A inclusão da educação ambiental nos currículos das escolas e o enfrentamento das mudanças climáticas estão entre as metas do novo Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado este ano pelo governo federal. Com a tendência de eventos climáticos extremos se tornarem cada vez mais frequentes, impõe-se a necessidade de conscientizar as comunidades escolares.
Desde 2014, a antropóloga Rachel Trajber se dedica a esse trabalho, coordenando o programa Cemaden Educação, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Ela esteve em Porto Alegre neste mês para o 75º Fórum da Associação Brasileira das Reitoras e Reitores das Universidades Estaduais e Municipais, sediado na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs).
No encontro, a pesquisadora destacou o papel da extensão universitária, das escolas e das comunidades na prevenção de desastres socioambientais. Na visão dela, esse é um dos caminhos para ampliar a resiliência territorial diante das mudanças climáticas.

Conforme dados do Cemaden, mais de 3 milhões de pessoas estão vinculadas a escolas localizadas em áreas de risco hidrológico e geológico no Brasil. Durante palestra, a especialista destacou que a emergência climática intensifica desigualdades sociais e amplia vulnerabilidades já existentes, especialmente em comunidades periféricas, quilombolas, indígenas e de pequenos agricultores.
Em entrevista para Zero Hora, Rachel comentou sobre esse trabalho e a importância da educação ambiental e climática nas escolas.
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Você fala muito em construir uma cultura de prevenção nas escolas. O que significa isso, na prática?
Educação é sinônimo de prevenção e proteção. A gente não pode querer que as escolas participem na resposta à mudança do clima, aos desastres, por exemplo. A escola não tem que fazer isso. A escola produz conhecimento e leva para as suas comunidades, incluindo as comunidades nessa produção de conhecimento, e aí interage com outras instituições.
Mas a escola fica muito mais potente se ela produz conhecimento, dialoga com a sua comunidade e trabalha com essa dimensão da educomunicação, em que ela acaba se comunicando com a sua comunidade, mas também ampliando a voz por meio dos meios de comunicação. E isso a gente só vai conseguir fazer se a gente estiver trabalhando nessa capilaridade, com as extensões das universidades, que levam formações para cada escola de forma mais aprofundada, porque é uma mudança muito grande na escola.
A gente precisa mudar. Precisamos de polos regionais articulados por universidades com ações de extensão voltadas à formação híbrida de estudantes, professores e comunidades escolares.
Vocês realizam esse trabalho de aproximação com as universidades por meio do Cemaden Educação? Como funcionam essas parcerias?
Sim, um dos focos é o TeAR (Territórios de Alto Risco: Educação Ambiental e Redução de Riscos de Desastres no Novo Regime Climático), que propõe uma atuação intersetorial e transdisciplinar, envolvendo universidades, escolas e comunidades em territórios vulneráveis. Estamos formulando um novo projeto, em parceria com as universidades, focando em três âmbitos: educação e redução de riscos de desastres; educação ambiental e climática; mas também nas questões do futuro, caminhos possíveis que podemos construir juntos.
Desde pequenas as crianças precisam aprender que existem saídas, existem alternativas, e uma delas é a relação com a ancestralidade, com o bem viver indígena, por exemplo.
Você defende que a educação ambiental e climática deve integrar práticas pedagógicas permanentes e dialogar com os saberes científicos, tradicionais e comunitários. Qual é a diferença entre educação ambiental e climática?
A educação ambiental tem um acúmulo histórico com características muito especiais, que é uma educação ambiental que é crítica ao sistema que gera a degradação ambiental, é participativa, que tem metodologias. E emancipatória, que a gente consegue, a partir dessa crítica e da participação, transformar a situação que foi construída historicamente.
E que a gente pode desconstruir e colocar alternativas no local. Isso é a educação ambiental. E quando agora chega a questão climática e do aumento e a intensidade dos desastres, mas também os impactos sobre a alimentação, sobre a biodiversidade, a saúde das pessoas, e tudo isso junto precisa ter o embasamento da educação ambiental e você inclui a questão climática, mas com base na educação ambiental.
A educação somente climática pega só na ponta, abordando fontes de energia, por exemplo. Sim, a gente pode falar sobre as fontes de energia, mas não é só isso, é dentro de toda uma visão de mundo que precisa ser transformadora.
Os alertas para o risco de El Niño intenso ganharam força ao longo das últimas semanas. Apesar da magnitude das inundações também depender de outros fatores, isso amplia o risco de enchentes no RS. O que devemos fazer de imediato para mitigar os efeitos, caso isso se concretize?
Mitigar a gente não consegue, a gente consegue adaptar. Muita coisa deveria ter sido feita. E não dá para pensar só no Rio Grande do Sul, só em excesso de água. Tem a falta de água que pode ser gerada pelo super El Niño na Amazônia, pode ter secas enormes, e tem as queimadas. E o agronegócio, em geral, esses interesses que vão destruindo as bases de sustentação da vida no planeta. E está aumentando o calor. Quer dizer, são algumas consequências que já estavam aí.
El Niño já existia. Mas agora a gente tem a ciência que traz essas informações. Nós estamos dialogando com o Instituto Alana, para pensar como as escolas podem se proteger.
É muito difícil, mas diante dessas coisas, é preciso ter conhecimento e entender o que está acontecendo e como cuidar da sua própria comunidade, saber para onde vai, como fazer se excesso de água, se sai de casa, e em que condições fazer isso.
Já ocorreu aqui no RS esse trabalho?
Por experiência própria, o Rio Grande do Sul acabou construindo outras bases, os planos de contingência das escolas, por exemplo. Mas é muito complexo você chegar em cada escola de uma forma mais embasada. Então, é um processo bastante lento e que queremos propor para o Brasil.
A gente já veio aqui trabalhar módulos do curso com diretores de escolas, e em outra ocasião para um evento sobre educação integral, que é muito próxima da educação ambiental e climática. Tem muitos trabalhos sendo feitos.
O quanto da tragédia pode ser evitado com prevenção e conscientização da população?
O meu lado é da educação, e eu acho que a gente pode radicalizar e mostrar essas outras formas de ser e de viver e de conviver nas escolas, na educação, para voltar para essa questão de prevenção e proteção.
As coisas estão acontecendo, a gente não consegue voltar atrás. O novo regime climático é definitivo e a gente precisa pensar como que é essa educação, que nação a gente quer construir, que cidadania é essa.
