Amplamente inseridos na rotina escolar, grupos formados por mães e pais de alunos no WhatsApp são espaços importantes para a troca de informações e de apoio entre as famílias. Quando bem conduzidos, esses grupos ajudam os responsáveis a acompanharem mais de perto a vida escolar das crianças e adolescentes.
Em contrapartida, excessos e falta de limites podem transformar o ambiente em foco de conflitos, gerando dor de cabeça aos participantes. Existem dois tipos de grupos – aqueles moderados pela escola, que normalmente servem para avisos e comunicados, e chats paralelos sem participação da gestão escolar, somente com as famílias.
Em ambos os casos, é preciso atenção para que a comunicação ocorra de forma harmoniosa. Para a psicopedagoga Esther Cristina Pereira, diretora de educação do Instituto Destino Brasil, para evitar conflitos, os pais precisam ter cuidado com o comportamento nesses ambientes.
— Se for utilizado de forma inteligente, o WhatsApp tem muitos benefícios. Quando as pessoas não conseguem ter autorregulação, sobra para todo mundo, inclusive para a escola. É importante evitar fofocas e não dar sua opinião com relação à situação do outro e aos problemas alheios. Evitar palavrões, tudo isso ajuda a prevenir confrontos — explica.
Os grupos também podem virar palco de debates sobre temas delicados, como política, racismo e homofobia. Nestes casos, o respeito é fundamental para evitar discussões mais acaloradas.
— A criança precisa sempre ser ajudada, ela é um ser humano em formação. Nós, enquanto adultos, temos que ter essa preocupação. E, a partir do momento em que você participa de um grupo de WhatsApp de escola, você faz parte de uma pequena comunidade. É preciso respeitar uns aos outros para que seja positivo — destaca Esther.

Evitando excessos
Segundo a terapeuta cognitivo-comportamental Carolina Lisboa, para ter experiências mais equilibradas nos grupos, uma boa dica para os pais é evitar a superproteção e o controle exagerado dos filhos. Muitas vezes, os responsáveis cometem excessos por conta da preocupação, e isso se reflete nas relações com outras famílias.
— Os filhos são muito importantes para nós, mas o pai não tem que viver a vida do filho. A gente tem ansiedade, temos temores. Mas temos que permitir que eles vivam, cometam erros, desenvolvam a personalidade e a própria independência, isso influencia muito no contexto parental — explica.
Isso ocorre quando os pais tentam planejar e acompanhar cada passo dos filhos na escola, por exemplo, ou se envolver em decisões pedagógicas que competem à instituição de ensino. Em grupos com a participação do colégio, isso também pode gerar desconforto.
Outro fator que contribui com possíveis desentendimentos é o próprio ambiente digital, que potencializa radicalismos e aumenta a impulsividade, explica Carolina:
— As redes sociais, incluindo o WhatsApp, são contextos que provocam uma dificuldade de eu me conectar com o sentimento de quem está lá do outro lado. Então, eu tenho uma tendência a não acionar o meu freio inibitório e a falar coisas como se eu não fosse empático, como se eu não fosse preocupado com o outro. Essa desinibição age muito fortemente.
Por isso, é preciso redobrar a atenção com as palavras para evitar excessos. Em alguns casos, ignorar provocações pode ser a melhor saída, ressaltam as especialistas, reforçando que os adultos são modelos de comportamento para as crianças.
É o caso da coordenadora de qualidade Cátia Wittler, mãe de Nathália, que estuda em uma escola da rede La Salle em Porto Alegre. A mãe participa de um grupo de pais da turma da filha, e conta que a convivência é tranquila na maior parte do tempo:
— Sempre procuro extrair o que tem de melhor do grupo, como a troca de informações. Por exemplo, indicação de organizador de festa infantil, ou quem tem tal livro. As mães se ajudam muito, no sentido de lembrar quando tem alguma atividade, por exemplo. Os grupos sempre vão existir, é inevitável, então temos que saber separar essas questões de conflito e aproveitar o que tem de bom — ressalta.
Na visão da estatística e cientista de dados Dirlene Melo Santa Maria, 48 anos, mãe de dois estudantes em Canoas, os grupos de mães deveriam ser focados em avisos e apoio entre as famílias. Ela participa de dois grupos formados pelos pais e responsáveis.
— A ideia do grupo de WhatsApp é muito boa, mas às vezes foge do objetivo. Muitas vezes as pessoas expõem problemas particulares, que poderiam ser resolvidos diretamente com a escola. O excesso de mensagens também atrapalha. Aí, coisas úteis acabam se perdendo, como lembretes de provas, trabalhos, reuniões. Acabam se criando polêmicas — opina.

Papel da escola
Conforme Carolina, um dos principais benefícios dos grupos escolares é para agilizar a comunicação. Nesse sentido, os pais podem compartilhar lembretes de reuniões, trocar experiências e apoiarem uns aos outros, doando material escolar, por exemplo. Ou até mesmo conquistar melhorias por meio de mobilização do grupo.
Vale lembrar que é possível acionar a direção da escola sempre que houver conflitos mais sérios, ou quando surgirem reivindicações. O ideal é que isso seja feito por um representante das famílias. Essa é a estratégia usada pela servidora Milena Miranda, 25 anos, de Novo Hamburgo. Ela participa do grupo com outras famílias com filhos na Escola Municipal de Educação Infantil Bem-te-vi:
— Temos um grupo de pais à parte, sem a escola, onde às vezes ocorrem polêmicas, como os boatos sobre a ameaça de atentado que tivemos nas escolas aqui em Novo Hamburgo. Mas acaba sendo levado sempre para a direção, para que possamos resolver da melhor forma para os nossos pequenos.

No caso da escola no Vale do Sinos, também existe um grupo com mediação da escola, mas trata-se de um canal de transmissão, focado somente em comunicados. Outras instituições apostam em grupos junto às famílias, permitindo comentários e debates, como a Escola de Educação Infantil Trenzinho da Alegria, na Capital.
Para a dona de casa Renata Carvalho, 37 anos, mãe de uma aluna da escolinha, esse contato facilita para os dois lados e amplia o envolvimento das famílias. Segundo ela, antigamente a participação era limitada, e hoje o WhatsApp permite maior aproximação com o universo escolar dos filhos:
— É uma questão de praticidade. Assim, elas não precisam enviar no privado para cada mãe as fotos, vídeos e recados. Tem alguns pais que participam mais, outros que não se engajam muito. Mas o grupo com a escola ajuda muito, até porque às vezes a minha dúvida é a dúvida da outra mãe, aí já fica tudo esclarecido ali.
Conflitos são raros no grupo da turma da filha dela, de acordo com Renata. Quando surgem, a própria escola ou outros responsáveis rapidamente lembram o propósito do espaço ou levam a conversa para o privado.
— Nós temos grupos por turma. A gente utiliza muito para manter os pais informados sobre acontecimentos da escola, mesmo. Quando vamos fazer uma festinha diferente, festinha à fantasia, a gente manda nos grupos individuais de cada turma solicitando que as crianças venham caracterizadas de tal personagem. Ou quando é Halloween, Dia das Bruxas, festinha de Páscoa — explica a professora Greice Pereira, uma das mediadoras.
Para as representantes da instituição, além de facilitar a comunicação, o grupo ajuda a conhecer melhor as famílias e organizar a rotina da escola. Na avaliação de Greice, é uma plataforma essencial.
