mas, de certa forma, esse legado continua vivo. Acho que foi um grande acerto homenagear uma estudante da nossa própria comunidade.
Muitos estudantes não se interessam por ler. Como tu fizeste para atraí-los para dentro da biblioteca?
Quando cheguei, a biblioteca era um espaço muito tradicional: silêncio, ficha de leitura e estantes. Com o Coletivo Luísa Marques, a gente entrou com outra proposta: ler para compreender o mundo. A biblioteca deixou de ser um lugar de obrigação e passou a ser um espaço de convivência.
Ali a gente pode ler, conversar, ver um filme, assistir a uma peça e discutir temas que fazem parte da vida dos estudantes. Em vez de começar pelos clássicos, começamos pelos interesses e pelas questões que eles trazem.
O coletivo começou com dois meninos e uma menina, e depois, passou a ter apenas meninas. Como está agora?
Agora, temos três meninos no coletivo. Neste ano, durante a Semana da Menstruação, fomos apresentar as atividades nas turmas e eu comentei que haveria uma oficina voltada para os meninos, sobre como eles podem apoiar as pessoas que menstruam.
Um aluno perguntou: "Professora, quando a senhora vai fazer um projeto dos guris?". Eu respondi brincando que estava pensando em um projeto sobre violência contra as mulheres. Para minha surpresa, quase toda a turma levantou a mão dizendo que queria participar.
Três deles insistiram tanto que acabaram entrando para o coletivo. Junto com as meninas, criaram um novo projeto, chamado "Quando o menino vira monstro?", para discutir masculinidades e envolver os guris nessa conversa. As próprias meninas entendem que esse diálogo só faz sentido se eles também fizerem parte dele.
Como lidar com questões delicadas, como violência sexual, saúde mental e igualdade de gênero, em um contexto de polarização política?
O primeiro passo foi entender que também precisávamos formar os professores. Antes de trabalhar temas como menstruação ou violência sexual com os estudantes, conversamos com a equipe para explicar por que aquilo era importante e como abordar esses assuntos. Ainda existe muito tabu, e os professores também precisam se sentir seguros. Percebemos que, muitas vezes, não adiantava dizer que estávamos falando de educação sexual.
O que fazemos é trabalhar saúde, proteção e direitos das crianças. Elas precisam conhecer o próprio corpo, inclusive o nome correto das partes íntimas, porque isso pode fazer diferença quando precisam denunciar uma violência.
Tivemos o caso de uma menina que contou que o tio havia tocado no "biscoito" dela, e ninguém entendeu o que ela queria dizer. São situações como essa que mostram por que esse trabalho é tão necessário.
Como o coletivo foi ganhando repercussão?
O projeto que realmente deu visibilidade ao coletivo foi o Garotas de Vermelho, sobre saúde menstrual. Começamos a apresentá-lo em mostras pedagógicas e científicas e percebemos que despertava muito interesse. Já tínhamos escrito o livro De onde é esse sangue, Joana? e passamos a receber convites para participar de eventos e compartilhar a experiência.
Depois veio o desafio Liga Jovem, do Sebrae. Criamos um kit de saúde menstrual para garantir a sustentabilidade do projeto. As meninas pesquisaram fornecedores, levantaram recursos vendendo doces e materiais de papelaria e produziram os primeiros kits, que se esgotaram rapidamente.
Hoje, já foram vendidos mais de 500 kits, produzidos por costureiras da própria comunidade, gerando renda para mulheres do bairro. Foi esse conjunto de iniciativas que levou o coletivo a ganhar projeção nacional e internacional.
Tu falas muito desse coletivo como algo das próprias alunas. O que espera que elas façam, no futuro, com esse projeto?
Uma das alunas vai fazer 18 anos no ano que vem. Eu digo para ela: "Quando fizer 18 anos, abre um negócio". Porque ela já saiu da escola, e toda essa repercussão do Garotas de Vermelho levou o coletivo para outras escolas. Eles já passaram por mais de 30 escolas com esse projeto. Acho que a gente precisa dar um passo à frente, um passo que já não cabe mais dentro da escola. Eu fico muito orgulhosa.
Já disse para elas que essa será a primeira edtech criada por crianças e adolescentes (uma organização que possa seguir com o projeto), e que nasceu em uma escola municipal da periferia. Isso também é inovador. Pensa: o que um professor espera de um aluno? A gente sonha que ele vá adiante.
Porque, na periferia, os alunos convivem com muita desigualdade. Imagina: existe uma política pública para distribuição de absorventes, mas, para conseguir um, as meninas precisam ir até a avenida. Olha a distância. E se estiver chovendo? E, no caminho, quanta coisa pode acontecer com uma menina até ela chegar lá.
Eu lembro que o Unicef nos pediu para fazer um vídeo sobre essa política pública. Queriam que a gente mostrasse o caminho até uma farmácia. Então, fizemos exatamente o percurso que elas fariam. Durante o trajeto, elas foram assediadas várias vezes por homens que passavam.
Quando chegamos à farmácia, descobrimos que nenhuma das farmácias aqui da Parada 16, que são as mais próximas da escola, estava credenciada para fornecer absorventes pelo programa do governo. A política pública existe, mas ela não chega de fato aqui.
Mesmo assim, as meninas não ficam trazendo apenas o lado negativo das coisas. Elas falam da menstruação de uma forma bonita, acolhedora, respeitosa. É assim que abordam vários temas difíceis. Eu sinto que cheguei aonde queria. Se eu me aposentasse hoje, me aposentaria feliz. Acho que cumpri meu papel.








