O que é uma boa aula? Para responder a essa pergunta, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) realizou uma pesquisa com alunos de Ensino Médio dos três Estados da região Sul. O levantamento, que contou com a participação de 880 jovens, revelou que o engajamento nas aulas depende mais de conexão e mediação humanas do que de recursos tecnológicos.
Os resultados reforçam que, na percepção dos estudantes, o professor ocupa papel central no processo de aprendizagem.
A pesquisa contou com duas etapas: uma com respostas alternativas e outra com uma questão dissertativa. Na parte alternativa, o pedido era que fossem assinaladas as afirmações que mais contribuíssem para que uma aula fosse significativa e envolvente.
A alternativa “Utilizar recursos digitais e tecnologias que tornam o aprendizado mais interativo”, por outro lado, ficou em sétimo lugar e foi marcada por 409 jovens – menos da metade dos participantes – o que sugere que esses recursos são percebidos como complementares.
Já a questão dissertativa foi: “Pense nas melhores aulas que você já teve. O que elas tinham de especial? Quais elementos contribuíram para que você aprendesse mais e se sentisse motivado ou envolvido?”. No total, 778 alunos a responderam.
Entre os relatos, são recorrentes descrições de aulas marcadas pela proximidade com o professor, pela didática e pela conexão com a realidade. “Um professor que ama o que faz e ensina de forma envolvente”, escreveu um estudante.
Outro aluno destacou a importância da “interatividade entre professor e aluno, onde se consegue tirar todas as dúvidas”. Também aparecem referências a aulas que “não pareciam aulas, com eventos reais”, indicando valorização de experiências práticas e menos tradicionais.

Aprendizagem como ato humano
Gerente de Desenvolvimento do Ensino da Unisinos, Cristiane Schnack afirma que o estudo está inserido em um projeto mais amplo da universidade, voltado à aprendizagem experiencial.
— Esta pesquisa não é uma iniciativa isolada, mas parte de um programa, que se articula de forma muito íntima com a formação docente — explica a educadora.
Cristiane destaca que os resultados evidenciam algo já observado na literatura da área, mas que ganha força quando parte da escuta dos próprios alunos.
— Chama a atenção a importância da mediação pedagógica no processo de aprendizagem, e que a mediação mais valorizada é a dos professores. Isso reforça a importância da interação social, da conexão humana para a aprendizagem como um ato humano — observa a gerente da Unisinos.
Pró-reitor Acadêmico e de Relações Internacionais da Unisinos, Gustavo Borba coordena um grupo de pesquisa que busca analisar os espaços de aprendizagem, sejam eles físicos ou virtuais, e percebeu que, normalmente, o debate sobre o que é uma boa aula acaba não passando pelo aluno.
— Sempre projetamos as salas de aula da melhor forma possível, com paredes que podem ser riscadas, com cadeiras com rodinhas e tudo o mais, mas o que, de fato, é uma boa aula para o aluno? E alguns resultados dessa pesquisa são muito interessantes, porque a gente fica falando em tecnologia, inteligência artificial, mas, quando perguntamos para os alunos, eles trazem coisas que fogem desse lugar — destaca Borba.
O pró-reitor avalia que o resultado ressalta a importância do professor na aprendizagem, independentemente do espaço em que a aula seja ministrada, ainda que uma boa infraestrutura facilite esse processo.
Borba também destaca que o engajamento está diretamente ligado à interação em aula:
— Na realidade, é na interação entre eles que se dá a aprendizagem. O espaço, por exemplo, ou qualquer tecnologia, é um meio para que isso aconteça.
Segundo o docente, reconhecer a diversidade de experiências dentro da sala de aula é uma das competências centrais do professor contemporâneo.
— À medida que eu consigo capturar a potência dessa pessoa, eu consigo, a partir dos estudantes, desenvolver mais conhecimento e maior engajamento — avalia Borba.
A pesquisa foi realizada entre os meses de setembro e novembro de 2025 em escolas do Paraná, do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Apesar de o questionário ter sido respondido de forma online, a pesquisa foi aplicada em salas de aula. O estudo foi realizado em uma parceria entre as atividades de formação docente e o Instituto para Inovação em Educação da Unisinos.


