
A pesquisadora norte-americana Deborah Stipek dedicou a carreira a estudos sobre a Educação Infantil, sobretudo ao ensino de matemática nos primeiros anos da trajetória escolar. Professora emérita da pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, a especialista também é psicóloga do desenvolvimento, com doutorado pela Universidade Yale.
Sua pesquisa se concentra em desenvolvimento infantil, primeira infância, motivação acadêmica e aprendizagem matemática precoce. Deborah ajudou a criar o método Development and Research in Early Mathematics Education (Dreme) – Desenvolvimento e Pesquisa em Educação Matemática na Primeira Infância, em tradução livre.
Ela esteve em São Paulo em junho, para participar de evento promovido pelo Instituto Reúna, quando conversou com Zero Hora. Na visão de Deborah, as oportunidades oferecidas às crianças já na Educação Infantil influenciam seu desenvolvimento cognitivo, sua trajetória escolar e suas possibilidades de aprendizagem.
Ela entende que a promoção da aprendizagem matemática desde a primeira infância é uma das estratégias mais promissoras para reduzir desigualdades educacionais.
Com a Palavra
Veja a entrevista:
Dados do Pisa revelam que 27% dos alunos brasileiros alcançaram o nível 2 de proficiência em matemática, considerado o patamar mínimo de aprendizado. Apenas 1% dos estudantes conseguiram os níveis 5 ou 6. O que isso revela?
Dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, responsável pelo Pisa – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) mostram que, entre todos os países avaliados, considerando crianças de cinco anos, o Brasil ficou na última posição em matemática para essa faixa etária.
Ou seja, aos cinco anos, muitas crianças brasileiras já sabem menos matemática do que crianças da maioria dos outros países avaliados.
Então, não estamos falando apenas de dificuldades que surgem no início da escola. Estamos falando do que as crianças aprendem antes mesmo de entrar na escola. E o estágio de aprendizagem em que as crianças estão nesses primeiros anos de vida é um indicador forte do desempenho que terão mais tarde.
A maioria das crianças aprende a contar até cinco ou 10, conhece formas como triângulo, círculo e quadrado e adquire algumas noções matemáticas antes de começar a vida escolar. Por isso é importante concentrar esforços nas crianças bem pequenas. No mesmo estudo da OCDE, o Brasil teve bons resultados em alfabetização. Já em matemática, ficou muito abaixo da maioria dos outros países.
Então, o trabalho realizado na alfabetização deu resultados. Se houver foco, investimento e atenção direcionados à matemática, é possível alcançar avanços semelhantes
O que devemos fazer de diferente na primeira infância? Como romper com esse ciclo?
A matemática é uma disciplina que, em geral, não é ensinada muito bem. Em estudos conduzidos nos EUA, a maioria das crianças nos primeiros anos do Ensino Fundamental considera a matemática sua matéria favorita. Mas, quando chegam às séries mais avançadas, muitas passam a odiá-la.
E não é porque elas mudaram. É porque o ensino se torna monótono e desinteressante. Na matemática, as crianças começam a se preocupar em encontrar a resposta certa. Isso gera ansiedade. A ansiedade matemática é muito comum. É comum entre as crianças, entre os adultos e também entre os professores.
Muitos professores escolhem trabalhar com crianças pequenas porque acreditam que não são bons em matemática e não querem ensinar conteúdos mais avançados, pois têm medo da disciplina. O mesmo acontece com muitos pais, que também sofrem de ansiedade matemática.
O que aprendemos nas pesquisas é que professores e pais com ansiedade matemática podem transmitir isso para as crianças. Elas observam essas atitudes e absorvem essa relação negativa com a matemática. É assim que esse ciclo se forma.
Você defende que a alfabetização matemática deve ser uma das prioridades da Educação Básica. Por que?
Aprender matemática envolve muito vocabulário. A matemática está profundamente conectada à alfabetização e à linguagem. Quando as crianças aprendem conceitos como “longo”, “curto”, “largo”, “grande”, “pesado” e “alto”, elas estão aprendendo vocabulário.
Portanto, a matemática contribui para o desenvolvimento da linguagem e da alfabetização.
Além disso, existem evidências relacionadas às funções executivas, as nossas capacidades cognitivas. Elas incluem, por exemplo, a memória de trabalho, a capacidade de manter informações na mente e utilizá-las para resolver problemas.
