Foi ao perceber que nem todo aluno aprende com o formato padrão de ensino nas escolas que um adolescente de Novo Hamburgo, no Vale do Sinos, teve uma ideia: usar a inteligência artificial (IA) para criar um assistente virtual que ajudasse estudantes neurodivergentes a estudar.
O projeto de Kelvin Moraes, 17 anos, surgiu da observação de colegas que enfrentavam desafios para acompanhar conteúdos escolares e de experiências pessoais.
— Eu tinha muita facilidade para aprender alguns assuntos específicos, mas, em outros, tinha muita dificuldade. Comecei a ver que muitos colegas que sofriam com esse problema tinham TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e que o sistema de ensino não conseguia comportar (essas dificuldades) direito. Aí, vi uma brecha onde eu poderia pensar em alguma solução — conta o jovem, que tem "suspeita" de TDAH, mas ainda não teve um diagnóstico confirmado.
Aluno do 3º ano do Ensino Médio do Colégio Estadual 25 de Julho, Kelvin se interessa desde criança por tecnologia, e formalizou o seu conhecimento na área durante o curso de Desenvolvimento de Sistemas – Bilíngue do Senac, concluído no início de 2026.
A ideia do assistente, que recebeu o nome de “Flexia”, se estruturou quando o adolescente soube que estavam abertas as candidaturas para o Gemini 3 Hackathon, da Google, que pedia projetos que aplicassem a IA para a solução de demandas da população. Inspirado pela mãe, que faz formação em psicanálise, o estudante decidiu elaborar um recurso que apoiasse pessoas neurodivergentes.
Além do desenvolvimento técnico, o garoto precisou conciliar estudos, trabalho e dificuldades financeiras.
— Eu trabalho numa agência de programação que é do meu professor (do curso técnico). Ele me contratou quando eu estava quase que tendo que desistir do curso por não conseguir pagar. A partir dali, eu comecei a programar pra ele, consegui alguns clientes próprios e, com esses clientes, consegui terminar o curso — lembra.

Como funciona
O Flexia começa a sua operação a partir de um questionário inicial, que adapta as respostas conforme o perfil do estudante.
— Cada neurodivergente tem sua peculiaridade. Tem pessoas que aprendem com atividades mais visuais, ou com textos mais curtos e rápidos. Eu fui estudando sobre as demandas de cada tipo de neurodivergência e comecei a montar um motor, que vai se aperfeiçoando conforme a pessoa vai usando — explica o jovem.
Para pessoas com TDAH, por exemplo, há a opção de escolher que o assistente dê respostas curtas e objetivas. Já para quem tem dislexia – dificuldade no reconhecimento da correspondência entre os símbolos gráficos e os fonemas, bem como na transformação de signos escritos em signos verbais – as letras podem ser configuradas para aparecerem maiores e mais separadas.
A conexão com o Google Sala de Aula, ferramenta voltada para escolas e alunos, permite que o Flexia identifique os conteúdos estudados em sala de aula por aquele usuário e as atividades que ainda estão em aberto.
— Mesmo que eu não goste daquele conteúdo, a ferramenta sabe que é mais urgente entregar aquilo e logo, por eu não saber o conteúdo, ela prioriza a entrega daquilo, para que eu consiga aprender antes — diz Kelvin.
Outra funcionalidade permite a formação de sistemas complexos em imagens, como cadeias carbônicas. O chat do Flexia também comporta emojis, fórmulas matemáticas, imagens visuais e gráficos.

Perspectivas
O objetivo é expandir o uso para instituições de ensino. Segundo Kelvin, o assistente foi pensado como complemento ao trabalho do professor.
— Usar durante a aula não seria tão vantajoso porque nós já temos o professor ali. O objetivo não é substituir o professor de alguma forma, mas sim ter uma ferramenta auxiliar caso, depois da aula, ainda haja alguma dúvida — afirma o aluno.
A IA também organiza conteúdos e identifica dificuldades recorrentes dos estudantes.
— Eles (os usuários) conseguem ver todos os conteúdos postados pelos professores. Se alguns alunos ficaram com dúvida sobre algum conteúdo, o Flexia sincroniza dados da turma inteira e manda uma sinalização para o professor — descreve o adolescente.
Desde o início da sua elaboração, o assistente recebeu mais de 160 atualizações. Hoje, a ferramenta está em fase de testes com alunos com diferentes perfis.
— Alguns usuários de teste são amigos meus, todos com neurodivergência. E a minha escola pegou três alunos com neurodivergência que eu não conheço para testarem também — explica.
A expectativa é ampliar o uso da ferramenta em escolas nos próximos meses.
