Quando Rosalind Wiseman publicou o livro Queen Bees and Wannabes (algo como Abelhas-rainhas e Seguidoras, embora a tradução não preserve o trocadilho em inglês), em 2002, a internet ainda não era esse ambiente indissociável da vivência de adolescentes que é hoje.

A obra, que inspirou o filme sucesso de bilheterias Meninas Malvadas, de 2004, fala sobre as dinâmicas existentes dentro de uma escola, com a presença de grupos mais populares que, às vezes, podem ser cruéis e excludentes em relação a outros alunos.
A autora e palestrante, hoje com 57 anos, seguiu pesquisando sobre o tema e, em meados de abril deste ano, esteve em Porto Alegre para dar palestras e capacitações para pais, alunos e professores da Pan American School, quando concedeu uma entrevista exclusiva à Zero Hora.
Entre as recomendações da educadora, está reconhecer a complexidade envolvida em situações de bullying tanto para a vítima como para agressores e testemunhas da situação.
Com as devidas estratégias, Rosalind assegura que adultos podem estar mais próximos e prevenir o agravamento desses conflitos.
Quando você escreveu Queen Bees and Wannabes, a internet tinha pouca presença no cotidiano dos estudantes. O que mudou com a tecnologia e as redes sociais?
Não pensamos com a devida frequência sobre o impacto de os jovens saberem que os adultos criaram uma ferramenta pensada justamente para mantê-los conectados e piorar a saúde mental deles. E, para mim, essa é a base de todas as questões envolvendo as redes sociais. Estamos constantemente discutindo e tentando equilibrar o lado bom e o lado negativo delas, mas muito disso tem a ver com o fato de os adultos não quererem assumir a própria responsabilidade pelo impacto dessas plataformas e depois dizerem aos jovens que eles são viciados nelas. É difícil que os jovens levem nossos conselhos a sério se tudo o que dizemos é: “você está viciado no telefone”.
E o bullying, mudou? Ele se manifesta de forma diferente em escolas de elite e escolas públicas?
A base do bullying, não importa qual seja a escola, tem algumas dinâmicas semelhantes. Envolve uma pessoa que tem mais poder no grupo e escolhe abusar desse poder contra alguém mais vulnerável. Esse é o caso, não importa qual seja a escola. Uma questão é que há muitos mecanismos e ferramentas que podem ser usados para humilhar uma criança. Se crianças do 2º ano, porque suas famílias têm dinheiro, podem ter um Apple Watch ou smartphones em idades muito precoces, elas têm uma arma nas mãos que pode realmente machucar umas às outras. Se não tivessem esses recursos, não teriam essa arma.
Os adultos não querem assumir sua responsabilidade pelas redes sociais. É difícil que os jovens levem nossos conselhos a sério se tudo o que dizemos é: 'você está viciado no telefone'.
A forma como as escolas agem em relação ao problema se assemelham?
O que realmente importa é que tendemos, em diferentes tipos de escolas, ou a ser muito duros com as crianças e tentar controlá-las e fazê-las obedecer, o que não funciona, ou deixarmos de responsabilizá-las pelo comportamento como deveríamos, e isso também não ajuda. Quando temos a predominância de uma dessas duas coisas na interação com jovens, eles sofrerão, não importa quanto dinheiro tenham.
E como os adultos podem lidar com situações de bullying sem piorá-las?
Esse é o grande medo, não é? Ao redor do mundo, o que as crianças me dizem é: “não quero contar a um adulto porque vai piorar”. Onde quer que eu esteja, Brasil, Estados Unidos, China, Espanha, é sempre assim. Precisamos definir para os jovens o que significa “piorar”. Às vezes eles realmente precisam da nossa ajuda, porque estão sofrendo sozinhos. Há um equilíbrio entre querer que as crianças resolvam sozinhas e saber quando pedir ajuda a um adulto. Quando digo isso aos jovens, eu digo: nem todos os adultos são bons em ouvir, mas isso não significa que todos sejam terríveis. Alguns são bons.
Quais são as características desse adulto que é um bom ouvinte?
É preciso que ele seja direto, diga a verdade, escute de fato, não dê sermão, responsabilize os jovens e os incentive a fazer coisas difíceis. Também deve acreditar neles e desafiá-los quando for preciso olhar a situação de outra maneira. Inclusive assumindo responsabilidade pelo que fizeram e pelo que contribuiu para o problema.
Sim, provavelmente é difícil ser pai ou mãe de um "bully" (agressor, em inglês).
É muito difícil, e as crianças, na maior parte do tempo, não são “bullies” ou “queen bees”. Fica mais fácil se olharmos para esses comportamentos e dissermos: neste momento, é isso que essa pessoa está fazendo. Porque não queremos criar uma profecia, como “é assim que você é, e é assim que sempre será”. Queremos que as crianças saibam que acreditamos que elas podem mudar para melhor.
Quais são os erros mais comuns que os professores cometem ao tentar mediar conflitos entre estudantes?
Professores de crianças mais novas tendem a pensar na criança como um todo. Conforme as crianças ficam mais velhas, tendemos a parar de pensar assim, e isso é um erro. As pessoas sempre precisam ser vistas como um todo, não apenas “ensino matemática e vou entregar isso a você”. Especialmente quando ensinam alunos mais velhos, os professores precisam pensar: vou descobrir qual é o suporte de que ela precisa.