Também existe o controle inibitório. É a capacidade de não aceitar imediatamente a primeira resposta que vem à mente, mas parar e refletir. Há ainda a flexibilidade cognitiva. Quando você chega a uma resposta e pensa: “Isso não parece certo. Vou tentar uma estratégia diferente”. É a capacidade de mudar de abordagem.
Então, praticar matemática traz benefícios adicionais: desenvolve vocabulário, fortalece habilidades de alfabetização e desenvolve capacidades cognitivas fundamentais para toda aprendizagem. Além disso, a matemática é a base da maior parte das ciências. É muito difícil fazer ciência sem matemática.
Por que é difícil para algumas crianças compreender conceitos matemáticos?
Na verdade, não é tão difícil para as crianças compreenderem conceitos matemáticos quando recebem oportunidades adequadas. Acho que algumas crianças têm dificuldades com matemática porque a forma como ensinamos não é muito amigável para elas.
Então, o problema não está nas crianças, mas na forma como ensinamos e oferecemos oportunidades de aprendizagem, especialmente para crianças de famílias de baixa renda, considerando as desigualdades de um país como o Brasil.
Como podemos aperfeiçoar esse processo de aprendizagem?
A primeira coisa é ter uma visão muito clara de como é um ensino eficaz para crianças pequenas. Essa visão precisa ser baseada em pesquisas que mostrem o que realmente funciona com crianças pequenas.
Não apenas a formação de professores deve estar alinhada a essa visão, mas também os materiais didáticos, o currículo e tudo ao redor precisam seguir essa mesma orientação.
Isso também exige mais formação e apoio do que os professores recebem no Brasil ou nos Estados Unidos, provavelmente. Porque ensinar matemática às crianças de forma eficaz requer muita habilidade.
Qualquer professor terá alunos chegando à sala de aula com níveis de conhecimento muito diferentes. Algumas crianças conseguirão contar até 20 aos quatro anos. Outras talvez nem saibam o que é o número quatro ou não consigam contar até cinco.
Por isso, os professores precisam individualizar o ensino. Precisam ajudar a criança que já conta até 20 a avançar além disso, enquanto trabalham com aquelas que ainda não entendem o conceito de número, respeitando o nível em que se encontram. Isso exige muita habilidade: ser capaz de desenvolver atividades adequadas e adaptadas ao nível de conhecimento de todas as crianças da turma.
Quais estratégias pedagógicas contribuem com isso?
O professor precisa tornar as atividades envolventes e lúdicas. Isso requer muito planejamento, pensar no que será interessante e atraente para as crianças pequenas, além de ter os materiais preparados e organizados.
Crianças de quatro anos não estão preocupadas com notas nem com entrar na universidade. E muitas delas também não estão necessariamente preocupadas em agradar o professor. Então, se você não propuser atividades realmente interessantes e envolventes, elas não vão querer fazê-las.
Uma das coisas que constatamos entre professores da Educação Infantil é que esforços intensos, duradouros e consistentes para ajudá-los a ensinar melhor também fortalecem sua própria confiança em matemática.
Você ajudou a desenvolver o método Dreme. Como funciona essa estratégia?
Quando pensam no ensino de matemática, muitos professores imaginam folhas de exercícios, lápis e papel. Mas isso não é apropriado para crianças de quatro, cinco, seis ou até oito anos. Elas precisam usar objetos e ferramentas para fazer matemática, o que é muito mais divertido e envolvente, e é isso que tentamos mostrar por meio do Dreme.
O site foi criado tanto para professores quanto para formadores de professores. Uma das coisas que percebemos nos Estados Unidos é que as pessoas que formam professores muitas vezes não conhecem métodos criativos e lúdicos de ensino da matemática. Portanto, se queremos que uma nova geração de professores aprenda a ensinar dessa forma, precisamos trabalhar também com quem forma esses professores.
O site também tem materiais para pais, com atividades que podem ser realizadas em casa e integradas às tarefas do dia a dia. Por exemplo, quando estiverem no supermercado, eles podem pedir que a criança conte quantas laranjas estão colocando na sacola. Ou, ao observar caixas de cereal, perguntar qual é a mais larga, qual é a mais comprida, qual é a mais pesada. São recursos que auxiliam.








