Iniciativas conduzidas por estudantes têm transformado o debate sobre igualdade de gênero em escolas gaúchas. As atividades vão desde a promoção de conversas sobre temas que afetam a existência feminina até a ampliação da presença das mulheres em espaços ainda de maioria masculina.
Na rede municipal de Porto Alegre, o Coletivo Luísa Marques, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hilaire, promove ações sobre direitos das meninas, combate à violência sexual e dignidade menstrual. Já no Colégio Marista Pio XII, em Novo Hamburgo, o projeto Girls in Control incentiva a participação feminina na robótica e em áreas de exatas. Em contextos distintos, as duas experiências mostram como o protagonismo estudantil pode ampliar espaços e oportunidades para meninas.
No caso da Saint Hilaire, o Coletivo Luísa Marques surgiu a partir do interesse de alunas pela leitura e se transformou em um grupo que debate questões relacionadas à igualdade de gênero e aos direitos das meninas.

— Começou a partir da nossa vontade de leitura. A gente queria criar um projeto coletivo, que espalhasse a leitura para as pessoas — relata Joana Dorneles de Souza, 16 anos, uma das fundadoras.
Com o tempo, o coletivo passou a abordar temas como menstruação, saúde mental e violência sexual contra meninas e mulheres. Segundo Joana, a proposta é que as próprias estudantes conduzam o diálogo.
— A gente tem essa conversa de criança para criança, de adolescente para adolescente. Não é o adulto vindo falar com a gente: é uma conversa entre os nossos pares — explica a adolescente.
A pauta de violência sexual surgiu no grupo depois que uma amiga de Joana contou a ela em segredo que sofria abusos do pai. Na época, ambas tinham 10 anos. A integrante do coletivo, então, contou para a professora Maria Gabriela Souza, que coordena a iniciativa, que encaminhou a situação para o Serviço de Orientação Educacional e para a rede de acolhimento do município.
— Hoje a minha amiga está bem, está longe do agressor. Mas eu percebia que a realidade da minha amiga era a realidade de muitas meninas e mulheres da nossa comunidade. Então, decidimos criar esse projeto para combater a violência sexual e dizer que as crianças têm o poder de dizer não e denunciar na escola — descreve a jovem.
Para tratar de um assunto tão pesado com estudantes tão novos, as meninas criaram uma metodologia lúdica que envolve a encenação de trechos do livro “Leila”, de Tino Freitas, no qual uma fábula com personagens do fundo do mar aborda um caso de abuso sexual. O Chama Violeta e a performance renderam ao Coletivo Luísa Marques um convite para que as alunas participem do 3º Congresso Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, que ocorre em Brasília, em maio. Como a organização do evento só custeia a ida de duas representantes, o grupo busca recursos para que todas as integrantes do coletivo façam a viagem e, assim, possam fazer a encenação.

A estudante Mariah Ayana Charão Saldanha, 13 anos, destaca que o coletivo contribuiu para que meninas se sentissem encorajadas a falar sobre seus direitos.
— Quando eu menstruei pela primeira vez, eu já sabia o que era menstruação. Então tudo isso é parte de um sonho meu, de falar com outras meninas, outras crianças e dizer que elas podem ter voz. Que não são só os adultos ou só os homens que podem ter voz — defende a menina.
As ações do grupo incluem rodas de conversa, contação de histórias e criação de materiais educativos. Além da discussão, o coletivo também desenvolve iniciativas práticas. Um kit com ecobag, dois absorventes reutilizáveis de pano, uma bolsa térmica feita com sementes para aliviar cólicas menstruais e um livro escrito e ilustrado pelas estudantes sobre o assunto é vendido pelo grupo. Para cada kit vendido, outro é doado para meninas e mulheres de comunidades periféricas, segundo a aluna Alice Aparecida Fernandes dos Passos.
— Antes dessa bolsa térmica, quando as meninas sentiam cólica, elas pediam para ir embora ou pediam para tomar remédio. E, quando elas iam embora, acabavam perdendo o conteúdo das aulas. Vendo que isso estava acontecendo com várias meninas, a gente resolveu criar essa bolsa térmica — explica a adolescente.
O debate sobre menstruação também busca combater estigmas. A estudante Rayssa Ramos Amaral de Silva, 11 anos, afirma que o grupo procura desconstruir a ideia de que meninas deixam de ser crianças ao menstruar.