As crianças, na maior parte do tempo, não são 'bullies' ou 'queen bees'. Queremos que as crianças saibam que acreditamos que elas podem mudar para melhor.
O que é preciso mudar para descobrir com mais facilidade esse suporte?
Às vezes os professores repetem coisas que ouviram quando eram jovens e que não funcionaram, mas não lhes damos outras coisas para dizer. Por exemplo, quando algo ruim acontece e um aluno é maldoso com outro, às vezes dizem apenas “chega!”. Mas deveria haver algum nível aceitável de maldade? Ou olham para a criança que parece mais culpada e focam apenas nela, quando ela pode estar reagindo a outra situação. Eu ensino professores a ver a sala inteira.
Como lidar salas de aula em frequente conflito? Os professores ainda têm o respeito dos alunos?
A maneira como as crianças aprendem a respeitar é estando em relação com elas, mostrando que você se importa com a aprendizagem delas e que as responsabiliza por um mau comportamento, mas também não as envergonha e humilha. Se você envergonha e humilha as crianças, elas se desligam da aprendizagem. Se ficam sentadas o dia todo, se desligam da aprendizagem. Se você fala de forma condescendente com elas, se desligam da aprendizagem. Se você favorece algumas crianças em relação a outras, elas se desligam da aprendizagem... São essas coisas que, se você conseguir mudar, realmente pode mudar a sala de aula. E é possível conseguir.
Há esse mito de 'tive uma experiência horrível, fui terrivelmente intimidado, e superei, e fiquei mais forte'. Não exatamente. Algo aconteceu que ajudou você.
O silêncio dos colegas que testemunham o bullying é um fator central na sua pesquisa. Como mobilizar esses espectadores?
Os espectadores só vão se manifestar quando acreditarem que escolas e pais estão falando honestamente com eles sobre o quão complicado é se manifestar e o custo disso. Se continuarmos dando programas antibullying e dizendo apenas “quando você vir algo ruim, diga algo”, eles nunca vão falar conosco. Não importa quanto dinheiro seja gasto em um programa, não importa quantos cartazes estejam na parede: programas antibullying são perda de tempo se não reconhecem como é difícil denunciar.
E, uma vez reconhecendo isso, qual é o próximo passo?
Que tal se perguntarmos: qual é a menor coisa que você pode fazer neste momento para melhorar a situação da pessoa alvo? Qual é a atitude mais simples que você pode tomar para mostrar ao agressor que você não concorda com o que ele está fazendo? Aí você tem avanços e eles vão levá-lo mais a sério.
Qual é o maior mito sobre bullying que ainda persiste nas escolas?
Que todo conflito é bullying. Não é. As pessoas podem ser rudes, podem ser maldosas, mas nem tudo é bullying. Isso não significa que não seja difícil, porque ninguém gosta de agressividade. Outro mito é que, se você não aguenta, você é fraco. Ou que precisa passar por isso para ficar mais forte. Para algumas pessoas pode ser o caso, mas geralmente elas tiveram alguém que as ajudou ao longo do caminho. Há esse mito de “tive uma experiência horrível, fui terrivelmente intimidado, e superei, fiquei mais forte”. Não exatamente. Algo aconteceu que ajudou você. E também há muitas pessoas para quem isso não é verdade.
Os professores devem intervir em conflitos que começam fora da escola, mas que afetam o clima escolar?
A escola tem que intervir. Se chegar à escola, o que quase sempre acontece, a ela deve intervir porque impacta o ambiente escolar. É por isso que professores, pais e diretores precisam trabalhar juntos, porque você entra no espaço do outro. Pais pertencem à escola, mas é como entrar no espaço privado uns dos outros. As pessoas ficam sensíveis: “isso é problema dos pais”, “isso é problema da escola”. Se impacta a escola, a escola tem que assumir responsabilidade. Como fazer isso é a arte da disciplina.
É preciso ouvir também os alunos mais complicados, para entender como é estar do outro lado das regras da escola.
Mas é difícil conciliar as diferentes perspectivas nesses episódios...
Sim. Quando as crianças saem de uma reunião em que foram disciplinadas, muitas vezes dizem aos amigos que nada aconteceu ou que a escola fez algo terrível. Os amigos contam aos pais, os pais contam nos grupos de WhatsApp, e os adultos acreditam em tudo, mesmo que não seja verdade. Isso começa com a criança tentando salvar a própria imagem. Precisamos apoiar uns aos outros, porque crianças sendo crianças é algo que faz parte do desenvolvimento, mas levamos isso adiante e sai do controle.
Como identificar líderes informais entre os estudantes e envolvê-los na resolução dos conflitos?
Depende do que você quer dizer por informal. Uma das coisas que faço é trabalhar com escolas em grupos de conversa estudantis, que não são de agremiações, mas alunos que podem ter tido problemas antes e agora contribuem. Eles se reúnem com um orientador para discutir regras, políticas, o que funciona ou não. Não são apenas líderes formais. É preciso ouvir também os alunos mais complicados, para entender como é estar do outro lado das regras da escola.


