
Uma pesquisa ouviu 98 mil estudantes no Rio Grande do Sul e fez um raio-x da percepção e dos desejos dos alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental relacionados à escola. Entre as principais demandas dos adolescentes gaúchos, está o acolhimento emocional e um ensino mais “mão na massa”, interativo e conectado à vida real.
O estudo Escuta das Adolescências foi realizado pelo Ministério da Educação (MEC) em parceria com o Itaú Social, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e a União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com questionários realizados em maio de 2024 com 2,3 milhões de estudantes de escolas estaduais e municipais. Devido à enchente, no RS, a escuta dos alunos ocorreu em outubro daquele ano.
Segundo a superintendente do Itaú Social, Patrícia Mota Guedes, para muitas escolas, essa foi a primeira vez que um exercício intencional de escuta ativa dos adolescentes foi realizado. O objetivo foi transformar a rotina escolar, saindo de um modelo expositivo para um que acolha as transições físicas e emocionais próprias dessa fase do desenvolvimento.
— Um conjunto de materiais para apoiar as escolas nessas atividades foi criado, para auxiliá-las a fazer rodas de conversa, produções artísticas, produções de escrita, de reflexão que podem facilitar, dinamizar e apoiar os adolescentes a se expressarem. Trabalhar com adolescentes exige da escola uma abertura para mais escuta, mais conversa, para formas de participação que acolham tudo o que está acontecendo nessa fase de tanta transição — observa Patrícia.
A superintendente aponta que, à medida que avançam do 6º para o 9º ano, os estudantes tendem a perder o encantamento pela escola, o senso de pertencimento e o engajamento. Isso se reflete no aumento do absenteísmo e abandono escolar, especialmente entre os mais vulneráveis. Para Patrícia, a pesquisa mostra que os estudantes pedem uma escola que "reconheça toda a potência desta fase".
Crise climática
Em virtude da crise climática, uma série de questões foi incluída no questionário focado nos estudantes gaúchos, que disseram respeito às ações realizadas naquele período e ao que eles entendiam ser prioridade.
A ação mais citada como prioritária foi o recebimento e a oferta de doações por parte da escola, medida mencionada por 55% dos alunos de 6º e 7º ano e por 57% daqueles que cursavam o 8º ou o 9º ano. Em segundo lugar ficaram as iniciativas de fortalecimento da confiança dos adolescentes, mencionada por 56% dos mais novos e 50% dos mais velhos.
Somente depois aparecem ações como garantir o aprendizado previsto (49%), oferecer atendimento psicológico (43%) e ceder espaço para outros serviços públicos (32% entre os menores e 34% entre os maiores).
O interesse dos estudantes variou conforme a faixa etária, mas foi identificado um forte desejo por conhecimentos para além das disciplinas tradicionais. O ensino de educação financeira, por exemplo, é considerado essencial para o futuro por 38% dos alunos de 8º e 9º ano do RS, percentual muito superior aos 24% registrados na média nacional.
A menção de atividades esportivas e de bem-estar também foi mais citada por estudantes gaúchos do que a média brasileira. Entre as turmas de 6º e 7º ano, 45% mencionaram essas práticas como prioridade, contra 31%, em nível nacional. No RS, o índice foi superior a disciplinas tradicionais como língua portuguesa, matemática, ciências humanas e ciências da natureza (41%).
Quando perguntados sobre o que almejavam para a escola do futuro, os alunos do 6º e 7º ano no RS priorizaram práticas esportivas (44%) e atividades com tecnologia e mídias digitais (41%).
Já no grupo de estudantes do 8º e do 9º ano, educação financeira fica em primeiro lugar (38%) como tema considerado essencial para o desenvolvimento, seguida por esportes e bem-estar (37%) e pelas disciplinas tradicionais (34%). Autoconhecimento, autocuidado e saúde mental aparecem com 31%. Quanto às atividades essenciais na escola do futuro, práticas esportivas (42%) e aulas práticas com projetos mão na massa (42%) lideram, seguidas por atividades com tecnologia e mídias digitais (37%). Ações para preparação profissional surgem com 26%, item apresentado como opção apenas para o grupo mais velho.
Em relação às formas de aprender que os ajudariam no desenvolvimento, 44% dos estudantes do 6º e 7º ano do Estado priorizam fazer visitas, passeios e trabalhos fora da escola, índice que sobe para 48% entre os de 8º e 9º ano. Trabalhos em grupo aparecem com 41% entre os mais novos e declinam para 35% entre os mais velhos, enquanto aulas de reforço em pontos em que têm dificuldade ficam estáveis em 22% em ambos os grupos.
Necessidade de movimento
Para Patrícia, os altos percentuais de interesse em visitas, passeios e trabalhos fora da escola vão ao encontro com a necessidade dos adolescentes de darem concretude e sentido para o que estão aprendendo.
— Se eu estou estudando os rios em ciências da natureza, por exemplo, um estudo de campo no meu próprio bairro, olhando o córrego ou o canal, podem ajudar a entender mais as questões que estou aprendendo no livro didático e na sala de aula, ou até mesmo na internet. Esse é um pedido muito forte dos adolescentes, inclusive entre os adolescentes gaúchos, assim como um pedido de valorização não só da tecnologia e das mídias digitais, mas também das práticas esportivas — ressalta a superintendente.
Patrícia destaca que o que os adolescentes mostram na pesquisa, a neurociência já dizia: o movimento físico não está desconectado das funções executivas, de memória e capacidade analítica cognitiva. Por isso, é importante pensar em equilibrar movimento físico e aprendizagens que exijam concentração.