— A maioria dos adultos são acostumados a falar para as crianças que elas viraram mocinhas quando menstruam, só que elas não viraram mocinhas, elas continuam sendo crianças, só que elas menstruam — observa a menina, mostrando uma bonequinha de crochê que o grupo leva para as palestras, de uma menina que, por baixo da saia, usa um absorvente.
Protagonismo
Para a professora Maria Gabriela Souza, que acompanha o coletivo, o protagonismo das alunas é o elemento central da iniciativa. A docente afirma que o papel da escola é criar condições para que as estudantes desenvolvam projetos a partir de suas próprias demandas.
— Elas trazem os problemas que elas encontram na escola, na comunidade, e perguntam: “Não dá para fazer um projeto disso?". Então, o meu papel é mediar isso e criar condições para que elas potencializem o que estão propondo — sintetiza Maria Gabriela.
A atuação do coletivo passou a inspirar outras instituições. Mariah afirma que o objetivo é incentivar mais meninas a criarem iniciativas semelhantes.
— Quando a gente vai nas outras escolas, a gente sempre incentiva as meninas a criarem os projetos, os clubes, a gente fala para elas criarem um projeto que fala sobre a menstruação na escola delas, sobre o direito das meninas — cita a garota.
Meninas na robótica
Enquanto o Coletivo Luísa Marques atua no campo social e formativo, o projeto Girls in Control, no Colégio Marista Pio XII, de Novo Hamburgo, busca ampliar a presença feminina na robótica. A iniciativa surgiu a partir da percepção de que, embora as equipes fossem abertas a todos, as meninas ainda eram minoria e, muitas vezes, concentradas em funções específicas. O projeto passou, então, a desenvolver ações de incentivo à entrada, permanência e liderança feminina dentro das equipes.
— Participar da equipe de robóticos é muito grandioso, mas esse projeto deixa esse processo ainda melhor, porque ele nos ajuda a nos integrar melhor dentro da equipe, nos ajuda a ver quem pode entrar na área, quem se quiser. Então, quem se quiser fazer mecânica, vai estar sendo apoiada. Então, eu acho que é um processo bem mais leve — afirma Yasmine Holanda Magalhães, 13 anos.
Para Luiza do Nascimento Mundstock, 16 anos, o contato com outras meninas na área foi decisivo.
— Quando eu entrei, a primeira coisa que fizeram foi me mostrar uma menina que estava na área da mecânica para me incentivar e mostrar que eu posso participar também de qualquer área de conhecimento que eu quiser — relata a jovem, que pretende cursar faculdade de Engenharia Mecânica.
Além de estimular a entrada, o projeto atua na permanência das estudantes, incentivando a ocupação de funções técnicas e de liderança.
— Não é só a questão de entrar, é a questão de se manter lá dentro e ganhar o seu espaço. E o Girls in Control ajuda muito nisso, de entender que todo mundo tem envolvimento na equipe — acrescenta Luiza.
As ações incluem reuniões temáticas, atividades de mentoria e iniciativas voltadas à representatividade feminina. O grupo também desenvolve aulas para turmas mais novas, buscando despertar o interesse de meninas ainda no Ensino Fundamental.
— Todo ano a gente faz uma atividade com o 5º ano, que é onde eles têm a robótica no currículo, na qual a gente faz uma atividade mostrando um pouquinho do nosso trabalho, para que eles vejam as meninas sempre na liderança para mostrar que elas têm poder ali, que elas podem fazer o que elas quiserem — afirma Yasmine.



